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Mostrando postagens de janeiro, 2026

Quando o vento vira denúncia: assistir “Aracati” e escutar o que sopra do sertão

  Saí do Teatro do Centro Cultural Dragão do Mar hoje com a sensação rara de que não tinha apenas assistido a um espetáculo, mas participado de uma escuta. Aracati , dirigido e interpretado por Edceu Barbosa, não é teatro de grandes cenários ou de efeitos exuberantes. É teatro de presença, de memória e de território. E talvez por isso mesmo seja tão potente. A experiência foi íntima. Em vários momentos, não me senti diante de um ator, mas diante de alguém partilhando um pedaço de vida que, de tão localizado, se torna universal. O vento Aracati, que para muitos no Interior do Ceará é sinal de frescor, encontro e respiro, ali ganha corpo como personagem, como memória afetiva e, sobretudo, como campo de disputa política.   Memória como resistência O que mais me tocou foi perceber como o espetáculo trata a memória não como nostalgia, mas como resistência. As lembranças da avó chamando para a calçada, o ritual coletivo de esperar o vento, os vínculos comunitários mediados p...

Pare de tentar controlar tudo

  Escrevo este texto porque essa frase “ pare de tentar controlar tudo “ não é conselho que dou apenas aos outros. É algo que eu mesmo precisei aprender, e continuo aprendendo. A psicologia me ajudou a entender que a necessidade de controle raramente nasce da força. Ela nasce do medo. Medo de errar. Medo de perder. Medo de sofrer. Medo de não dar conta. O controle, muitas vezes, é uma tentativa de anestesiar a incerteza.   O que a psicologia diz sobre controle Do ponto de vista psicológico, buscar controle é natural. Nosso cérebro gosta de previsibilidade porque ela reduz ansiedade. Saber o que vai acontecer economiza energia emocional. O problema começa quando o controle deixa de ser estratégia e vira prisão. A necessidade excessiva de controle costuma estar ligada a: ansiedade experiências de imprevisibilidade no passado insegurança emocional medo de rejeição ou fracasso sensação de responsabilidade exagerada Não é sobre organização. ...

81 anos da libertação de Auschwitz: memória, alerta e o fascismo que muda de roupa

  Falar de Auschwitz não é apenas falar de história, é falar de responsabilidade. Os 81 anos da libertação de Auschwitz não marcam só a derrota de um campo de extermínio; marcam a revelação concreta do que acontece quando o ódio vira política de Estado e a desumanização vira linguagem cotidiana. Auschwitz não começou nas câmaras de gás. Começou em discursos. Em piadas. Em teorias de superioridade. Em leis que definiam quem era gente e quem era problema. É isso que torna sua memória tão incômoda: ela mostra que o horror não nasce de repente. Ele é construído passo a passo, com adesões graduais e silêncios convenientes. Lembrar disso hoje não é exagero histórico. É lucidez.   O que Auschwitz realmente libertou Costuma-se dizer que Auschwitz foi libertado em 27 de janeiro de 1945. Mas, ao ler relatos de sobreviventes, percebo que a libertação foi ambígua. Muitos saíram vivos, mas nunca saíram ilesos. Libertar o corpo não libertou a memória. E talvez haja outra camada:...

“Moscou feliz”: quando a utopia encontra o vazio

  Ler Moscou feliz ( Schastlívaya Moskva ), de Andrei Platónov , foi para mim uma experiência de estranhamento e lucidez. Não é um romance confortável, nem uma leitura que se resolve em enredo. É um livro que parece sussurrar algo incômodo sobre os sonhos coletivos: nem toda promessa de felicidade produz vida; às vezes produz vazio . Esse livro me deslocou. Platónov escreve de dentro da experiência soviética, mas sua crítica atravessa tempos e sistemas. Ele não faz panfleto anticomunista nem propaganda revolucionária. Ele faz algo mais raro: mostra o que acontece com o humano quando a utopia vira programa rígido.   A felicidade como projeto de engenharia A personagem Moscou Tchestnova, cujo nome já carrega o peso simbólico da cidade e da promessa, é apresentada como filha da revolução, corpo e espírito moldados pela ideia de futuro. Ela é energia, movimento, projeto. Mas, ao longo do livro, percebe-se que essa felicidade proclamada é frágil, quase abstrata. Platónov...

O sentimento de onipotência do obsessivo segundo Ferenczi: entre o controle e o desamparo

  Escrevo sobre o sentimento de onipotência do obsessivo a partir de Ferenczi com certo cuidado, porque esse tema toca numa dimensão muito humana: a tentativa de controlar o mundo para não entrar em colapso diante dele. Não falo aqui de “mania de grandeza”, mas de algo mais sutil e, muitas vezes, sofrido. A onipotência do obsessivo não é soberba; é defesa. Ao ler Ferenczi, fui entendendo que a onipotência, nesses casos, não nasce do excesso de força, mas do medo do desamparo.   O que Ferenczi percebeu Ferenczi tinha uma sensibilidade rara para o sofrimento real dos pacientes. Diferente de uma psicanálise mais fria ou distante, ele escutava o que estava por trás dos sintomas. Quando fala do obsessivo, ele observa algo importante: a crença inconsciente de que o pensamento tem poder direto sobre a realidade. Não é magia literal, mas quase isso no plano psíquico. O obsessivo teme que: pensar algo ruim possa causar dano desejar algo agressivo possa reali...