O público que não decide: entre a ilusão democrática e o desconforto de Lippmann
Ler O Público Fantasma , de Walter Lippmann, foi como encarar um espelho incômodo, daqueles que não deformam a imagem, mas retiram dela todas as ilusões confortáveis. E eu confesso: não é um livro fácil de aceitar, especialmente para quem, como eu, acredita na potência da participação popular e na necessidade de radicalizar a democracia. Porque Lippmann vai direto ao ponto: o “público”, essa entidade que tanto invocamos, “a opinião pública”, “a vontade do povo”, não é o sujeito ativo, informado e racional que gostamos de imaginar. Ele é, segundo Lippmann, intermitente, desinformado e, muitas vezes, incapaz de compreender a complexidade dos problemas que o afetam. Dói ler isso. Dói porque há um fundo de verdade. Lippmann escreve em um contexto de expansão dos meios de comunicação de massa, mas sua análise parece antecipar o nosso tempo de redes sociais, fake news e polarização extrema. Ele argumenta que os cidadãos comuns não têm tempo, nem acesso, nem ferramentas para acomp...