Pedalar Também Pode Ser um Ato de Rebeldia: Reflexões Sobre Wadjda, de Haifaa Al-Mansour

 

Assistir a Wadjda, dirigido por Haifaa Al-Mansour, foi para mim uma experiência ao mesmo tempo delicada e profundamente política. O filme parece pequeno à primeira vista: uma menina saudita que sonha em comprar uma bicicleta. Mas quanto mais a narrativa avança, mais percebemos que aquela bicicleta representa algo muito maior do que um simples objeto infantil. Ela representa liberdade. E talvez seja justamente isso que torna o filme tão poderoso.

Wadjda é uma menina inteligente, inquieta, criativa e cheia de ironia diante das regras rígidas que organizam o mundo ao seu redor. Ela vive numa sociedade profundamente marcada pelo patriarcado e pelo controle dos corpos femininos. O mais impressionante é que o filme não precisa recorrer a grandes discursos ou cenas excessivamente dramáticas para revelar isso. A opressão aparece nos detalhes cotidianos:
na escola,
na forma de vestir,
nas expectativas sobre comportamento,
na vigilância constante,
na ideia de que meninas não devem andar de bicicleta porque isso ameaçaria sua “decência”.

E eu confesso que uma das coisas que mais me atravessaram no filme foi justamente perceber como a violência patriarcal muitas vezes opera de maneira silenciosa e naturalizada.

Não aparece necessariamente como brutalidade explícita o tempo todo. Ela se infiltra nas pequenas normas, nos costumes, nos limites invisíveis impostos aos desejos femininos desde a infância.

Wadjda quer apenas pedalar com o amigo pelas ruas. Algo aparentemente simples. Mas o mundo ao redor transforma esse desejo em problema moral.

E talvez isso diga muito sobre sociedades autoritárias: elas frequentemente começam controlando os corpos, os gestos e os desejos mais cotidianos.

Enquanto assistia ao filme, pensei bastante no quanto meninas em diferentes partes do mundo ainda crescem aprendendo que liberdade possui limites diferentes dependendo do gênero. Claro que os contextos culturais variam enormemente, e seria simplista olhar para a Arábia Saudita apenas a partir de uma visão orientalista ocidental que reduz sociedades árabes à opressão pura e simples. O mérito do filme está justamente em evitar caricaturas fáceis.

Haifaa Al-Mansour constrói personagens complexos. Até mesmo as mulheres adultas aparecem atravessadas por contradições. Muitas reproduzem normas patriarcais ao mesmo tempo em que sofrem dentro delas. A mãe de Wadjda, por exemplo, vive tensão constante entre afeto, resignação e desejo de autonomia. Sua vulnerabilidade diante da possibilidade de o marido buscar outra esposa por ela não conseguir lhe dar um filho homem revela muito sobre as estruturas patriarcais que organizam aquela sociedade.

Mas o filme também me fez refletir sobre algo mais amplo: a relação entre desejo e resistência. Wadjda resiste sem se tornar heroína idealizada. Ela negocia, improvisa, transgride discretamente, encontra brechas. Sua rebeldia não é grandiosa nem épica. É cotidiana.

E talvez muitas transformações sociais comecem exatamente assim:
pequenos gestos de desobediência diante daquilo que parecia natural.

A bicicleta torna-se símbolo disso. Ela não é apenas brinquedo. É movimento, autonomia, deslocamento, vento no rosto. Em sociedades onde mulheres têm mobilidade controlada, desejar uma bicicleta já é questionar fronteiras simbólicas importantes.

Também me chamou atenção o fato de o filme ser dirigido por Haifaa Al-Mansour, considerada a primeira mulher cineasta da Arábia Saudita. Isso por si só já carrega enorme dimensão política. Durante muito tempo, mulheres tiveram presença extremamente limitada em vários espaços de produção cultural no país. O próprio ato de filmar uma história como Wadjda já representa abertura importante de imaginário.

E penso que a arte possui justamente essa potência:
permitir que experiências silenciadas encontrem linguagem.

Ao mesmo tempo, acho importante evitar leituras simplistas que transformem o filme apenas numa narrativa de “atraso oriental” diante de um Ocidente supostamente livre e emancipado. O patriarcado assume formas diferentes em cada sociedade. Mulheres em países ocidentais também enfrentam violência, desigualdade salarial, objetificação, controle sobre corpos e limitação de direitos reprodutivos.

A diferença está nas formas específicas como essas estruturas operam. Por isso considero Wadjda um filme universal justamente porque fala sobre algo profundamente humano: a luta pelo direito de desejar a própria vida.

E talvez uma das maiores violências sociais seja esta:
fazer alguém acreditar desde cedo que certos sonhos não lhe pertencem.

Hoje ainda existem meninas no mundo inteiro aprendendo que determinados espaços não são para elas,
que certos comportamentos são inadequados,
que liberdade demais é perigosa,
que seus corpos precisam ser controlados,
que seus desejos devem caber em normas pré-estabelecidas.

Nesse sentido, Wadjda continua profundamente atual. Além disso, o filme me fez pensar sobre educação. A escola retratada ali aparece simultaneamente como espaço disciplinador e possível lugar de fissura. Muitas instituições educacionais ainda funcionam mais para reproduzir normas sociais do que para estimular pensamento crítico e autonomia.

E talvez educar de verdade signifique justamente permitir que crianças possam imaginar vidas que ultrapassem os limites impostos culturalmente.

No fundo, saí do filme pensando que aquela bicicleta verde era muito mais do que um objeto. Era uma metáfora de movimento.

Da possibilidade de uma menina experimentar o mundo para além das fronteiras que lhe foram determinadas.

E talvez toda sociedade autoritária tema exatamente isso:
o instante em que alguém percebe que também pode escolher para onde deseja ir.

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