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Mostrando postagens de dezembro, 2025

É assim que pensamos: o que Stanislas Dehaene nos revela — e o que ainda precisamos perguntar

  Ler É assim que pensamos , de Stanislas Dehaene, foi uma experiência ao mesmo tempo fascinante e inquietante. Fascinante porque o livro escancara, com clareza rara, os mecanismos pelos quais o cérebro humano aprende, calcula, lê, reconhece padrões e constrói sentido. Inquietante porque, ao fazer isso, ele também nos obriga a encarar um fato desconfortável: pensar não é tão livre quanto gostamos de acreditar . Dehaene escreve como cientista, mas também como alguém interessado nas implicações éticas e pedagógicas do que a neurociência descobre. Ele nos mostra que o pensamento não surge do nada, nem é uma folha em branco moldada apenas pela cultura. O cérebro vem equipado com estruturas prévias , circuitos que orientam a aprendizagem, limitam certas possibilidades e tornam outras mais prováveis. Essa ideia, por si só, já desloca muitas certezas. Nem tudo é construção social; nem tudo é inato. Pensar acontece nesse território híbrido, e tenso,   entre o que herdamos biologic...

O que ficou entre os verões

  Conheci Clara no verão em que nada parecia definitivo. Eu tinha acabado de aceitar um trabalho que não sabia se queria, ela estava de passagem pela cidade, dizendo que era só por três meses, embora dissesse isso com a convicção frágil de quem já sabia que ficaria mais tempo. Nos conhecemos numa livraria quase vazia, dessas que sobrevivem mais por teimosia do que por lucro. Ela folheava um livro que eu tinha amado anos antes. Fiz o comentário óbvio, ela respondeu com um sorriso que não prometia nada e, ainda assim, entregava muito. Nos tornamos um hábito rápido. Cafés no fim da tarde, caminhadas sem destino, conversas que começavam leves e terminavam perigosamente honestas. Clara tinha esse jeito de perguntar coisas que eu evitava responder até para mim mesmo. E eu tinha o defeito, ou virtude, de escutar como se o tempo não estivesse correndo. Ela me contou sobre o passado como quem escolhe bem as palavras para não sangrar de novo. Eu contei o suficiente para parecer inteiro...

Os sete maridos de Evelyn Hugo: o que aprendemos quando a verdade já não pode ser desfeita

  Comecei a ler Os sete maridos de Evelyn Hugo , de Taylor Jenkins Reid, achando que estava diante de um romance sobre celebridades, escândalos e amores hollywoodianos. Terminei o livro entendendo que ele fala, sobretudo, de sobrevivência . Não da sobrevivência romântica, mas da sobrevivência de uma mulher num mundo que cobra beleza, silêncio e obediência — e pune quem ousa existir fora do script. Evelyn Hugo não é uma personagem feita para ser “amada” com facilidade. Ela é estratégica, ambígua, às vezes cruel. E isso é exatamente o que a torna tão interessante. Em vez da mulher vítima idealizada, o livro nos oferece uma mulher que age , mesmo quando agir significa negociar com estruturas injustas. Ler esse livro, foi desconfortável,   e necessário. Amor não basta quando o mundo é hostil Uma das coisas que mais me atravessou no livro foi a desmontagem da ideia de que o amor, sozinho, resolve tudo. Evelyn ama intensamente, mas vive num sistema que não permite que certos a...

anotação à margem (que não te enviei)

  escrevo porque não sei o que fazer com essa sobra que fica depois da conversa (depois do beijo depois do não) o dia passou normalmente — café frio notícia ruim uma música qualquer no rádio — mas algo em mim ficou atravessado como parêntese aberto penso em você sem lirismo sem drama como quem tropeça num objeto esquecido no quarto e decide não guardar às vezes acho que exagero às vezes acho que escondo demais a verdade deve estar em algum ponto cego entre o que digo e o que rasuro este poema não quer ser poema quer ser bilhete rascunho mensagem não enviada quer existir sem precisar explicar nada se você ler isso um dia (finge que não) se não ler também serve continuo escrevendo porque parar seria admitir que entendi — e eu ainda não entendi — assinado: alguém tentando não se fechar demais.  

Quando o Estado anuncia a morte: notas inquietas sobre segurança pública no Ceará

  Li a reportagem, no Jornal O POVO de hoje, sobre as declarações do governador Elmano de Freitas com um misto de preocupação e desalento. Não pelo reconhecimento óbvio de que o Ceará enfrenta uma crise grave de segurança pública — isso ninguém sério nega —, mas pelo tom, pela linguagem e pelo horizonte político que essas falas anunciam . Quando um governador afirma publicamente que, se alguém “enfrentar a polícia”, a resposta será “efetivamente a perda da vida”, algo essencial se desloca no pacto democrático. Não se trata aqui de defender facções criminosas, relativizar a violência ou ignorar o sofrimento cotidiano da população das periferias, que são as primeiras vítimas do crime organizado. Trata-se de outra coisa: do papel do Estado , dos limites da força legítima e do risco de transformar a política de segurança em discurso de exceção permanente . O Estado democrático não anuncia mortes. Ele anuncia prisões, investigações, julgamentos, garantias. A morte pode ocorrer em co...

Para 2026: um chamado à lucidez e ao cuidado

  Escrevo este texto em primeira pessoa, mas ele não é só sobre mim. É para você que chega a 2026 cansado, desconfiado das promessas fáceis e, ainda assim, disposto a continuar. Se estamos aqui, é porque algo em nós recusou desistir — mesmo quando desistir parecia mais confortável. Não vou mentir: o mundo não vai se reorganizar de forma gentil só porque o calendário virou. A violência não vai desaparecer sozinha, a desigualdade não vai pedir desculpas e o discurso do ódio não vai perder força por cansaço. Entrar em 2026 acreditando nisso é se preparar para a frustração. Mas entrar acreditando que nada pode ser feito é outra forma de mentira — talvez a mais perigosa. Aprendi que a maior armadilha do nosso tempo é a anestesia. A ideia de que, para sobreviver, precisamos sentir menos, nos importar menos, esperar menos. Isso pode até funcionar por um tempo, mas cobra um preço alto: a perda da sensibilidade, da indignação justa, da capacidade de se reconhecer no outro. Em 2026, o co...

Missão Economia: por que Mariana Mazzucato nos obriga a repensar o papel do Estado

  Ler Missão Economia , de Mariana Mazzucato, foi como desmontar um mito que eu mesmo já repeti em algum momento da vida: o de que o Estado deve ser apenas um árbitro discreto, corrigindo falhas do mercado enquanto a inovação verdadeira nasce, quase por milagre, do setor privado. O livro faz exatamente o contrário: mostra, com dados, história e imaginação política, que os grandes saltos tecnológicos e sociais do capitalismo moderno foram liderados por Estados ousados , orientados por missões claras. Mazzucato propõe algo simples e radical ao mesmo tempo: parar de perguntar “quanto o Estado deve intervir” e começar a perguntar “para quê?” . A economia deixa de ser um fim em si mesma e passa a ser um instrumento para resolver problemas coletivos — crise climática, desigualdade, saúde pública, transição energética. Isso muda tudo. Missões como horizonte político O conceito de “missão” não é metáfora vazia. A autora recupera exemplos históricos — como o programa Apollo — para mos...

Canto do que somos agora

  Eu celebro o que anda comigo, o corpo que atravessa a rua, o suor anônimo, o riso breve, a mão que cumprimenta sem saber o nome. Celebro o pulmão que se abre ao amanhecer, o estômago que pede pão, o coração que insiste — ah, como insiste — mesmo cansado de promessas. Eu digo: somos muitos. Somos o passo do trabalhador ao nascer do dia, o caderno do estudante rabiscado de sonhos, a mulher que ergue o mundo com o silêncio, o velho que guarda histórias no bolso do casaco. Vejo os corpos: fortes, frágeis, ardentes, trêmulos, corpos que amam, que erram, que esperam, corpos que dançam quando ninguém vê, corpos que caem e se levantam com poeira nos joelhos. Eu canto a cidade inteira — suas janelas acesas, seus becos, o mercado que pulsa, o ônibus lotado, o beijo rápido na esquina, a solidão que caminha ao meu lado como irmã. Nada me é estranho: o riso e o luto, a fé e a dúvida, o nascimento e o fim que nos ronda como um amigo paciente. Eu não separo o ...

Canto para os que ainda respiram

  Erguei os olhos, homens livres, e vede a noite que persiste! Ainda há grilhões no vento, ainda há sangue onde a terra insiste. Mudaram-se os nomes da corrente, mas o ferro segue invisível, e a dor do povo, antiga e quente, arde num mundo impassível. Ó pátria vasta e ferida, que canta hinos e esquece os mortos, quantos corpos sustentam tua vida nos porões, nas filas, nos portos? Quantas mãos cavaram o chão para que poucos erguessem palácios? Quantos sonhos viraram pó no altar do lucro e dos espaços? Eu vejo crianças sem aurora, com o futuro cortado em dois, vejo mães que choram agora o amanhã que nunca foi. E vejo também — porque ainda vejo — um clarão rasgando a escuridão: é o grito antigo do desejo por justiça e redenção. Não me peçam versos mansos quando a fome escreve mais alto, quando o silêncio é crime e cansa e a esperança anda descalça no asfalto. Minha poesia não pede licença, não se curva ao medo ou ao rei: ela nasce da resistência dos q...

A casa que aprendeu meu nome

  Quando herdei a casa, disseram que ela estava vazia havia anos. Nenhum móvel, nenhuma fotografia, nenhum vestígio humano. Ainda assim, na primeira noite, tive a estranha sensação de que alguém sabia que eu estava ali . A casa rangia como todas as casas antigas. Ignorei. Casas velhas reclamam do peso do tempo. O que me inquietou não foi o barulho — foi o silêncio que vinha depois, um silêncio atento, como se algo estivesse esperando minha reação. Na segunda noite, ouvi passos no corredor. Lentamente. Muito lentamente. Abri a porta do quarto com o coração batendo nos ouvidos. O corredor estava vazio. Mas o tapete, que eu havia deixado alinhado, estava levemente torto. Como se alguém tivesse passado… e parado para escutar. Comecei a dormir mal. Sonhava com a casa respirando. Não metáfora — respirando mesmo. As paredes se contraíam, o teto parecia descer alguns centímetros, e eu acordava com a impressão de que, se dormisse fundo demais, não acordaria mais do mesmo tamanho . N...

império universal e seus antípodas: pensar o mundo desde a periferia do poder

  Ler O império universal e seus antípodas , de Marcos Del Roio, foi para mim um exercício de desnaturalização. Um desses livros que não oferecem conforto, mas clareza — e a clareza, quase sempre, dói. Del Roio nos obriga a abandonar a ideia ingênua de que o mundo caminha, ainda que aos trancos, para alguma forma de universalismo democrático. O que ele mostra, com rigor histórico e teórico, é outra coisa: o universal que se impôs foi o do império , e ele não é neutro, nem benigno, nem inevitável. O conceito de império universal em Del Roio não se refere apenas a um Estado ou a uma potência específica, mas a uma forma histórica de dominação que articula economia, política, cultura e ideologia em escala global. Trata-se de um sistema que se apresenta como portador da razão, da civilização, da democracia e dos direitos humanos, mas que, na prática, organiza o mundo a partir da desigualdade estrutural, da guerra permanente e da subordinação das periferias. O que mais me marcou na...