Saudade que Amanhece

 

Ah! quem me dera a tarde antiga
de sol caindo no quintal,
o cheiro doce da cantiga
que a vida fez tão natural.

Quem me dera a rua pequena,
o riso solto sem razão,
a sombra fresca, a voz serena
guardando o mundo na canção.

Havia um céu mais verdadeiro
nas nuvens mansas do verão,
e um sonho leve e derradeiro
morava inteiro em minha mão.

Eu era pouco, e era tudo,
cabia a vida num olhar,
o tempo andava quase mudo,
sem tanta pressa de passar.

Hoje caminho entre cidades,
rostos que vão, promessas vãs,
e guardo, em meio às novidades,
o velho azul das manhãs.

Saudade é chama que não cessa,
luz que persiste sem ferir,
é essa infância que regressa
quando me canso de fingir.

Se um dia o mundo me for estreito
e o peito peça outro lugar,
fecho os olhos, e, no meu peito,
aquela tarde volta a estar.

 

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