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Mostrando postagens de abril, 2026

1º de Maio: entre o cansaço e a coragem, por que precisamos ocupar as ruas

  Eu tenho pensado muito sobre o que significa, hoje, sair de casa para ir às ruas no Dia do Trabalhador. Não é apenas um gesto simbólico, como muitos tentam reduzir. Também não é um ritual esvaziado de sentido. Ir às ruas, no Brasil de hoje, é quase um ato de reexistência, uma forma de dizer que ainda estamos aqui, apesar do cansaço, da precarização e das tentativas constantes de nos silenciar. Há algo de profundamente paradoxal no nosso tempo. Nunca se trabalhou tanto, nunca se produziu tanta riqueza e, ainda assim, seguimos exaustos, inseguros e, muitas vezes, sem tempo para viver. A promessa de progresso parece ter se convertido em uma máquina de captura da vida. É nesse contexto que a proposta de redução da jornada de trabalho, como a escala 4x3, deixa de ser uma utopia distante e passa a ser uma necessidade concreta. Não se trata apenas de “trabalhar menos”, como alguns discursos apressados tentam caricaturar. Trata-se de redistribuir o tempo, esse bem tão fundamental qua...

Elza em Corpo Vivo: dança, periferia e a insurgência que não se cala

  Eu saí do Dragão do Mar com uma sensação difícil de nomear. Não era apenas emoção, embora ela estivesse ali, pulsante, quase transbordando, mas algo mais profundo, como se o corpo tivesse compreendido antes da linguagem. Assistir a Elza , dentro da programação “Quinta com Dança”, na semana dedicada à dança, foi menos um espetáculo e mais um encontro: com a arte, com a periferia e, sobretudo, com aquilo que insiste em sobreviver no Brasil. Desde o início, percebi que não se tratava de uma homenagem convencional à Elza Soares. Não havia ali uma tentativa de imitação, de biografia coreografada ou de reverência vazia. O que se via era uma incorporação, não da figura midiática de Elza, mas da sua força vital. Aquela mesma força que atravessou fome, racismo, violência doméstica, perdas irreparáveis e ainda assim se reinventou como grito, como corpo político, como estética insurgente. E talvez seja esse o ponto que mais me atravessou: o espetáculo não fala sobre Elza, ele fala a pa...

Entre o cuidado e o abandono: o que o “Vidas Preservadas” revela e o que ainda silencia

  Li a matéria de hoje do O POVO sobre o Programa Vidas Preservadas , do Ministério Público do Ceará, e confesso: ela me atravessou de forma ambígua. Por um lado, há algo profundamente necessário, talvez urgente, nessa tentativa de articular políticas de prevenção ao suicídio em territórios marcados pela violência, pela pobreza e pela ausência histórica do Estado. Por outro, há algo que me inquieta: o quanto essas iniciativas, embora importantes, ainda parecem operar como remendos em um tecido social rasgado há décadas. Não é possível falar de saúde mental nesses contextos sem nomear o óbvio: o sofrimento psíquico, aqui, não é apenas individual, ele é produzido socialmente. Quando leio que 142 municípios já aderiram ao programa, sinto um certo alívio. Mas quando leio, na mesma matéria, que “não existe um município no Ceará que não enfrente esses desafios sociais”, o alívio se dissolve. Estamos diante de um problema estrutural, e não episódico. O que está em jogo não é apenas...

O despacho do papagaio municipal

  Contam, e eu apenas transmito, como bom colecionador de histórias, que na Fortaleza de um tempo não muito distante, quando os ventiladores de teto ainda eram tratados como autoridades superiores e o café requentado era patrimônio cultural, houve na Secretaria de Assuntos Urgentíssimos um episódio digno de registro. Era secretário o ilustríssimo doutor Anselmo de Albuquerque, homem de bigodes respeitáveis e convicções ainda maiores. Tinha o hábito de carimbar tudo com uma solenidade quase litúrgica, como se cada documento fosse uma bula papal. Seu lema, bordado num quadro torto atrás da mesa, dizia: “Quem carimba governa.” Pois bem. Entre os servidores daquela repartição havia um certo seu Evaristo, contínuo por vocação e filósofo por insistência. E havia também um papagaio. Sim, leitor paciente, um papagaio. O animal pertencera a um antigo diretor que, ao aposentar-se, esqueceu-se, ou fingiu esquecer-se, de levá-lo. E como tudo que entra numa repartição tende a tornar-se ...

Viver como quem ensaia o fim: minhas notas após Sinédoque, Nova York

  Ao terminar de assistir Sinédoque, Nova York fiquei com a sensação incômoda de que não assisti a um filme, fui assistido por ele. Charlie Kaufman não nos oferece uma narrativa; ele nos arma uma armadilha. E eu, como espectador, fui capturado por essa espécie de espelho infinito onde a vida tenta se representar enquanto escapa. Caden Cotard, o diretor de teatro que decide montar uma peça que abarque toda a sua existência, não me parece um personagem distante. Pelo contrário, ele é quase um sintoma contemporâneo. Um homem esmagado pela própria consciência, pela incapacidade de viver sem transformar a vida em objeto de análise, de representação, de controle. O projeto monumental que ele inicia, recriar Nova York dentro de um galpão, com atores interpretando pessoas reais, que por sua vez são interpretadas por outros atores, não é apenas delírio estético. É uma tentativa desesperada de dominar o tempo, de fixar o efêmero, de não morrer. Mas é justamente aí que o filme me atraves...

Mentalizar para não naufragar: o que aprendi com Peter Fonagy sobre vínculo, trauma e a construção do eu

  Há um ponto em que a teoria deixa de ser apenas um conjunto de conceitos e passa a funcionar como uma lente ética para olhar o mundo. Com Peter Fonagy, essa passagem foi inevitável para mim. Não porque ele ofereça respostas fáceis,   ao contrário, mas porque ele nos obriga a encarar algo desconfortável: o sujeito não nasce pronto, ele se constrói na relação. E, mais do que isso, se constrói na qualidade dessa relação. A ideia de mentalização talvez seja o eixo mais potente do pensamento de Fonagy. Em termos simples, trata-se da capacidade de compreender a si mesmo e ao outro como portadores de estados mentais, desejos, crenças, emoções, intenções. Parece óbvio, quase trivial. Mas não é. Mentalizar não é apenas “pensar sobre sentimentos”; é sustentar a complexidade da experiência psíquica sem reduzi-la a impulsos imediatos ou certezas rígidas. E aqui começa o incômodo: o que acontece quando essa capacidade falha? Fonagy, articulando psicanálise e teoria do apego, mostra ...

Entre o corpo interditado e o desejo silenciado: uma travessia pessoal sobre religião, subjetividade e liberdade

  Cresci observando uma tensão que raramente é nomeada com honestidade: a dificuldade de habitar o próprio corpo quando se foi educado sob um regime moral rígido, especialmente em contextos religiosos cristãos mais normativos. Não falo aqui da fé em si, nem da experiência espiritual, que pode ser profundamente humana e transformadora, mas de algo mais específico: a construção de um corpo vigiado, culpabilizado e, muitas vezes, amputado de sua potência. Ao longo da minha formação em Psicanálise e como graduando em Psicologia e da escuta clínica (aqui também atravessada por experiências ficcionalizadas9algumas fictícias, outras não) para preservar sujeitos) e também da observação de amigos(a) que tiveram uma formação de infância e adolescência muito engajado em uma igreja, comecei a perceber um padrão recorrente: pessoas que “sabem” cantar, mas não conseguem cantar em público; que “gostariam” de dançar, mas travam; que desejam amar, mas se culpam ao desejar. Não se trata de falta d...

O verdadeiro self: uma travessia íntima entre o ser e o sobreviver

  Há momentos em que me pergunto se aquilo que apresento ao mundo é, de fato, quem eu sou   ou apenas aquilo que aprendi a ser para continuar existindo entre os outros. Essa pergunta, que parece simples, carrega uma inquietação profunda: até que ponto estou vivendo a partir do meu verdadeiro self, e até que ponto estou apenas sustentando um falso self bem adaptado? Foi em Winnicott que encontrei uma linguagem mais honesta para essa angústia. Ele não trata o verdadeiro self como uma essência romântica, pronta e pura, mas como algo que nasce de condições muito concretas: o cuidado suficientemente bom, o ambiente que acolhe, a possibilidade de existir sem ser invadido. O verdadeiro self não é uma ideia, é uma experiência. E aqui começa o incômodo: se o verdadeiro self depende de um ambiente facilitador, o que acontece com aqueles que cresceram em ambientes falhos, intrusivos ou indiferentes? Eu não consigo responder essa pergunta sem me implicar. Porque, olhando para mim, p...