Entre o silêncio e o que transborda: o que a poesia de Maíra Valério me faz sentir

 

Ler Maíra Valério não é uma experiência confortável. E eu digo isso no melhor sentido possível. Não é o tipo de poesia que me deixa admirando a forma à distância, é o tipo que me puxa para dentro, que me coloca diante de algo que eu, muitas vezes, prefiro não nomear. Há, na escrita dela, uma delicadeza que não suaviza a dor. Pelo contrário: ela a torna mais nítida.

A linguagem do que não grita

O que mais me chama atenção na poesia de Maíra é o modo como ela trabalha o silêncio. Não é ausência de palavra. É presença densa, quase física.

São versos curtos, imagens simples, cenas cotidianas, e, ainda assim, tudo parece carregado de um peso que não é explícito, mas é sentido. Como se cada palavra viesse de um lugar onde já não é possível fingir.

Eu leio e sinto que ela não está tentando impressionar.
Ela está tentando dizer.

E isso, hoje, é raro.

Vivemos uma época de excesso, de palavras, de imagens, de opiniões, e, nesse contexto, a poesia de Maíra opera por redução. Ela tira o excesso até que reste apenas o essencial: o afeto cru, a experiência vivida, o incômodo que não cabe em explicação.

O corpo como território

Há algo profundamente corporal na escrita dela. Mesmo quando não fala diretamente do corpo, ele está ali, nas tensões, nos cansaços, nos pequenos gestos.

Isso me aproxima imediatamente de uma leitura psicanalítica.

Porque o que não é simbolizado retorna no corpo.
E a poesia, nesse caso, parece funcionar como uma tentativa de dar forma ao que insiste.

Não é uma poesia de grandes narrativas. É uma poesia de fragmentos, de cenas internas, de microacontecimentos emocionais que, somados, constroem uma espécie de mapa da subjetividade contemporânea.

E esse mapa não é bonito no sentido convencional.
Mas é verdadeiro.

O cotidiano como ferida

Outro aspecto que me atravessa é a forma como o cotidiano aparece na poesia dela. Não como cenário neutro, mas como lugar onde algo sempre escapa, sempre falta.

Um café frio, uma mensagem que não chega, um corpo cansado, são imagens simples, mas que carregam uma dimensão afetiva profunda.

Isso me faz pensar no quanto nossa vida cotidiana é atravessada por pequenas frustrações, por ausências mínimas que, acumuladas, produzem um mal-estar difuso.

Maíra não dramatiza isso.
Ela expõe.

E, ao expor, cria identificação.

A recusa do espetáculo

Há também uma recusa evidente do espetáculo na escrita dela. Nada é grandioso demais. Nada é exagerado. Não há necessidade de provar intensidade.

E isso, para mim, é quase um gesto político.

Em um mundo onde tudo precisa ser performado, inclusive a dor, escrever de forma contida, honesta, sem ornamento excessivo, é uma forma de resistência.

É como se ela dissesse:
“isso basta”.

E basta mesmo.

Entre a fragilidade e a resistência

Se há algo que atravessa a poesia de Maíra Valério é a coexistência entre fragilidade e resistência. Não há negação da dor, mas também não há rendição total a ela.

Existe um movimento contínuo de permanecer.

Mesmo cansada.
Mesmo incompleta.
Mesmo atravessada.

E talvez seja isso que mais me toque: a poesia dela não promete cura. Ela não oferece soluções. Mas ela sustenta a experiência.

E, às vezes, sustentar já é muito.

O que fica em mim

Depois de ler Maíra, eu não saio com respostas. Saio com sensações.

Com uma espécie de silêncio que não é vazio, mas cheio de ecos.
Com a percepção de que há coisas em mim que ainda não foram ditas, e que talvez nunca sejam completamente.

Mas que podem, ao menos, ser sentidas.

E, nesse sentido, a poesia dela cumpre uma função essencial:
ela nos lembra que sentir ainda é possível, mesmo em um mundo que insiste em nos anestesiar.

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