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Mostrando postagens de maio, 2026

Quando eu me torno aquilo que me feriu: pensando a identificação com o agressor em Anna Freud

  Há ideias que não chegam como conceitos, chegam como incômodo. A identificação com o agressor, tal como formulada por Anna Freud, foi uma dessas para mim. Eu não a encontrei apenas nos livros; eu a reconheci nos gestos, nas falas e, com algum desconforto, em mim mesmo. Anna Freud descreve esse mecanismo de defesa como uma forma de o sujeito lidar com o medo e a ameaça: ao invés de permanecer na posição de vulnerável, ele se identifica com quem o ameaça, incorporando seus traços, seus modos, sua força. É como se dissesse, sem palavras: “se eu me tornar como ele, talvez eu não precise mais temê-lo.” À primeira vista, isso pode soar como uma estratégia engenhosa. E, de certo modo, é. Há algo de profundamente humano nessa tentativa de escapar da posição de fragilidade. Mas o que me inquieta, e me faz escrever, é o preço dessa operação. Porque, ao me identificar com o agressor, eu não apenas me protejo. Eu também internalizo a violência . Eu penso em quantas vezes, na clínica ...

A Tragédia Doméstica do Café Frio

  Confesso, sem o menor pudor, que há tragédias que não se anunciam com trovões, nem com cartas dramáticas, nem sequer com lágrimas antecipadas. Elas chegam assim, discretas, quase educadas, como visitas que pedem licença para desorganizar a vida alheia. Foi numa terça-feira. Eu, já de espírito resignado e chinelos filosóficos, dirigia-me à cozinha com a única ambição que ainda sustenta certas almas urbanas: um café quente. Nada mais. Não aspirava à glória, nem à fortuna, apenas à dignidade térmica de uma xícara fumegante. Mas eis que, ao tocar o bule, senti o primeiro sinal da desordem universal: estava frio. Frio. Não morno, o que ainda permitiria negociação. Frio, como certas respostas, como certos afetos, como certas promessas feitas em domingo e esquecidas na segunda. Chamei, com a solenidade de quem convoca testemunhas:   Quem foi o responsável por este desastre? Da sala, respondeu meu marido, com a serenidade irritante dos que ignoram o peso das pequenas...

O Caso do Galo Doutor

  Pois olhe, não sei se foi coisa de lua cheia ou se foi daquelas modernidades que andam chegando até nos rincões mais esquecidos, mas o certo é que, lá na Várzea do Angico, apareceu um galo diferente. E não era pouca coisa, não. O bicho não cantava só de madrugada, não senhor. Cantava era com sotaque de gente estudada, todo cheio de entonação, como se tivesse feito faculdade lá na capital. E o pior: parecia entender tudo. Quem primeiro notou foi o seu Antunes, homem sério, de bigode respeitável e poucas ideias, que, aliás, eram sempre as mesmas.   Isso aí não é galo, não, disse ele, olhando o bicho atravessado.   Isso aí é doutor disfarçado. E pronto. Bastou isso pra fama correr mais ligeira que cavalo solto em campo aberto. No outro dia, já tinha gente dizendo que o galo sabia de medicina, de lei e até de política, o que, convenhamos, é coisa que nem todo doutor sabe. O dono do galo era o Zé Bentinho, sujeito simples, mas de olho vivo. Quando viu o rebuliço, n...

Entre o colo e o mundo: o que aprendi com Bebês e suas mães, de Winnicott

  Ler Bebês e suas mães não foi, para mim, apenas um exercício teórico. Foi quase um deslocamento de olhar, daqueles que nos fazem rever não só o modo como pensamos o desenvolvimento humano, mas também como entendemos a fragilidade, o cuidado e até a política da vida cotidiana. Ao atravessar esse livro, eu não consegui permanecer no lugar confortável de quem analisa de fora. Fui implicado o tempo inteiro. Winnicott escreve com uma simplicidade enganosa. À primeira vista, parece que ele está apenas descrevendo a relação entre mãe e bebê. Mas, à medida que avanço, percebo que ele está propondo algo muito mais radical: uma revolução silenciosa na forma de compreender o sujeito . Não há sujeito antes da relação. Não há bebê sem ambiente. E isso, para mim, é um golpe direto em qualquer ideal de autonomia precoce que ainda insiste em organizar nosso mundo. Uma das ideias que mais me atravessou foi a da “mãe suficientemente boa” . E aqui já começo minha inquietação: vivemos numa soci...

O falso self saudável: a máscara que protege ou a ponte que nos constitui?

  Eu demorei a entender que nem toda máscara é mentira. Durante muito tempo, na minha formação e na clínica, fui seduzido por uma leitura quase moral do “verdadeiro self” , como se ele fosse um núcleo puro, espontâneo, livre de concessões, e do “falso self” como uma espécie de traição a si mesmo. Mas a experiência com pessoas reais, atravessadas por histórias concretas, me obrigou a abandonar essa dicotomia simplista. Foi Winnicott quem me ofereceu uma saída mais honesta: o falso self não é, por definição, patológico. Em certas condições, ele é necessário. E, mais do que isso, pode ser saudável. Quando Winnicott fala em falso self, ele não está falando apenas de falsidade, mas de adaptação . O bebê humano nasce em estado de dependência absoluta, sem um “eu” consolidado. É no encontro com o ambiente, sobretudo com a mãe ou cuidador, que ele começa a existir como sujeito. Se esse ambiente é suficientemente bom, ele acolhe os gestos espontâneos do bebê, permitindo que o verdadeiro s...

Entre a FOMO e a fome: quando o algoritmo mastiga o humano

  Eu li o texto da Revista Outras Palavras sobre as big techs e saí com a sensação incômoda de que estamos sendo devorados lentamente, não de uma vez, como nos filmes distópicos, mas em pequenas mordidas diárias, quase imperceptíveis. Entre a FOMO (o medo de ficar de fora) e a fome concreta de milhões, as Big Techs parecem ter encontrado o ponto exato onde o desejo humano pode ser capturado, monetizado e reciclado como mercadoria. O que mais me atravessa é perceber que não se trata apenas de tecnologia. Trata-se de poder. E, mais profundamente, de um poder que opera sobre a subjetividade. Eu, como alguém que transita entre a psicologia, a psicanálise e as ciências sociais, não consigo deixar de ler esse cenário como uma nova forma de colonização, não mais de territórios físicos, mas de atenção, desejo e tempo psíquico. A FOMO, nesse sentido, não é apenas um fenômeno cultural: ela é produzida. Ela é fabricada como estratégia de captura. As plataformas não querem apenas que eu ...

Entre o silêncio e o que transborda: o que a poesia de Maíra Valério me faz sentir

  Ler Maíra Valério não é uma experiência confortável. E eu digo isso no melhor sentido possível. Não é o tipo de poesia que me deixa admirando a forma à distância, é o tipo que me puxa para dentro, que me coloca diante de algo que eu, muitas vezes, prefiro não nomear. Há, na escrita dela, uma delicadeza que não suaviza a dor. Pelo contrário: ela a torna mais nítida. A linguagem do que não grita O que mais me chama atenção na poesia de Maíra é o modo como ela trabalha o silêncio. Não é ausência de palavra. É presença densa, quase física. São versos curtos, imagens simples, cenas cotidianas, e, ainda assim, tudo parece carregado de um peso que não é explícito, mas é sentido. Como se cada palavra viesse de um lugar onde já não é possível fingir. Eu leio e sinto que ela não está tentando impressionar. Ela está tentando dizer. E isso, hoje, é raro. Vivemos uma época de excesso, de palavras, de imagens, de opiniões, e, nesse contexto, a poesia de Maíra opera por redução. El...

cidade dentro do corpo

  acordei com a sensação de que havia gente demais morando em mim não eram vozes altas nem gritos era um tipo de silêncio ocupado como feira no fim da tarde um cansaço que não tem nome sentado na beira da cama olhando pra mim como quem espera resposta e eu sem saber se levanto ou peço desculpa   tem dias em que o mundo cabe num copo de café frio e eu fico ali segurando como se fosse possível aquecer o tempo com as mãos   aprendi cedo que ser forte era não chorar mas ninguém me ensinou o que fazer com a água acumulada agora ela escorre pelas pequenas coisas um olhar que não veio uma mensagem que não chega um “tudo bem?” que não sustenta   eu ando pela cidade como quem procura um lugar onde possa desarmar o corpo sem medo sem pressa sem precisar explicar por que dói   tem um menino em mim que ainda acredita que alguém vai bater na porta sem aviso e dizer: “pode descansar”   até lá eu ...

Entre a engrenagem e o corpo: o que “Capitalismo & Sociedade” me fez encarar

  Terminei Capitalismo & Sociedade , de Marcos Bentes, com a sensação de que não dá mais para pensar o mundo como se ele estivesse organizado por compartimentos limpos. Economia de um lado, cultura de outro, subjetividade em um canto mais íntimo. O livro me atravessa justamente porque insiste no contrário: o capitalismo não é apenas um sistema econômico, é uma forma de vida . E isso, para mim, muda tudo. Eu leio Bentes como quem tenta montar um mapa do presente. Ele vai costurando as relações entre produção, consumo, mídia, tecnologia e comportamento, e, aos poucos, vou percebendo que não estou fora do quadro que ele desenha. Eu estou dentro. Nós estamos. O cotidiano como campo de disputa Uma das coisas que mais me marcou foi a forma como o autor desloca a análise do “grande sistema” para o cotidiano. Não é só nas bolsas de valores ou nas decisões de governo que o capitalismo opera. Ele está na forma como nos relacionamos, no modo como nos percebemos, no tipo de desejo qu...

O Homem que Vendeu o Próprio Silêncio

  Dizem, e eu não afirmo, mas tampouco desminto, que, em tempos idos de Fortaleza, havia um sujeito chamado Anselmo Calado , cuja maior qualidade era falar… e cuja maior tragédia também. Anselmo falava de tudo: política, futebol, vida alheia, tempo, maré, preço do feijão e até do que não sabia (que, aliás, era o que mais falava). Se lhe perguntassem a hora, ele respondia com a história do relógio. Ora, aconteceu que, cansados de tanta eloquência involuntária, os amigos resolveram pregar-lhe uma peça. Reuniram-se no Café do Ferreira, esse templo onde mais se decide o mundo do que em muito gabinete oficial, e combinaram:   Vamos comprar o silêncio de Anselmo. E como toda ideia absurda em Fortaleza ganha força com um café e duas tapiocas, levaram o plano adiante. No dia seguinte, abordaram o falador com ar solene.   Seu Anselmo, disse o mais sério, que era o mais mentiroso, estamos organizando uma sociedade secreta de homens sábios. Para entrar, é preciso provar ...