Homem na Parada de Ônibus
O homem espera o ônibus como quem espera salário: sem esperança, mas por obrigação. O sol bate seco na chapa dos carros, nos ombros curvados, na fome das dez horas. Ninguém conversa. A cidade desaprendeu o desperdício da palavra. Cada rosto carrega sua pequena contabilidade: boletos, atrasos, cansaços parcelados. Uma mulher segura a bolsa contra o peito como se defendesse o último território possível. O menino mastiga biscoito olhando o asfalto. Aprende cedo a pedagogia da espera. O ônibus chega. Não chega: arromba. Abre as portas como boca de máquina. Os corpos entram uns dentro dos outros sem escolha, sem espaço para metáforas. Ali dentro o suor não é humano: é coletivo. Mistura de desodorante barato, pressa e sobrevivência. O homem segura na barra de ferro como quem segura a própria permanência no mundo. Lá fora, os prédios continuam crescendo. Altos, espelhados, indiferentes. A cidade fabrica riqueza para poucos ...