Viver como quem ensaia o fim: minhas notas após Sinédoque, Nova York
Ao terminar de assistir Sinédoque, Nova York
fiquei com a sensação incômoda de que não assisti a um filme, fui assistido por
ele. Charlie Kaufman não nos oferece uma narrativa; ele nos arma uma armadilha.
E eu, como espectador, fui capturado por essa espécie de espelho infinito onde
a vida tenta se representar enquanto escapa.
Caden Cotard, o diretor de teatro que decide
montar uma peça que abarque toda a sua existência, não me parece um personagem
distante. Pelo contrário, ele é quase um sintoma contemporâneo. Um homem
esmagado pela própria consciência, pela incapacidade de viver sem transformar a
vida em objeto de análise, de representação, de controle. O projeto monumental
que ele inicia, recriar Nova York dentro de um galpão, com atores interpretando
pessoas reais, que por sua vez são interpretadas por outros atores, não é
apenas delírio estético. É uma tentativa desesperada de dominar o tempo, de
fixar o efêmero, de não morrer.
Mas é justamente aí que o filme me atravessa:
quanto mais Caden tenta capturar a vida, mais ele se afasta dela.
Há algo profundamente psicanalítico nisso.
Penso em Freud, quando fala da compulsão à repetição, esse esforço inconsciente
de reviver algo que nunca se resolve. Caden repete, reencena, duplica… mas não
simboliza. Não há elaboração, apenas multiplicação. O que deveria ser
representação vira aprisionamento. O palco engole a vida. O significante se autonomiza
e o sujeito se perde.
E não consigo não pensar também em Lacan:
Caden parece preso naquilo que poderíamos chamar de um excesso de imaginário.
Ele tenta construir uma imagem total de si e do mundo, uma narrativa que dê
conta de tudo. Mas essa totalidade é impossível. O real, a morte, o tempo, o
corpo que adoece, insiste em furar essa tentativa. O resultado é angústia. Uma
angústia silenciosa, quase burocrática, que atravessa o filme inteiro.
O que mais me perturbou foi perceber o quanto
esse projeto de Caden ecoa o nosso tempo. Vivemos numa era em que tudo precisa
ser registrado, narrado, compartilhado, performado. Redes sociais, métricas,
curadorias da própria existência. Há em nós um pequeno Caden tentando
transformar a vida em obra, só que, ao fazer isso, muitas vezes deixamos de
vivê-la.
Quantas vezes não tentamos “entender” tanto
nossas experiências que acabamos não as experienciando? Quantas vezes não nos
colocamos como diretores da própria vida, esquecendo que somos também atores,
corpos, afetos?
Há uma cena que me ficou particularmente
atravessada, não por sua grandiosidade, mas pela sua banalidade triste: o tempo
passa, as relações se desfazem, e Caden permanece preso ao seu projeto. A vida
acontece fora do palco que ele construiu. E isso, para mim, é devastador.
Porque o filme parece sussurrar algo que
evitamos encarar: não há ensaio geral para a vida. Não há versão definitiva.
Não há obra que dê conta de nós.
Se penso antropologicamente, vejo também uma
crítica à ideia moderna de sujeito como centro e autor da própria narrativa.
Kaufman desmonta essa ilusão. Somos atravessados por relações, por perdas, por
contingências. A tentativa de totalização, tão cara à modernidade ocidental,
aparece aqui como uma forma de adoecimento.
E filosoficamente, é impossível não lembrar de
Heidegger: o ser-para-a-morte. Caden tenta fugir da finitude através da obra,
mas é justamente essa fuga que o paralisa. Ao negar a morte, ele deixa de
viver. A autenticidade, diria Heidegger, não está em controlar a existência,
mas em assumir sua finitude.
Saí do filme com mais perguntas do que
respostas, e talvez seja esse o maior mérito de Kaufman. Sinédoque, Nova York não quer ser compreendido; quer ser
vivido como um desconforto.
Se há algo de propositivo nessa experiência, é
um convite, ainda que incômodo, a abandonar a obsessão pela totalidade. A
aceitar o fragmento, o inacabado, o que não se resolve.
Talvez viver seja menos dirigir uma grande
peça e mais suportar o improviso. Talvez seja preciso, em algum momento, descer
do palco.
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