O falso self saudável: a máscara que protege ou a ponte que nos constitui?
Eu demorei a entender que nem toda máscara é mentira. Durante muito tempo,
na minha formação e na clínica, fui seduzido por uma leitura quase moral do
“verdadeiro self” , como se ele fosse um núcleo puro, espontâneo, livre de
concessões, e do “falso self” como uma espécie de traição a si mesmo. Mas a
experiência com pessoas reais, atravessadas por histórias concretas, me obrigou
a abandonar essa dicotomia simplista. Foi Winnicott quem me ofereceu uma saída
mais honesta: o falso self não é, por definição, patológico. Em certas
condições, ele é necessário. E, mais do que isso, pode ser saudável.
Quando Winnicott fala em falso self, ele não
está falando apenas de falsidade, mas de adaptação.
O bebê humano nasce em estado de dependência absoluta, sem um “eu” consolidado.
É no encontro com o ambiente, sobretudo com a mãe ou cuidador, que ele começa a
existir como sujeito. Se esse ambiente é suficientemente bom, ele acolhe os
gestos espontâneos do bebê, permitindo que o verdadeiro self emerja. Mas se o
ambiente falha, o bebê precisa se adaptar. E essa adaptação precoce pode dar
origem ao falso self.
O ponto decisivo , e muitas vezes
negligenciado, é que nem toda adaptação é
traumática. Há uma forma de falso self que não sufoca o verdadeiro,
mas o protege.
Eu gosto de pensar o falso self saudável como
uma espécie de interface entre o mundo
interno e o mundo social. Ele é aquilo que nos permite viver em
sociedade sem nos expormos de forma crua o tempo inteiro. Ele organiza nossas
maneiras de falar, de nos comportar, de respeitar regras, de sustentar papéis.
Ele é o que me permite, por exemplo, estar numa sala de aula, num equipamento
cultural como o Dragão do Mar ou numa reunião institucional sem precisar agir
apenas a partir dos meus impulsos mais imediatos. Sem esse falso self, a vida
social seria inviável.
Mas há uma linha tênue, e perigosa, entre o falso self saudável e o falso
self defensivo e empobrecido. O primeiro é flexível: ele serve ao sujeito. O segundo é rígido: o sujeito passa a servi-lo.
Na clínica, isso aparece com muita força.
Penso, por exemplo, em uma vinheta ficcional que poderia ser de muitos
pacientes que já encontrei:
“Rafael
chega sempre pontual, fala de forma organizada, educada, quase impecável.
Trabalha bem, é elogiado por todos. Mas, ao longo das sessões, algo começa a
emergir: ele não sabe dizer o que gosta, não reconhece seus próprios desejos,
vive exausto de sustentar uma imagem. ‘Eu sou o que esperam de mim’, ele diz,
com uma lucidez que dói.”
Nesse caso, o falso self deixou de ser proteção e se tornou prisão.
O que me inquieta, e aqui começa minha crítica, é que vivemos numa sociedade
que estimula sistematicamente a
hipertrofia do falso self. Redes sociais, mercado de trabalho, cultura
do desempenho: tudo parece exigir versões cada vez mais polidas, vendáveis,
performáticas de nós mesmos. A autenticidade vira produto. A espontaneidade
vira estratégia. E o sujeito vai se afastando de si sem perceber.
No Brasil, isso ganha contornos ainda mais
complexos. Em contextos de desigualdade, precariedade e violência simbólica,
muitas vezes o falso self não é escolha, é sobrevivência. Quantas pessoas
precisam “vestir” um comportamento específico para não serem lidas como
ameaçadoras, incompetentes ou inadequadas? Quantos jovens das periferias
aprendem, desde cedo, a modular sua fala, seu corpo, seu modo de existir para
caber em espaços que não foram feitos para eles?
Nesse sentido, o falso self saudável também
pode ser uma estratégia política de
existência. Ele permite circular, negociar, resistir.
Mas isso não elimina o risco: quando essa
adaptação se torna total, o sujeito perde o contato com aquilo que nele é vivo.
Eu, como clínico e como alguém atravessado por
essas mesmas exigências sociais, tenho aprendido a não demonizar o falso self,
mas a perguntar:
a serviço de quê ele está?
Ele protege ou sufoca?
Ele permite o encontro ou apenas mantém uma encenação?
A tarefa clínica, e talvez também ética, não é
destruir o falso self, mas reintegrá-lo.
Fazer com que ele volte a ser um instrumento, e não um cárcere. Isso implica
criar espaços onde o verdadeiro self possa aparecer sem risco de aniquilação.
Espaços de jogo, de criação, de erro, de não saber.
Winnicott dizia que é no brincar que o sujeito
se encontra. Eu acrescentaria: é quando o falso self relaxa que o brincar se
torna possível.
E talvez seja isso que mais me mobiliza hoje:
ajudar a construir, na clínica, na cultura, na política, condições para que as
pessoas possam existir para além das suas máscaras, sem precisar abandoná-las
completamente. Porque, no fundo, não se trata de escolher entre o verdadeiro e
o falso, mas de reconstruir uma relação
mais viva entre ambos.
O
falso self saudável, afinal, não é uma mentira. É uma forma de cuidado. Mas só
permanece saudável enquanto não nos faz esquecer quem estamos tentando
proteger.
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