Canto para os que ainda respiram
Erguei os
olhos, homens livres,
e vede a noite que persiste!
Ainda há grilhões no vento,
ainda há sangue onde a terra insiste.
Mudaram-se os nomes da corrente,
mas o ferro segue invisível,
e a dor do povo, antiga e quente,
arde num mundo impassível.
Ó pátria
vasta e ferida,
que canta hinos e esquece os mortos,
quantos corpos sustentam tua vida
nos porões, nas filas, nos portos?
Quantas mãos cavaram o chão
para que poucos erguessem palácios?
Quantos sonhos viraram pó
no altar do lucro e dos espaços?
Eu vejo
crianças sem aurora,
com o futuro cortado em dois,
vejo mães que choram agora
o amanhã que nunca foi.
E vejo também — porque ainda vejo —
um clarão rasgando a escuridão:
é o grito antigo do desejo
por justiça e redenção.
Não me
peçam versos mansos
quando a fome escreve mais alto,
quando o silêncio é crime e cansa
e a esperança anda descalça no asfalto.
Minha poesia não pede licença,
não se curva ao medo ou ao rei:
ela nasce da resistência
dos que lutam e dos que eu sei.
Que venha
o dia — ah, que venha! —
em que o homem não seja mercadoria,
em que a vida não valha menos
que o ouro frio da tirania.
Nesse dia, enfim, cantaremos
não a dor, mas a travessia:
porque o povo, quando desperta,
faz do amor a rebeldia.
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