Quando eu me torno aquilo que me feriu: pensando a identificação com o agressor em Anna Freud
Há ideias que não chegam como conceitos, chegam como incômodo. A identificação com o agressor, tal como formulada por Anna Freud, foi uma dessas para mim. Eu não a encontrei apenas nos livros; eu a reconheci nos gestos, nas falas e, com algum desconforto, em mim mesmo. Anna Freud descreve esse mecanismo de defesa como uma forma de o sujeito lidar com o medo e a ameaça: ao invés de permanecer na posição de vulnerável, ele se identifica com quem o ameaça, incorporando seus traços, seus modos, sua força. É como se dissesse, sem palavras: “se eu me tornar como ele, talvez eu não precise mais temê-lo.” À primeira vista, isso pode soar como uma estratégia engenhosa. E, de certo modo, é. Há algo de profundamente humano nessa tentativa de escapar da posição de fragilidade. Mas o que me inquieta, e me faz escrever, é o preço dessa operação. Porque, ao me identificar com o agressor, eu não apenas me protejo. Eu também internalizo a violência . Eu penso em quantas vezes, na clínica ...