Entre a engrenagem e o corpo: o que “Capitalismo & Sociedade” me fez encarar

 

Terminei Capitalismo & Sociedade, de Marcos Bentes, com a sensação de que não dá mais para pensar o mundo como se ele estivesse organizado por compartimentos limpos. Economia de um lado, cultura de outro, subjetividade em um canto mais íntimo. O livro me atravessa justamente porque insiste no contrário: o capitalismo não é apenas um sistema econômico, é uma forma de vida. E isso, para mim, muda tudo.

Eu leio Bentes como quem tenta montar um mapa do presente. Ele vai costurando as relações entre produção, consumo, mídia, tecnologia e comportamento, e, aos poucos, vou percebendo que não estou fora do quadro que ele desenha. Eu estou dentro. Nós estamos.

O cotidiano como campo de disputa

Uma das coisas que mais me marcou foi a forma como o autor desloca a análise do “grande sistema” para o cotidiano. Não é só nas bolsas de valores ou nas decisões de governo que o capitalismo opera. Ele está na forma como nos relacionamos, no modo como nos percebemos, no tipo de desejo que aprendemos a ter.

Eu me peguei pensando:
quanto do que eu desejo é realmente meu?

Bentes sugere, e eu concordo com certo desconforto, que nossos desejos são, em grande medida, mediados, produzidos e orientados. Não no sentido conspiratório, mas estrutural. Há uma lógica que organiza o que aparece como desejável, viável, necessário. E isso me remete imediatamente à psicanálise.

 

Porque, se o desejo é atravessado pelo Outro, como nos ensinou Lacan, o capitalismo parece ter se tornado um grande Outro que fala o tempo inteiro: consuma, produza, performe, seja eficiente, seja visível.

A subjetividade como território econômico

O livro me faz encarar algo que, no fundo, eu já intuía: nossa subjetividade virou terreno de exploração.

Não basta mais trabalhar. É preciso estar disponível, conectado, produtivo emocionalmente. A lógica do desempenho invade o descanso, o lazer, as relações afetivas.

Byung-Chul Han já falava disso, mas Bentes traz essa discussão para um contexto mais próximo da nossa realidade, mostrando como isso se traduz em precarização, ansiedade e uma espécie de cansaço difuso que parece nunca ter causa única.

Eu reconheço isso em mim, nas pessoas ao meu redor, nos relatos que escuto. Há uma exaustão que não é só física. É existencial.

Desigualdade como estrutura, não como exceção

Outro ponto que me chama atenção é a forma como o livro trata a desigualdade. Não como um desvio, um problema pontual, mas como algo intrínseco ao funcionamento do sistema.

Isso é duro de admitir, porque desmonta a ideia de que bastaria “ajustar” o capitalismo para torná-lo mais justo. Bentes parece sugerir que a própria lógica de acumulação produz exclusão.

E, olhando para o Brasil, e para o Ceará,  isso se torna evidente.

Territórios com abundância convivendo com escassez. Tecnologia avançando ao lado de precarização do trabalho. Crescimento econômico que não se traduz em dignidade para todos. Não é falha ocasional. É desenho estrutural.

Entre crítica e possibilidade

Mas o livro não me parece apenas um diagnóstico. Ele também abre frestas. Ao mostrar que o capitalismo é uma construção histórica e social, ele nos lembra que não é inevitável. E isso, para mim, é talvez o ponto mais importante. Se foi construído, pode ser transformado.

A questão, e aqui entra minha própria inquietação, é como fazer isso sem cair em soluções simplistas. Porque também não basta negar o sistema abstratamente. É preciso construir alternativas concretas, viáveis, enraizadas nos territórios.

O que fazer com esse incômodo?

Saio da leitura com mais perguntas do que respostas, o que, sinceramente, considero um bom sinal.

Como reconstruir relações que não sejam mediadas exclusivamente pela lógica do mercado?

Como produzir políticas públicas que enfrentem desigualdades sem reproduzir dependências?

Como preservar espaços de subjetividade que não estejam capturados pela lógica do desempenho?

Essas perguntas não cabem em slogans. Exigem trabalho coletivo, imaginação política e coragem.

Um livro que me implicou

Talvez o maior mérito de Capitalismo & Sociedade seja esse: ele não me permite ficar em uma posição confortável de observador. Ele me implica.

Porque, no fim das contas, não estamos apenas analisando o capitalismo.
Estamos vivendo nele. E, de alguma forma, ajudando a reproduzi-lo, ou a transformá-lo. E isso, para mim, é o que torna a leitura tão necessária quanto incômoda.

Indicações de leitura

Marcos BentesCapitalismo & Sociedade

Byung-Chul HanA sociedade do cansaço

Mark FisherRealismo capitalista

Pierre Dardot & Christian LavalComum

David HarveyO enigma do capital

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