A viagem proibida: quando o corpo feminino se torna território vigiado

 

Ler A viagem proibida, de Mary Del Priore, foi para mim uma experiência inquietante e reveladora. Não porque eu desconhecesse a história do controle sobre o corpo das mulheres, mas porque o livro escancara algo ainda mais perturbador: a vigilância sobre a mulher não se limita ao corpo, ela se estende ao movimento, ao desejo, ao espaço e à possibilidade de partir. Viajar, para muitas mulheres ao longo da história, foi um ato de transgressão.

Essa leitura me obrigou a pensar o quanto a liberdade de ir e vir, algo que hoje parece banal para alguns, sempre foi negociada, restringida e moralizada quando se tratava das mulheres.

Viajar como ameaça à ordem

Mary Del Priore mostra que, por séculos, a mulher que viajava sozinha era vista como suspeita. Viajar significava sair do controle familiar, religioso e estatal. Significava expor-se ao mundo  e, pior, experimentar autonomia. Por isso, a viagem feminina foi associada à perda da honra, à dissolução dos costumes, ao risco moral.

Ao ler os relatos, cartas, documentos e normas analisados pela autora, percebi que a proibição não era apenas prática, mas simbólica. Impedir a mulher de viajar era impedir que ela se transformasse.

A viagem sempre foi metáfora de mudança. E mudar é perigoso para quem depende da obediência alheia.

O corpo em deslocamento

O livro me fez pensar no corpo feminino como corpo “fora de lugar” quando se desloca. A mulher viajante rompe a imagem da passividade. Ela escolhe caminhos, horários, encontros. Isso ameaça uma ordem social baseada na tutela.

Del Priore evidencia como a sexualidade feminina foi usada como argumento para a interdição: a mulher viajaria para pecar, para se perder, para se desviar. O discurso da proteção escondia, na verdade, o medo da liberdade.

E aqui percebi algo incômodo: esse discurso não ficou no passado. Ele apenas mudou de linguagem.

O passado que insiste no presente

Enquanto lia A viagem proibida, não consegui deixar de pensar em quantas mulheres ainda hoje precisam justificar seus deslocamentos. Em como viajar sozinha ainda provoca julgamentos. Em como a culpa e o medo seguem sendo usados como mecanismos de controle.

Mary Del Priore nos mostra que a história não avança em linha reta. Muitas conquistas são recentes, frágeis, reversíveis. A liberdade feminina continua sendo vigiada e condicionada.

História como desnaturalização

Um dos méritos do livro, para mim, é seu efeito desnaturalizador. Ele nos faz perceber que aquilo que muitas vezes parece “tradição” ou “natureza” é, na verdade, construção histórica. As proibições, os medos e os discursos morais foram fabricados para manter estruturas de poder.

Essa leitura me lembrou do papel político da história: não apenas contar o que foi, mas mostrar que poderia ter sido diferente  e pode ser diferente ainda.

Conclusão pessoal

A viagem proibida me ensinou que viajar nunca foi apenas atravessar espaços. Para as mulheres, sempre foi atravessar limites impostos. O que estava em jogo não era a estrada, mas o direito de escolher o próprio destino.

Mary Del Priore nos entrega um livro que fala do passado, mas aponta diretamente para o presente. Ele nos lembra que toda vez que uma mulher se move livremente, algo da ordem antiga se abala.

Talvez por isso a viagem tenha sido tão temida.
Porque quem parte pode não aceitar voltar ao mesmo lugar.

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