O Homem que Vendeu o Próprio Silêncio
Dizem, e eu não afirmo, mas tampouco desminto, que, em tempos idos de
Fortaleza, havia um sujeito chamado Anselmo
Calado, cuja maior qualidade era falar… e cuja maior tragédia também.
Anselmo falava de tudo: política, futebol, vida
alheia, tempo, maré, preço do feijão e até do que não sabia (que, aliás, era o
que mais falava). Se lhe perguntassem a hora, ele respondia com a história do
relógio.
Ora, aconteceu que, cansados de tanta eloquência
involuntária, os amigos resolveram pregar-lhe uma peça. Reuniram-se no Café do
Ferreira, esse templo onde mais se decide o mundo do que em muito gabinete
oficial, e combinaram:
Vamos
comprar o silêncio de Anselmo.
E como toda ideia absurda em Fortaleza ganha
força com um café e duas tapiocas, levaram o plano adiante.
No dia seguinte, abordaram o falador com ar
solene.
Seu
Anselmo, disse o mais sério, que era o mais mentiroso, estamos organizando uma
sociedade secreta de homens sábios. Para entrar, é preciso provar uma virtude
rara: o silêncio.
Anselmo arregalou os olhos, coisa rara, pois
normalmente os mantinha ocupados acompanhando a própria fala.
Silêncio?, repetiu, como quem experimenta
palavra nova.
Sim. E
estamos dispostos a pagar, acrescentou outro, cem mil-réis por dia de silêncio absoluto.
Anselmo, que nunca tinha ganho dinheiro com a
boca fechada, aceitou imediatamente.
E assim começou o fenômeno.
No primeiro dia, Anselmo circulou pela cidade
mudo como poste. Passou pelo Mercado Central sem comentar o preço da farinha.
Cruzou a Praça do Ferreira sem dar opinião sobre o governo. Foi um
acontecimento.
No segundo dia, já havia gente apostando
quanto tempo duraria.
No terceiro, começaram os efeitos colaterais.
Porque, se Anselmo não falava, também não
ouvia direito. Como ninguém conseguia saber o que ele pensava, começaram a
inventar.
Dizem
que ele virou filósofo!
Nada, está preparando candidatura!
Eu ouvi dizer que ficou rico!
No quinto dia, um político tentou contratá-lo
para assessor.
Um
homem que não fala não comete erro, disse o candidato.
Anselmo quase respondeu, o que lhe custaria
cem mil-réis, mas conteve-se.
No sétimo dia, a cidade já não era a mesma.
Sem Anselmo para espalhar boatos, as notícias começaram a demorar. As fofocas
perderam agilidade. O povo estranhou.
Está
faltando alguma coisa, murmuravam.
Foi então que, no oitavo dia, aconteceu o
inevitável.
Uma senhora deixou cair um pacote no meio da
rua. Anselmo viu. Aproximou-se. Abriu a boca… fechou… abriu de novo… e
explodiu:
MINHA
SENHORA, ISSO AÍ CAIU FOI HÁ UM TEMPÃO, E EU IA DIZER DESDE O COMEÇO, MAS NÃO
DISSE POR CAUSA DE UMA SOCIEDADE SECRETA QUE ME PAGA PRA FICAR CALADO, MAS VEJA
SÓ COMO ISSO É UM ABSURDO, PORQUE O MUNDO PRECISA DE GENTE QUE AVISE AS COISAS
NA HORA CERTA…
E não parou mais.
Os amigos, derrotados, reconheceram o fracasso
da experiência.
—Anselmo, disseram, o senhor devolveu sete
dias de silêncio por uma única frase.
E ainda
saiu barato, respondeu ele, retomando o fôlego. Porque eu tenho mais umas vinte opiniões
guardadas desde terça-feira.
Dizem, e aqui termino, porque já falei demais,
que nunca mais tentaram comprar o silêncio de Anselmo.
Aprenderam, enfim, uma lição que vale para
Fortaleza, Lima ou qualquer canto do mundo:
há homens que falam demais…
e há silêncios que saem caros demais para serem mantidos.
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