Entre o colo e o mundo: o que aprendi com Bebês e suas mães, de Winnicott

 

Ler Bebês e suas mães não foi, para mim, apenas um exercício teórico. Foi quase um deslocamento de olhar, daqueles que nos fazem rever não só o modo como pensamos o desenvolvimento humano, mas também como entendemos a fragilidade, o cuidado e até a política da vida cotidiana. Ao atravessar esse livro, eu não consegui permanecer no lugar confortável de quem analisa de fora. Fui implicado o tempo inteiro.

Winnicott escreve com uma simplicidade enganosa. À primeira vista, parece que ele está apenas descrevendo a relação entre mãe e bebê. Mas, à medida que avanço, percebo que ele está propondo algo muito mais radical: uma revolução silenciosa na forma de compreender o sujeito. Não há sujeito antes da relação. Não há bebê sem ambiente. E isso, para mim, é um golpe direto em qualquer ideal de autonomia precoce que ainda insiste em organizar nosso mundo.

Uma das ideias que mais me atravessou foi a da “mãe suficientemente boa”. E aqui já começo minha inquietação: vivemos numa sociedade que exige mães perfeitas, produtivas, emocionalmente disponíveis o tempo inteiro, como se o cuidado fosse uma performance sem falhas. Winnicott vai na contramão disso. Ele nos diz que não é a perfeição que sustenta o desenvolvimento, mas uma presença que falha de forma tolerável, que se adapta progressivamente, que permite ao bebê sair da ilusão de onipotência para o reconhecimento da realidade.

Eu me peguei pensando: o quanto essa noção é subversiva hoje?

Porque reconhecer que o cuidado pode falhar, e ainda assim ser bom o suficiente, é também questionar uma lógica social que transforma o cuidado em mercadoria, em meta, em ideal inalcançável. No Brasil, especialmente, onde tantas mulheres cuidam em condições precárias, sem rede de apoio, sem políticas públicas consistentes, falar em “mãe suficientemente boa” pode ser libertador, mas também pode ser perigoso se for usado para naturalizar a ausência de suporte social.

E é aqui que minha leitura se torna crítica: Winnicott nos oferece ferramentas potentes, mas elas precisam ser historicamente situadas. Não basta falar de holding, de manejo, de presença, se não discutirmos quem sustenta quem. Quem segura a mãe enquanto ela segura o bebê? Essa pergunta me inquieta profundamente.

Outra ideia que me atravessou foi a do ambiente facilitador. Winnicott insiste que o desenvolvimento saudável depende de um ambiente que acolhe, sustenta e protege o gesto espontâneo do bebê. Isso parece óbvio, até lembrarmos que grande parte das nossas crianças cresce em contextos marcados por violência, insegurança alimentar, instabilidade emocional e ausência de políticas públicas eficazes.

Eu não consigo ler Winnicott sem pensar no SUS, nas equipes de atenção básica, nos CRAS, nos territórios periféricos de Fortaleza, onde tantas mães fazem o impossível para garantir o mínimo. Ali, o ambiente facilitador não é dado, ele é construído na luta, na improvisação, na solidariedade.

E isso me leva a uma conclusão incômoda:
o fracasso ambiental não é apenas individual, ele é estrutural.

Quando Winnicott fala do risco de falhas precoces no ambiente, ele está, ainda que indiretamente, nos convocando a pensar em responsabilidade coletiva. Porque um bebê não adoece sozinho. Há sempre um entorno que falha com ele.

Lembro de uma vinheta clínica ficcional que sintetiza bem essa tensão:

“Carla, 28 anos, mãe de primeira viagem, chega exausta. Diz que ama o filho, mas se sente culpada por não conseguir estar presente como gostaria. Trabalha o dia inteiro, pega dois ônibus, chega em casa sem energia. ‘Eu sei que ele precisa de mim, mas eu também preciso sobreviver’, ela me diz. Entre o amor e o cansaço, ela se sente inadequada.”

Nesse momento, eu me pergunto: é Carla que falha ou é o mundo que a esgota?

Winnicott talvez diria que o ambiente precisa ser suficientemente bom. Eu acrescentaria: o ambiente social precisa deixar de ser suficientemente cruel.

Há também, no livro, uma defesa importante do gesto espontâneo, essa manifestação inicial do verdadeiro self que precisa ser reconhecida e sustentada. Quando isso não acontece, o sujeito pode se organizar a partir de um falso self, adaptado, defensivo. Aqui, novamente, não consigo deixar de pensar no quanto nossa cultura, marcada por normas rígidas, expectativas sociais e desigualdades, frequentemente sufoca esse gesto.

Quantas crianças aprendem, desde cedo, a não incomodar?
A não desejar demais?
A não serem “difíceis”?

E, mais tarde, quantos adultos chegam à clínica sem saber o que sentem, o que querem, quem são?

Ler Bebês e suas mães me fez perceber que essas questões começam muito antes do que costumamos imaginar. Elas nascem no colo, no olhar, no ritmo do cuidado.

Mas, ao mesmo tempo, o livro também me oferece esperança. Porque, se o desenvolvimento depende de relação, ele também pode ser reparado na relação. A clínica, nesse sentido, se torna um espaço onde algo do ambiente facilitador pode ser reconstruído. Onde o sujeito pode, talvez pela primeira vez, experimentar um tipo de presença que não exige performance.

Eu saio dessa leitura com uma convicção e uma inquietação. A convicção é que cuidar é um ato fundante do humano. Não há sujeito sem cuidado. Não há liberdade sem vínculo. A inquietação é que continuamos tratando o cuidado como algo secundário, invisível, feminino, privado, quando, na verdade, ele é profundamente político.

Se eu pudesse extrair uma proposta a partir dessa leitura, ela seria simples e radical ao mesmo tempo:
precisamos socializar o cuidado sem desumanizá-lo.
Fortalecer políticas públicas, redes comunitárias, práticas clínicas sensíveis, mas sem perder de vista que, no centro de tudo isso, há um encontro singular entre corpos, afetos e histórias.

Winnicott me ensinou que um bebê precisa de alguém que o segure.
A vida tem me mostrado que quem segura esse alguém também precisa ser sustentado. E talvez seja aí, entre o colo e o mundo, que se joga o futuro de todos nós.

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