O que ficou entre os verões
Conheci
Clara no verão em que nada parecia definitivo. Eu tinha acabado de aceitar um
trabalho que não sabia se queria, ela estava de passagem pela cidade, dizendo
que era só por três meses, embora dissesse isso com a convicção frágil de quem
já sabia que ficaria mais tempo.
Nos
conhecemos numa livraria quase vazia, dessas que sobrevivem mais por teimosia
do que por lucro. Ela folheava um livro que eu tinha amado anos antes. Fiz o
comentário óbvio, ela respondeu com um sorriso que não prometia nada e, ainda
assim, entregava muito.
Nos
tornamos um hábito rápido. Cafés no fim da tarde, caminhadas sem destino,
conversas que começavam leves e terminavam perigosamente honestas. Clara tinha
esse jeito de perguntar coisas que eu evitava responder até para mim mesmo. E
eu tinha o defeito, ou virtude, de escutar como se o tempo não estivesse
correndo.
Ela me
contou sobre o passado como quem escolhe bem as palavras para não sangrar de
novo. Eu contei o suficiente para parecer inteiro. Nenhum de nós mentiu, mas
também não dissemos tudo. O amor, aprendi ali, começa muitas vezes nesse acordo
silencioso.
O
problema do verão é que ele sempre acaba. E Clara tinha uma vida esperando por
ela em outro lugar. Um trabalho melhor, uma história antiga mal resolvida, uma
promessa que não era exatamente felicidade, mas era compromisso.
— Não
quero que você me peça para ficar, ela disse, numa noite em que a cidade
parecia ouvir nossa conversa.
— Não quero pedir, respondi. E era verdade. Mas eu queria que ela ficasse mesmo
assim.
Amar
alguém, percebi, não é convencer. É sustentar a liberdade do outro mesmo quando
ela dói.
Ela foi
embora num domingo cedo. Não houve drama, apenas um abraço longo demais para
ser casual e curto demais para ser suficiente. Ficamos meses sem nos falar.
Depois, mensagens esporádicas. Fotos de lugares diferentes. Vidas seguindo.
Anos
depois, nos reencontramos por acaso, como se o mundo tivesse senso de humor.
Ela parecia mais segura. Eu, menos apressado. Tomamos um café. Falamos do que
fomos e do que não conseguimos ser juntos.
— Você
foi uma escolha que eu não tive coragem de fazer, ela disse.
— Você foi um amor que me ensinou a não aceitar menos, respondi.
Não
reatamos. Não era esse tipo de história. Mas saí daquele encontro sabendo algo
essencial: nem todo amor precisa durar para ser definitivo. Alguns existem para
nos reorganizar por dentro.
Hoje,
quando penso em Clara, não penso em perda. Penso em verão. Em tudo o que
floresce intensamente, mesmo sabendo que vai passar. E agradeço.
Porque
amar alguém assim, sem posse, sem promessa falsa, também é uma forma de ficar.
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