império universal e seus antípodas: pensar o mundo desde a periferia do poder

 

Ler O império universal e seus antípodas, de Marcos Del Roio, foi para mim um exercício de desnaturalização. Um desses livros que não oferecem conforto, mas clareza — e a clareza, quase sempre, dói. Del Roio nos obriga a abandonar a ideia ingênua de que o mundo caminha, ainda que aos trancos, para alguma forma de universalismo democrático. O que ele mostra, com rigor histórico e teórico, é outra coisa: o universal que se impôs foi o do império, e ele não é neutro, nem benigno, nem inevitável.

O conceito de império universal em Del Roio não se refere apenas a um Estado ou a uma potência específica, mas a uma forma histórica de dominação que articula economia, política, cultura e ideologia em escala global. Trata-se de um sistema que se apresenta como portador da razão, da civilização, da democracia e dos direitos humanos, mas que, na prática, organiza o mundo a partir da desigualdade estrutural, da guerra permanente e da subordinação das periferias.

O que mais me marcou na leitura foi perceber como esse império não se sustenta apenas pela força militar ou econômica, mas pela produção de consenso. Ele constrói narrativas universais — sobre progresso, mercado, liberdade, governança — que passam a parecer naturais. Quem se opõe não é apenas adversário político: é tratado como atraso, irracionalidade, ameaça ou barbarismo.

Os antípodas: resistir não é repetir

O grande mérito do livro está em não se limitar à crítica do império. Del Roio insiste em olhar para os antípodas — os espaços, movimentos, Estados e experiências históricas que resistem ou escapam, ainda que parcialmente, à lógica imperial. Mas ele não romantiza essas experiências. Ao contrário, mostra como muitas delas acabam reproduzindo, sob novas formas, as mesmas estruturas de dominação que dizem combater.

Aqui, o autor é particularmente duro com os projetos que confundem anti-imperialismo com autoritarismo. Nem todo inimigo do império é emancipador. Nem toda ruptura produz liberdade. Essa é uma advertência preciosa em tempos de polarização simplificadora, em que o mundo é reduzido a blocos morais rígidos.

Essa leitura me fez pensar no quanto parte da esquerda contemporânea, inclusive no Brasil, caiu numa armadilha: a de escolher “lados” geopolíticos sem crítica, como se bastasse ser contra o centro imperial para estar automaticamente do lado da emancipação humana. Del Roio desmonta essa lógica com paciência marxista: a questão não é apenas contra quem se luta, mas em nome de quê e com quais formas de poder.

Universalismo como violência

Um dos pontos mais incômodos do livro é a crítica ao universalismo abstrato. O império se apresenta como universal porque impõe seus valores como se fossem válidos para todos os tempos e lugares. Mas esse universalismo, na verdade, é profundamente localizado: nasce na experiência histórica do capitalismo europeu e norte-americano e se impõe como norma planetária.

O preço disso é alto. Culturas, economias, modos de vida e formas de organização política que não se encaixam nesse modelo são destruídos, marginalizados ou folclorizados. A diversidade real é sacrificada em nome de uma falsa unidade.

Aqui, não pude deixar de pensar no Brasil e na América Latina. Somos constantemente convocados a “nos integrar ao mundo”, o que quase sempre significa nos submeter às regras do império: abertura irrestrita de mercados, financeirização da economia, dependência tecnológica, reprimarização produtiva. Quando resistimos, somos punidos; quando obedecemos, continuamos subordinados.

O Brasil entre o império e seus antípodas

O livro me fez encarar uma pergunta desconfortável: o Brasil quer ser o quê? Parte subordinada do império universal? Um antípoda apenas retórico? Ou um espaço capaz de produzir alternativas reais?

Del Roio sugere que não há saída fácil. As alternativas exigem projeto histórico, organização popular, soberania econômica e imaginação política. Exigem também romper com a ilusão de que basta ocupar o Estado sem enfrentar as estruturas profundas do capitalismo dependente.

Essa reflexão dialoga diretamente com o nosso presente. Vivemos um tempo em que a política parece reduzida à gestão do possível, enquanto o império continua a operar — agora também de forma digital, financeira e algorítmica. O universal de hoje não vem apenas em tanques, mas em plataformas, rankings, ratings, sanções e narrativas globais.

O que ficou da leitura

Terminei O império universal e seus antípodas com a sensação de que pensar criticamente o mundo exige aceitar a solidão intelectual de quem não adere nem ao centro imperial nem às suas caricaturas autoritárias. Del Roio nos convida a um lugar difícil: o da crítica radical sem ilusões.

É um livro que nos lembra que a emancipação não virá de um novo império “do bem”, nem de um universalismo abstrato reciclado. Ela só pode nascer do reconhecimento da pluralidade histórica, da luta concreta dos povos e da construção paciente de alternativas que não repitam aquilo que dizem combater.

Ler Del Roio hoje é um antídoto contra o pensamento preguiçoso. É um chamado à responsabilidade teórica e política. E, sobretudo, um lembrete incômodo: não há neutralidade possível num mundo organizado como império — mas também não há salvação automática em seus antípodas.

 

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