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Homem na Parada de Ônibus

  O homem espera o ônibus como quem espera salário: sem esperança, mas por obrigação. O sol bate seco na chapa dos carros, nos ombros curvados, na fome das dez horas. Ninguém conversa. A cidade desaprendeu o desperdício da palavra. Cada rosto carrega sua pequena contabilidade: boletos, atrasos, cansaços parcelados. Uma mulher segura a bolsa contra o peito como se defendesse o último território possível. O menino mastiga biscoito olhando o asfalto. Aprende cedo a pedagogia da espera. O ônibus chega. Não chega: arromba. Abre as portas como boca de máquina. Os corpos entram uns dentro dos outros sem escolha, sem espaço para metáforas. Ali dentro o suor não é humano: é coletivo. Mistura de desodorante barato, pressa e sobrevivência. O homem segura na barra de ferro como quem segura a própria permanência no mundo. Lá fora, os prédios continuam crescendo. Altos, espelhados, indiferentes. A cidade fabrica riqueza para poucos ...

Corpo de Sombra

 À noite meu corpo desaperta os ossos e desaprende a disciplina dos dias. Fico assim: um homem atravessado por vozes antigas e por um desejo que não envelhece. Há um incêndio quieto morando debaixo da pele. Uma espécie de animal sem nome que me mastiga por dentro quando o silêncio da casa fica grande demais. E eu desejo. Não com a pressa vulgar dos corpos vazios, mas com esta fome funda de quem procura no outro uma passagem para além de si mesmo. Às vezes penso que amar é isto: encostar a própria ruína na ruína de alguém e chamar isso de abrigo. Então te invento. Te dou respiração, sombra, febre. Construo tua presença como quem ergue uma oração clandestina no meio da madrugada. Mas quando chegas és sempre menor que o abismo que carrego. Porque existe qualquer coisa em mim que não cabe completamente nem na carne nem na palavra “homem”. Carrego um excesso. Uma vertigem antiga misturada ao medo da morte e ao desejo absurdo de permanecer vivo dent...

Pedalar Também Pode Ser um Ato de Rebeldia: Reflexões Sobre Wadjda, de Haifaa Al-Mansour

  Assistir a Wadjda , dirigido por Haifaa Al-Mansour, foi para mim uma experiência ao mesmo tempo delicada e profundamente política. O filme parece pequeno à primeira vista: uma menina saudita que sonha em comprar uma bicicleta. Mas quanto mais a narrativa avança, mais percebemos que aquela bicicleta representa algo muito maior do que um simples objeto infantil. Ela representa liberdade. E talvez seja justamente isso que torna o filme tão poderoso. Wadjda é uma menina inteligente, inquieta, criativa e cheia de ironia diante das regras rígidas que organizam o mundo ao seu redor. Ela vive numa sociedade profundamente marcada pelo patriarcado e pelo controle dos corpos femininos. O mais impressionante é que o filme não precisa recorrer a grandes discursos ou cenas excessivamente dramáticas para revelar isso. A opressão aparece nos detalhes cotidianos: na escola, na forma de vestir, nas expectativas sobre comportamento, na vigilância constante, na ideia de que meninas não devem ...

Entre o Desejo e o Personagem: Reflexões Sobre O Que Você É e o Que Você Quer Ser, de Adam Phillips

  Ler Adam Phillips sempre me provoca uma sensação curiosa: a de estar diante de alguém que desconfia profundamente das respostas prontas sobre a vida humana. Em O Que Você É e o Que Você Quer Ser , essa inquietação aparece de forma intensa. O livro não oferece fórmulas de felicidade, mapas de autenticidade ou receitas para “descobrir quem somos”. Pelo contrário. Phillips parece interessado justamente em desmontar a obsessão contemporânea pela identidade fixa e pela ideia de realização completa. E confesso que isso me atravessou profundamente. Vivemos numa época em que as pessoas são constantemente pressionadas a construir uma versão coerente, estável e bem-sucedida de si mesmas. Desde cedo ouvimos perguntas como: “o que você vai ser?”, “qual sua vocação?”, “qual sua verdadeira identidade?”, “onde você quer chegar?”. A vida passa a ser organizada como projeto contínuo de performance pessoal. Mas Phillips desmonta silenciosamente essa lógica Para ele, existe sempre uma ten...

A Infância Sob Cerco: O Brasil Que Não Pode Continuar Fechando os Olhos

  Hoje, 18 de maio, Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, eu não consigo tratar essa data apenas como uma campanha institucional ou uma lembrança simbólica do calendário. Os dados recentes do Ceará me atravessam de maneira brutal. Saber que o Estado registrou, em média, mais de uma denúncia de violência sexual contra crianças e adolescentes por dia apenas nos três primeiros meses de 2026 revela algo profundamente adoecido na nossa sociedade. E o mais assustador talvez seja justamente isto: sabemos que os números reais são muito maiores. A própria Organização Mundial da Saúde estima que apenas uma pequena parcela dos casos chega às autoridades. Ou seja, por trás das estatísticas existem silêncios, medos, ameaças, dependências econômicas, famílias desestruturadas e crianças que seguem convivendo diariamente com seus agressores. Quando leio que a maioria dos abusadores está dentro de casa, pais, padrastos, tios, avôs, homens próximos ...

Entre Máquinas e Patriarcado: Reflexões Sobre a Filosofia Feminista da Tecnologia

  Durante muito tempo aprendi a olhar para a tecnologia como algo aparentemente neutro. Computadores, algoritmos, máquinas, plataformas digitais, inteligência artificial, redes sociais, tudo isso costumava ser apresentado como simples ferramenta técnica, quase sempre associada à ideia de progresso inevitável. Mas quanto mais observo o funcionamento do mundo contemporâneo, mais percebo que nenhuma tecnologia nasce fora das relações de poder. Foi justamente isso que comecei a compreender ao entrar em contato com a filosofia feminista da tecnologia. Ela não pergunta apenas “o que a tecnologia faz?”, mas também: quem cria a tecnologia? para quem ela é produzida? quais corpos ela privilegia? quais experiências invisibiliza? quais desigualdades reproduz? quais formas de poder intensifica? Essas perguntas me parecem fundamentais hoje. Porque vivemos numa sociedade profundamente mediada por sistemas tecnológicos. Algoritmos organizam informação, influenciam relações afetivas, m...

Ecossocialismo vs Capitalismo Verde: Qual é a Alternativa Real?

  Tenho a impressão de que uma das grandes disputas do século XXI não será apenas econômica ou tecnológica. Será civilizatória. O planeta já dá sinais claros de esgotamento: eventos climáticos extremos, secas prolongadas, enchentes devastadoras, destruição de biomas, crise hídrica, perda acelerada de biodiversidade e aprofundamento das desigualdades ambientais. Mesmo assim, grande parte das respostas oferecidas pelos centros de poder ainda parece incapaz de enfrentar as causas estruturais da crise. É nesse contexto que o debate entre capitalismo verde e ecossocialismo ganha importância. Confesso que tenho enorme desconfiança em relação ao chamado “capitalismo verde”. Não porque considere irrelevantes tecnologias sustentáveis, energias renováveis ou inovação ambiental. Pelo contrário. O problema é outro: o capitalismo verde frequentemente promete resolver a crise ecológica sem alterar profundamente a lógica econômica que ajudou a produzi-la. E aí vejo uma contradição central. Co...