Quando o Estado anuncia a morte: notas inquietas sobre segurança pública no Ceará

 

Li a reportagem, no Jornal O POVO de hoje, sobre as declarações do governador Elmano de Freitas com um misto de preocupação e desalento. Não pelo reconhecimento óbvio de que o Ceará enfrenta uma crise grave de segurança pública — isso ninguém sério nega —, mas pelo tom, pela linguagem e pelo horizonte político que essas falas anunciam. Quando um governador afirma publicamente que, se alguém “enfrentar a polícia”, a resposta será “efetivamente a perda da vida”, algo essencial se desloca no pacto democrático.

Não se trata aqui de defender facções criminosas, relativizar a violência ou ignorar o sofrimento cotidiano da população das periferias, que são as primeiras vítimas do crime organizado. Trata-se de outra coisa: do papel do Estado, dos limites da força legítima e do risco de transformar a política de segurança em discurso de exceção permanente.

O Estado democrático não anuncia mortes. Ele anuncia prisões, investigações, julgamentos, garantias. A morte pode ocorrer em confrontos — infelizmente ocorre —, mas ela não pode ser promessa, recado político, instrumento discursivo. Quando isso acontece, a linha que separa a legalidade da barbárie começa a se apagar.

O que mais me inquieta é perceber como esse discurso se aproxima perigosamente de uma lógica já conhecida no Brasil: a da guerra interna, onde certos corpos passam a ser tratados como descartáveis. “Facção” vira categoria totalizante, que dispensa individualização, devido processo legal e presunção de inocência. O sujeito deixa de ser cidadão — mesmo criminoso — e passa a ser alvo.

A história brasileira mostra onde isso leva. Sempre. A guerra às drogas, a militarização das periferias, o encarceramento em massa e as execuções extrajudiciais nunca produziram paz duradoura. Produziram mais violência, mais facções, mais prisões superlotadas e um Estado cada vez mais dependente da força bruta para governar territórios que abandonou socialmente.

Os números citados pelo governador — 4 mil presos a mais, mais de 25 mil encarcerados — são apresentados como vitória. Mas me pergunto: vitória para quem? O Ceará já vive um sistema prisional colapsado, dominado por facções, onde o cárcere funciona como escola do crime e mecanismo de recrutamento. Prender mais, sem discutir seriamente condições carcerárias, políticas de reintegração, inteligência policial e prevenção social, é empurrar o problema alguns metros à frente — e torná-lo maior.

Outro ponto que me causa espanto é a naturalização da linguagem militar. Fuzis de última geração, drones, viaturas blindadas, discurso de “derrotar todos os grupos criminosos”. Essa estética e essa retórica não são neutras. Elas produzem subjetividade. Produzem policiais treinados para a guerra, não para a proteção cidadã. Produzem uma população ensinada a aceitar mortes como efeito colateral inevitável.

Quando o governador elogia operações com mortos como “corretas, seguras e rígidas”, e celebra o fato de não haver “policiais mortos” ou “inocentes atingidos”, fica uma pergunta incômoda no ar: quem define quem é inocente? Em um Estado de Direito, isso não é função do Executivo, nem da polícia. É função da Justiça. Quando essa distinção é feita previamente, no discurso político, o julgamento já está dado.

Mais grave ainda é o alinhamento simbólico — ainda que indireto — com práticas adotadas em estados como o Rio de Janeiro, onde operações resultaram em mais de uma centena de mortes em uma única semana. Esse modelo, amplamente criticado por organismos nacionais e internacionais de direitos humanos, é apresentado como referência. Como se a letalidade fosse sinônimo de eficiência.

Não é.

O que está em jogo aqui não é apenas segurança pública, mas o tipo de sociedade que estamos dispostos a aceitar. Um Estado que promete morte como resposta tende, mais cedo ou mais tarde, a errar o alvo. E quando erra, erra sempre para o mesmo lado: jovens negros, pobres, moradores de periferia, pessoas sem defesa institucional.

A segurança pública precisa ser firme, sim. Precisa enfrentar facções, sim. Precisa proteger policiais, sim. Mas precisa, acima de tudo, respeitar a lei que diz defender. Fora disso, o Estado deixa de ser solução e passa a ser parte do problema.

Como cidadão, como alguém que vive o Ceará real, não quero um governo que me prometa cadáveres. Quero um governo que me prometa vida: políticas sociais, inteligência policial, controle externo das forças de segurança, justiça célere, prisão quando for o caso — e não execução como recado político.

Quando o Estado começa a falar a linguagem da morte, é sinal de que falhou antes — e está tentando compensar esse fracasso com força. A história ensina que esse caminho não leva à tranquilidade. Leva ao medo. E o medo, quando se institucionaliza, cobra um preço alto demais para qualquer democracia que ainda queira se chamar assim.

Quando o PT fala a linguagem da força: o que mudou — e a que custo?

Há algo que torna as declarações do governador Elmano ainda mais inquietantes: não se trata de um político da direita tradicional ou da extrema direita. Trata-se de um governador do PT, partido que historicamente construiu sua identidade em oposição à lógica do “bandido bom é bandido morto”, à militarização da vida social e ao uso da violência estatal como solução política.

Essa mudança de discurso não é casual, nem isolada. Ela faz parte de um reposicionamento mais amplo do PT no campo da segurança pública, perceptível em vários estados e também no plano nacional. O que antes era criticado como autoritarismo passou a ser incorporado, ainda que com ressalvas, como linguagem de governo.

E isso merece ser pensado com cuidado.

O que significa essa mudança de narrativa?

Significa, antes de tudo, que o PT está respondendo ao medo social. A insegurança virou uma das principais angústias da população, especialmente nas periferias urbanas. A direita e a extrema direita entenderam isso antes e construíram hegemonia simbólica nesse campo, associando força, repressão e letalidade à ideia de ordem.

Diante disso, parte do PT parece ter concluído que não dá mais para disputar eleições e governar falando apenas em prevenção, políticas sociais e direitos humanos. O discurso endurece para sinalizar “controle”, “autoridade”, “capacidade de resposta”.

Há também um cálculo eleitoral claro: segurança pública é tema sensível, e a esquerda costuma perder essa disputa narrativa. Ao adotar uma linguagem mais dura, o PT tenta neutralizar o discurso da direita, mostrando que também sabe “enfrentar o crime”.

O problema é que linguagem não é neutra. Ela produz política, prática e subjetividade.

Os possíveis “prós” dessa guinada

Seria intelectualmente desonesto ignorar que há argumentos a favor desse movimento — e eles precisam ser nomeados:

  1. Resposta ao clamor popular
    O medo é real. Facções impõem terror em bairros inteiros. Ignorar isso fragiliza qualquer governo progressista.
  2. Proteção institucional às forças de segurança
    Policiais também são trabalhadores expostos à violência. Um discurso que reconhece isso pode melhorar moral, condições de trabalho e cooperação institucional.
  3. Redução do espaço discursivo da extrema direita
    Ao endurecer a fala, o PT tenta impedir que a direita monopolize o tema da segurança como se fosse sua “propriedade moral”.
  4. Capacidade de governar em contextos críticos
    Governar exige decisões difíceis. Parte do partido entende que manter um discurso excessivamente normativo, distante da realidade, pode inviabilizar a gestão.

Esses pontos existem. Ignorá-los seria simplificar o debate.

Mas os contras são profundos — e perigosos

O problema é que os custos dessa mudança podem ser muito maiores que seus ganhos.

  1. Deslocamento ético do projeto histórico do PT
    Quando o partido adota a retórica da morte, da guerra e do “enfrentamento a qualquer custo”, ele começa a se afastar de sua base ética fundadora: a defesa da vida, da dignidade e do Estado de Direito.
  2. Normalização da letalidade policial
    Ao anunciar a morte como consequência esperada, o governo contribui para naturalizar execuções em contextos ambíguos — especialmente nas periferias.
  3. Perda da diferença simbólica entre esquerda e direita
    Se o PT fala como a direita no tema da segurança, por que o eleitor escolheria o PT? A esquerda perde sua identidade e não necessariamente ganha o eleitor conservador.
  4. Risco de erosão democrática
    Estados que governam pelo medo tendem a ampliar poderes coercitivos, reduzir controles e tolerar abusos. A exceção vira regra.
  5. Reforço da lógica da guerra interna
    Facções não são derrotadas apenas com força. Elas se alimentam do encarceramento em massa, da violência estatal e da ausência de políticas sociais estruturais.
  6. Silenciamento do debate estrutural
    Falar em fuzis, drones e blindados desvia o foco de temas centrais: desigualdade, juventude sem horizonte, sistema prisional falido, política de drogas fracassada.

O risco maior: vencer o discurso e perder o projeto

O que mais me preocupa é que o PT, ao adotar essa narrativa, pode até ganhar em curto prazo, mas perde algo muito mais difícil de recuperar: coerência histórica.

A esquerda não pode disputar a segurança pública apenas no terreno da força. Se fizer isso, entra num jogo em que a direita sempre promete ir mais longe, ser mais dura, ser mais violenta. É uma corrida que não tem fundo — e que termina sempre com mais mortes, mais prisões e menos democracia.

O desafio verdadeiro seria outro: construir uma narrativa de segurança que seja firme sem ser letalista, rigorosa sem ser bélica, eficaz sem abandonar o direito. Isso exige mais trabalho político, mais comunicação, mais enfrentamento ideológico — e menos frases de efeito.

Uma escolha que define o futuro

A fala do governador Elmano não é apenas uma declaração isolada. Ela é sintoma de um dilema maior da esquerda brasileira: governar sob pressão sem trair seus princípios.

Como cidadão, espero que o PT não confunda firmeza com brutalidade, nem autoridade com licença para matar. Porque quando a esquerda começa a falar como a direita em matéria de morte, algo essencial já foi perdido no caminho.

E recuperar isso depois custa caro — em vidas, em democracia e em futuro.

 

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