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A República do Quintal

  Na cidade de Santa Eulália do Norte, onde os prédios cresciam mais depressa do que as árvores e os automóveis pareciam disputar entre si quem buzinava com maior ressentimento, morava o senhor Anselmo Valverde. Sua casa era uma sobrevivente. Espremida entre uma farmácia de vinte e quatro horas e um edifício de quinze andares chamado Residencial Jardim das Acácias, embora não houvesse uma única acácia no terreno, a casa de Anselmo resistia com suas paredes azuis, telhas antigas e um quintal tão vivo que chegava a parecer uma afronta ao planejamento urbano. Naquele quintal havia três mangueiras, um cajueiro torto, dois pés de limão, bananeiras, ervas medicinais, roseiras, samambaias e uma velha goiabeira que, segundo Anselmo, tinha mais juízo do que boa parte dos vereadores da cidade. Havia também galinhas, um peru, um pavão, um gato, um cachorro, dois coelhos e um porco chamado Sócrates. Anselmo tinha sessenta e três anos, era funcionário aposentado dos Correios e convers...

Quando a energia “limpa” adoece: por uma transição eólica com justiça ambiental

  Defendo a ampliação das fontes renováveis de energia. Diante do aquecimento global, da poluição causada pelos combustíveis fósseis e da urgência de reduzir as emissões de gases de efeito estufa, seria irresponsável rejeitar a força dos ventos como parte da solução energética. Entretanto, o caso da Comunidade Estrela, na zona rural de Trairi, obriga-me a fazer uma pergunta incômoda: uma energia pode ser considerada verdadeiramente limpa quando sua produção retira o sono, a saúde, o sossego e até a moradia das pessoas? O Ministério Público do Ceará ajuizou uma Ação Civil Pública Ambiental pedindo o desligamento dos aerogeradores AG01, AG02 e AG03 da Central Eólica Trairi. Segundo o órgão, os equipamentos teriam sido instalados muito próximos das residências, provocando ruídos constantes, especialmente durante a noite, e o chamado efeito de sombra, causado pela passagem periódica das pás diante da luz solar. A Semace autuou a empresa por poluição sonora e recomendou a paralisação ...

Quando o silêncio nos devolve o olhar

  Hoje, no Centro Cultural Banco do Nordeste Fortaleza, assisti a O silêncio barulhento dos seus olhos , solo de dança contemporânea concebido e interpretado por Fábio Sabath. Saí da apresentação com a sensação de que o silêncio, quando acolhido como linguagem, não representa ausência: ele pode guardar conflitos, afetos, lembranças, medos e tudo aquilo que o corpo sabe, embora nem sempre consiga transformar em palavras. Fábio Sabath é o nome artístico de Gleidison de Jesus Santos, artista sergipano e professor do curso de Dança da Universidade Federal de Sergipe. Sua trajetória começou aos 15 anos, em projetos estudantis, e foi se consolidando por meio da formação, da criação e da docência. Esse percurso aparece em cena não como exibição de currículo, mas como maturidade corporal. Há, em seus movimentos, uma consciência de que dançar não é somente executar gestos tecnicamente precisos. É elaborar experiências, interrogar a própria presença e produzir conhecimento por meio do corp...

Quando a “guerra ao extremismo” se transforma em guerra à democracia

  Vejo com profunda preocupação a nova ofensiva anunciada por Marco Rubio contra aquilo que o governo Trump resolveu classificar como “extremismo de esquerda”. Em uma conferência que reuniu representantes de mais de sessenta países, o secretário de Estado apresentou a violência política da esquerda como uma ameaça transnacional e defendeu maior cooperação internacional para combatê-la. O problema é que as categorias empregadas são deliberadamente vagas, enquanto as evidências apresentadas para justificar tamanha mobilização permanecem frágeis. A própria cobertura do encontro registrou que os episódios de violência atribuídos à esquerda continuam sendo menos numerosos e menos letais do que os relacionados à extrema direita nos Estados Unidos. Não considero irrelevante nenhum ato de violência política, venha de onde vier. Uma democracia deve investigar crimes concretos, responsabilizar seus autores e proteger a população. Contudo, existe uma diferença decisiva entre enfrentar organ...