Missão Economia: por que Mariana Mazzucato nos obriga a repensar o papel do Estado
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Economia, de Mariana Mazzucato, foi como desmontar um mito que eu mesmo já
repeti em algum momento da vida: o de que o Estado deve ser apenas um árbitro
discreto, corrigindo falhas do mercado enquanto a inovação verdadeira nasce,
quase por milagre, do setor privado. O livro faz exatamente o contrário:
mostra, com dados, história e imaginação política, que os grandes saltos
tecnológicos e sociais do capitalismo moderno foram liderados por Estados
ousados, orientados por missões claras.
Mazzucato
propõe algo simples e radical ao mesmo tempo: parar de perguntar “quanto o
Estado deve intervir” e começar a perguntar “para quê?”. A economia
deixa de ser um fim em si mesma e passa a ser um instrumento para resolver
problemas coletivos — crise climática, desigualdade, saúde pública, transição
energética. Isso muda tudo.
Missões como horizonte político
O
conceito de “missão” não é metáfora vazia. A autora recupera exemplos
históricos — como o programa Apollo — para mostrar como objetivos públicos
ambiciosos foram capazes de mobilizar universidades, empresas, trabalhadores e
tecnologias em torno de um propósito comum. O Estado não foi mero financiador;
foi orquestrador, assumindo riscos que o setor privado não assumiria.
Ao ler
isso, pensei imediatamente no Brasil. Pensar em missões hoje parece quase
heresia num país traumatizado pelo discurso da “máquina pública ineficiente”.
Mas Mazzucato nos lembra que o problema não é o tamanho do Estado, e sim sua
direção. Um Estado capturado por interesses privados produz desperdício; um
Estado orientado por missões produz valor público.
O mito do empreendedor solitário
Outro
ponto que me atravessou foi a desconstrução do mito do empreendedor heroico.
Mazzucato demonstra como tecnologias centrais — da internet ao GPS, das vacinas
de mRNA às telas sensíveis ao toque — tiveram investimento público decisivo em
suas fases mais arriscadas. O setor privado entrou depois, quando o risco já
havia sido socializado.
Isso
levanta uma questão ética: se o risco é coletivo, por que o retorno é
privado? O livro propõe mecanismos para que o Estado participe dos ganhos —
seja por participação acionária, royalties, cláusulas sociais ou reinvestimento
em políticas públicas. Não se trata de estatizar tudo, mas de redistribuir o
valor criado coletivamente.
Inovação não é só tecnologia
O que
mais me interessa em Missão Economia é que inovação não se limita a
gadgets. Inovar é mudar estruturas, repensar serviços públicos,
redesenhar cadeias produtivas, democratizar acesso. Saúde, educação, transporte
e cuidado também podem — e devem — ser campos de inovação.
Aqui,
Mazzucato dialoga com uma crítica profunda ao neoliberalismo: a redução da
política a gestão de indicadores e a economia a crescimento do PIB. Missões
exigem democracia, participação social e coordenação de longo prazo. Exigem
conflito político, não consenso tecnocrático.
O Brasil e a chance desperdiçada (e possível)
Enquanto
lia, pensei no papel histórico do BNDES, da Petrobras, da Embrapa, do SUS. O
Brasil já teve — e ainda tem — capacidade de pensar missões. O que perdemos foi
a confiança política para sustentá-las. A captura do Estado pelo rentismo e a
demonização do planejamento nos condenaram a uma economia de curto prazo.
Mazzucato não oferece receitas prontas,
mas oferece algo mais raro: imaginação institucional. Ela nos lembra que
o futuro não emerge espontaneamente do mercado; ele é construído. E que deixar
tudo “se autorregular” é, na prática, escolher que poucos decidam por muitos.
O que ficou da leitura
Terminei Missão
Economia com uma sensação paradoxal: indignação e esperança. Indignação por
perceber como fomos convencidos a abrir mão do futuro em nome de uma eficiência
fictícia. Esperança por entender que outro caminho é possível — desde que haja
coragem política, capacidade técnica e pressão social.
Pensar em
missões é, no fundo, pensar em projeto coletivo. Num mundo em colapso
climático, social e democrático, talvez essa seja a pergunta mais urgente: que
economia queremos construir — e para quem?
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