anotação à margem (que não te enviei)
escrevo porque não sei
o que fazer com essa sobra
que fica depois da conversa
(depois do beijo
depois do não)
o dia passou normalmente
— café frio
notícia ruim
uma música qualquer no rádio —
mas algo em mim
ficou atravessado
como parêntese aberto
penso em você
sem lirismo
sem drama
como quem tropeça
num objeto esquecido no quarto
e decide não guardar
às vezes acho que exagero
às vezes acho que escondo demais
a verdade deve estar
em algum ponto cego
entre o que digo
e o que rasuro
este poema não quer ser poema
quer ser bilhete
rascunho
mensagem não enviada
quer existir sem precisar explicar nada
se você ler isso um dia
(finge que não)
se não ler
também serve
continuo escrevendo
porque parar seria admitir
que entendi
— e eu ainda não entendi —
assinado:
alguém tentando
não se fechar demais.
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