Canto do que somos agora

 

Eu celebro o que anda comigo,
o corpo que atravessa a rua,
o suor anônimo, o riso breve,
a mão que cumprimenta sem saber o nome.

Celebro o pulmão que se abre ao amanhecer,
o estômago que pede pão,
o coração que insiste —
ah, como insiste —
mesmo cansado de promessas.

Eu digo: somos muitos.
Somos o passo do trabalhador ao nascer do dia,
o caderno do estudante rabiscado de sonhos,
a mulher que ergue o mundo com o silêncio,
o velho que guarda histórias no bolso do casaco.

Vejo os corpos:
fortes, frágeis, ardentes, trêmulos,
corpos que amam, que erram, que esperam,
corpos que dançam quando ninguém vê,
corpos que caem e se levantam com poeira nos joelhos.

Eu canto a cidade inteira —
suas janelas acesas, seus becos,
o mercado que pulsa, o ônibus lotado,
o beijo rápido na esquina,
a solidão que caminha ao meu lado como irmã.

Nada me é estranho:
o riso e o luto,
a fé e a dúvida,
o nascimento e o fim que nos ronda
como um amigo paciente.

Eu não separo o alto do baixo,
o sagrado do cotidiano,
o espírito do corpo:
tudo respira junto em mim.

Ó vida vasta!
Eu te recebo sem contrato,
sem mapa,
sem garantia —
apenas com esta voz que diz sim
ao que passa, ao que fica, ao que somos.

E se amanhã eu não estiver,
ainda assim meu canto seguirá
no passo de alguém que caminha,
no peito de alguém que ama,
no mundo que continua dizendo:
estamos aqui.

 

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