A casa que aprendeu meu nome
Quando
herdei a casa, disseram que ela estava vazia havia anos. Nenhum móvel, nenhuma
fotografia, nenhum vestígio humano. Ainda assim, na primeira noite, tive a
estranha sensação de que alguém sabia que eu estava ali.
A casa
rangia como todas as casas antigas. Ignorei. Casas velhas reclamam do peso do
tempo. O que me inquietou não foi o barulho — foi o silêncio que vinha depois,
um silêncio atento, como se algo estivesse esperando minha reação.
Na
segunda noite, ouvi passos no corredor. Lentamente. Muito lentamente. Abri a
porta do quarto com o coração batendo nos ouvidos. O corredor estava vazio. Mas
o tapete, que eu havia deixado alinhado, estava levemente torto. Como se alguém
tivesse passado… e parado para escutar.
Comecei a
dormir mal. Sonhava com a casa respirando. Não metáfora — respirando mesmo. As
paredes se contraíam, o teto parecia descer alguns centímetros, e eu acordava
com a impressão de que, se dormisse fundo demais, não acordaria mais do
mesmo tamanho.
Na quarta
noite, ouvi meu nome.
Não foi
um sussurro. Foi dito com clareza, do fundo da casa, como quem chama alguém
para jantar.
Levantei-me
trêmulo. A voz não parecia hostil. Era íntima. Antiga. Como se me conhecesse
antes de eu existir. Segui até a sala. O som vinha da parede onde antes havia
uma porta — uma porta que fora fechada com tijolos, reboco e tinta.
Encostei
o ouvido. Do outro lado, algo respirava.
Passei o
dia seguinte pesquisando a história da casa. Descobri que ela pertencera a uma
família inteira que desapareceu numa única noite. Nenhum sinal de arrombamento.
Nenhum corpo. Apenas a casa intacta — e mais pesada, segundo o relato dos
vizinhos.
Naquela
noite, a casa me chamou de novo. Mas desta vez, não foi do corredor.
Foi de
dentro de mim.
Senti uma
pressão no peito, como se mãos invisíveis tentassem me moldar por dentro.
Entendi, então, que a casa não matava. Ela aprendia. Absorvia nomes,
vozes, hábitos. Crescia por dentro, alimentando-se de presenças.
Olhei
para as paredes e, por um instante, vi rostos — imóveis, atentos, costurados no
reboco como lembranças que se recusam a desaparecer.
Tentei
sair. A porta não abriu.
A casa
sussurrou meu nome uma última vez, agora perfeitamente pronunciado. Sem erro.
Sem dúvida.
Hoje,
quem passa pela rua diz que a casa parece maior. Ninguém sabe explicar como um
imóvel antigo pode ganhar novos cômodos sem reformas.
Mas às
vezes, quando o vento muda, alguém jura ouvir passos lá dentro.
E uma voz
nova.
Chamando
outro nome.
Comentários
Postar um comentário