cidade dentro do corpo

 

acordei com a sensação
de que havia gente demais
morando em mim

não eram vozes altas
nem gritos
era um tipo de silêncio
ocupado

como feira no fim da tarde

um cansaço que não tem nome
sentado na beira da cama
olhando pra mim
como quem espera resposta

e eu sem saber
se levanto
ou peço desculpa

 

tem dias
em que o mundo cabe
num copo de café frio

e eu fico ali
segurando
como se fosse possível
aquecer o tempo
com as mãos

 

aprendi cedo
que ser forte
era não chorar

mas ninguém me ensinou
o que fazer
com a água acumulada

agora ela escorre
pelas pequenas coisas

um olhar que não veio
uma mensagem que não chega
um “tudo bem?” que não sustenta

 

eu ando pela cidade
como quem procura
um lugar onde possa
desarmar o corpo

sem medo

sem pressa

sem precisar explicar
por que dói

 

tem um menino em mim
que ainda acredita
que alguém vai bater na porta
sem aviso

e dizer:
“pode descansar”

 

até lá
eu sigo

catando pedaços de mim
pelas calçadas

e chamando isso
de vida

mesmo quando parece
mais
sobre
sobreviver

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O elétron é a Matrix da realidade? Uma pergunta entre a física, o mito e o desejo de sentido

Saudade que Amanhece

A viagem proibida: quando o corpo feminino se torna território vigiado