Quando o vento vira denúncia: assistir “Aracati” e escutar o que sopra do sertão
Saí do Teatro do Centro Cultural Dragão do Mar hoje com a sensação rara de que não tinha apenas assistido a um espetáculo, mas participado de uma escuta. Aracati , dirigido e interpretado por Edceu Barbosa, não é teatro de grandes cenários ou de efeitos exuberantes. É teatro de presença, de memória e de território. E talvez por isso mesmo seja tão potente. A experiência foi íntima. Em vários momentos, não me senti diante de um ator, mas diante de alguém partilhando um pedaço de vida que, de tão localizado, se torna universal. O vento Aracati, que para muitos no Interior do Ceará é sinal de frescor, encontro e respiro, ali ganha corpo como personagem, como memória afetiva e, sobretudo, como campo de disputa política. Memória como resistência O que mais me tocou foi perceber como o espetáculo trata a memória não como nostalgia, mas como resistência. As lembranças da avó chamando para a calçada, o ritual coletivo de esperar o vento, os vínculos comunitários mediados p...