Quando eu me torno aquilo que me feriu: pensando a identificação com o agressor em Anna Freud
Há ideias
que não chegam como conceitos, chegam como incômodo. A identificação com o
agressor, tal como formulada por Anna Freud, foi uma dessas para mim. Eu não a
encontrei apenas nos livros; eu a reconheci nos gestos, nas falas e, com algum
desconforto, em mim mesmo.
Anna
Freud descreve esse mecanismo de defesa como uma forma de o sujeito lidar com o
medo e a ameaça: ao invés de permanecer na posição de vulnerável, ele se
identifica com quem o ameaça, incorporando seus traços, seus modos, sua força.
É como se dissesse, sem palavras: “se eu me tornar como ele, talvez eu não
precise mais temê-lo.”
À
primeira vista, isso pode soar como uma estratégia engenhosa. E, de certo modo,
é. Há algo de profundamente humano nessa tentativa de escapar da posição de
fragilidade. Mas o que me inquieta, e me faz escrever, é o preço dessa
operação.
Porque,
ao me identificar com o agressor, eu não apenas me protejo. Eu também internalizo
a violência.
Eu penso
em quantas vezes, na clínica e fora dela, encontrei esse movimento. Um paciente
que sofreu humilhações constantes na infância e que, na vida adulta, se torna
extremamente crítico, duro, quase cruel consigo e com os outros. Uma criança
que apanhava e passa a bater. Um jovem que sofreu exclusão e, quando ganha
algum poder, passa a excluir.
Não se
trata de uma escolha consciente. Não é uma decisão moral. É um arranjo psíquico
que tenta dar conta do insuportável.
Mas isso
não nos exime de pensar criticamente sobre suas consequências.
Há uma
vinheta clínica ficcional que me atravessa enquanto escrevo:
“Marcos
relata, com um sorriso meio orgulhoso, que não tolera ‘fraqueza’ na equipe que
lidera. Conta que cobra, pressiona, expõe erros. ‘Foi assim que aprendi’, ele
diz. Aos poucos, emerge uma infância marcada por um pai autoritário, que o
ridicularizava diante dos outros. Quando pergunto como ele se sentia naquela
época, ele hesita. ‘Melhor não sentir’, responde.”
O que
vejo ali não é apenas repetição. É uma tentativa de não voltar àquele lugar de
humilhação. Mas, ao evitar a dor, Marcos a perpetua, agora do outro lado.
E é aqui
que minha leitura de Anna Freud ganha um tom mais crítico:
em uma sociedade marcada por hierarquias rígidas e violências estruturais, a
identificação com o agressor deixa de ser apenas um mecanismo individual e
passa a ser quase um modo de funcionamento social.
No
Brasil, isso se manifesta de múltiplas formas. Penso em contextos de trabalho
onde a lógica é “eu sofri, então você também vai sofrer”. Penso em práticas
educativas baseadas na punição e no controle. Penso, inclusive, em discursos
políticos que exaltam a força, a dureza, a eliminação do outro como solução.
Quantas
vezes não vemos pessoas defendendo estruturas que, no fundo, as oprimem?
Quantas vezes o oprimido adere ao discurso do opressor como forma de se sentir
menos vulnerável?
Isso não
é simples alienação. É, muitas vezes, uma tentativa de pertencimento, de
proteção, de não ficar do lado mais frágil da corda.
Mas há um
risco ético que não posso ignorar:
quando a identificação com o agressor se cristaliza, ela contribui para a reprodução
da violência.
E então
me vejo diante de um dilema:
como compreender sem justificar?
Como acolher o sofrimento que deu origem a esse mecanismo sem legitimar seus
efeitos destrutivos?
Na
clínica, isso exige um trabalho delicado. Não se trata de confrontar
diretamente, o que poderia reativar defesas, nem de concordar. Trata-se de
pouco a pouco, reabrir o acesso à posição de vulnerabilidade, aquela que
foi evitada a todo custo. Porque é ali que algo pode se transformar.
Mas isso
não é fácil. Assumir a própria dor, reconhecer-se como alguém que foi ferido,
implica abrir mão de uma certa sensação de controle. E, em um mundo que
valoriza tanto a força e a autonomia, isso pode ser vivido como ameaça.
Eu mesmo
me pego, às vezes, endurecendo, respondendo de forma mais rígida do que
gostaria, reproduzindo pequenas violências cotidianas. E, quando consigo me dar
conta, a pergunta que me faço não é acusatória, mas investigativa:
de onde
vem esse gesto?
o que ele está tentando evitar?
Essa
mudança de posição, de julgamento para curiosidade, tem sido, para mim, uma
forma de não me aprisionar nesse circuito.
Anna
Freud me ajuda a entender o mecanismo. Mas a vida, e a realidade social que me
cerca, me obriga a ir além: a pensar nas condições que favorecem sua repetição
e nas possibilidades de interrompê-la.
Se eu
pudesse apontar um caminho, ainda que provisório, ele passaria por dois
movimentos simultâneos:
No nível subjetivo, criar espaços (clínicos,
educativos, culturais) onde a vulnerabilidade não seja imediatamente punida,
onde o sujeito possa reconhecer sua dor sem precisar se armar com a violência
do outro.
No nível social, questionar e transformar
estruturas que naturalizam a agressão como forma de relação, seja na família,
na escola, no trabalho ou na política.
Porque,
no fim das contas, a identificação com o agressor é também um sintoma de um
mundo que oferece poucas alternativas para lidar com a dor.
E eu não
quero, nem na clínica, nem na vida, continuar acreditando que a única saída
para quem foi ferido é aprender a ferir melhor.
Prefiro
apostar, ainda que com todas as dificuldades, na possibilidade de interromper
esse ciclo. Mesmo que isso comece com algo aparentemente pequeno: reconhecer,
em mim e no outro, que por trás de certos gestos duros há, quase sempre, uma
história que ainda não pôde ser sentida.
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