O Caso do Galo Doutor

 

Pois olhe, não sei se foi coisa de lua cheia ou se foi daquelas modernidades que andam chegando até nos rincões mais esquecidos, mas o certo é que, lá na Várzea do Angico, apareceu um galo diferente. E não era pouca coisa, não.

O bicho não cantava só de madrugada, não senhor. Cantava era com sotaque de gente estudada, todo cheio de entonação, como se tivesse feito faculdade lá na capital. E o pior: parecia entender tudo.

Quem primeiro notou foi o seu Antunes, homem sério, de bigode respeitável e poucas ideias, que, aliás, eram sempre as mesmas.

 Isso aí não é galo, não, disse ele, olhando o bicho atravessado.  Isso aí é doutor disfarçado.

E pronto. Bastou isso pra fama correr mais ligeira que cavalo solto em campo aberto. No outro dia, já tinha gente dizendo que o galo sabia de medicina, de lei e até de política, o que, convenhamos, é coisa que nem todo doutor sabe.

O dono do galo era o Zé Bentinho, sujeito simples, mas de olho vivo. Quando viu o rebuliço, não perdeu tempo.

 Olha que o doutor aqui consulta, viu?  anunciou, ajeitando o chapéu.  Mas é consulta fina, de respeito. Nada de conversa fiada.

E não é que o povo acreditou?

A primeira a aparecer foi dona Alzira, com uma dor no joelho que vinha desde a época em que ainda dançava xote sem parar.

Zé Bentinho colocou o galo em cima da mesa, fez um silêncio danado e disse:

 Fale, doutor.

O galo olhou pra dona Alzira, deu uma ajeitada nas penas, e soltou um cocoricó tão comprido que parecia discurso de político em véspera de eleição.

Zé Bentinho coçou o queixo, pensativo:

—O doutor disse que é reumatismo antigo, agravado por saudade e teimosia. Recomenda descanso e parar de falar mal da vizinha.

Dona Alzira arregalou os olhos.

 Mas como é que ele sabe da vizinha?!

Doutor sabe, respondeu Zé, com a maior calma.

Pagou a consulta e saiu convencida.

Depois veio o seu Juvenal, com uma dor no peito que aparecia sempre que via a conta do armazém.

O galo cantou de novo, mais curto dessa vez.

 O doutor diz que isso é susto de dívida, traduziu Zé Bentinho.  E que o melhor remédio é pagar ou esquecer.

 Mas pagar eu não posso...  murmurou Juvenal.

 Então trate de esquecer com convicção, concluiu Zé.

E assim foi. O galo virou celebridade. Tinha fila na porta, gente de tudo quanto é canto, até de longe. Diziam que o bicho era melhor que médico de cidade grande, porque pelo menos falava claro, mesmo que fosse em cocoricó.

Mas aí, como toda história boa, veio o tropeço.

Um dia apareceu o seu Firmino, homem desconfiado, desses que não compram nem vento sem examinar bem.

 Quero ver esse doutor trabalhar, disse ele, cruzando os braços.

Zé Bentinho fez o ritual, chamou o galo.

O bicho subiu na mesa, olhou pro seu Firmino… e nada.

Silêncio.

Nem um pio.

Zé tentou de novo:

 Fale, doutor.

O galo virou de costas e começou a ciscar, como se estivesse procurando minhoca.

Seu Firmino deu um sorriso de canto:

 Acho que o doutor hoje tá mais pra galinheiro do que pra consultório, hein?

Zé Bentinho suou frio, mas não perdeu o rebolado:

 O doutor disse tudo, só que o senhor não escutou.

 E o que foi que ele disse?  provocou Firmino.

Zé ajeitou o chapéu, respirou fundo:

 Disse que o senhor não tem doença nenhuma. Só tem desconfiança crônica, que não tem cura nem com reza braba.

O povo caiu na risada.

Seu Firmino até tentou retrucar, mas ficou sem jeito. Pagou a consulta e saiu resmungando.

E o galo?

Ah, o galo continuou lá, cantando quando queria, calando quando bem entendia. Nunca mais deixou ninguém saber se era doutor mesmo ou só esperto.

Mas que ensinou uma coisa, ensinou:

 Em terra onde o povo quer resposta fácil, até galo vira especialista.

E, cá entre nós, tem muito doutor por aí que não canta nem metade do que esse galo inventava… mas cobra o dobro.

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