Entre a FOMO e a fome: quando o algoritmo mastiga o humano
Eu li o
texto da Revista Outras Palavras sobre as big techs e saí com a sensação
incômoda de que estamos sendo devorados lentamente, não de uma vez, como nos
filmes distópicos, mas em pequenas mordidas diárias, quase imperceptíveis.
Entre a FOMO (o medo de ficar de fora) e a fome concreta de milhões, as Big
Techs parecem ter encontrado o ponto exato onde o desejo humano pode ser capturado,
monetizado e reciclado como mercadoria.
O que
mais me atravessa é perceber que não se trata apenas de tecnologia. Trata-se de
poder. E, mais profundamente, de um poder que opera sobre a subjetividade.
Eu, como
alguém que transita entre a psicologia, a psicanálise e as ciências sociais,
não consigo deixar de ler esse cenário como uma nova forma de colonização, não
mais de territórios físicos, mas de atenção, desejo e tempo psíquico. A FOMO,
nesse sentido, não é apenas um fenômeno cultural: ela é produzida. Ela é
fabricada como estratégia de captura.
As
plataformas não querem apenas que eu esteja presente. Elas querem que eu
permaneça inquieto. Porque um sujeito satisfeito consome menos
A economia da ansiedade
Percebo
que a lógica das Big Techs não é simplesmente oferecer serviços, é criar
dependência. E isso se faz, sobretudo, pela exploração de vulnerabilidades
humanas básicas: pertencimento, reconhecimento, medo da exclusão.
A FOMO é,
em essência, uma ansiedade social organizada tecnicamente.
Na
clínica (mesmo que em vinhetas ficcionais), isso aparece de forma muito
concreta. Penso em “Rafael”, 22 anos, que chega dizendo que não consegue
estudar mais de 10 minutos sem pegar o celular. Ele não sabe exatamente o que
procura, apenas sente que pode estar perdendo algo. Não é curiosidade. É
angústia.
Ou
“Camila”, 19, que relata sentir-se “atrasada na vida” ao comparar sua rotina
com recortes editados de outras pessoas nas redes. O sofrimento não vem da
realidade, mas da comparação incessante com uma realidade filtrada.
O
algoritmo, nesse sentido, não apenas mostra o mundo, ele reorganiza o mundo
psíquico.
Enquanto isso, a fome segue sendo real
Mas o
texto acerta ainda mais quando tensiona essa realidade com a fome literal.
Porque há algo profundamente perverso nessa coexistência: nunca tivemos tanta
tecnologia, e nunca foi tão evidente a desigualdade estrutural.
Enquanto
uma parcela da população vive imersa na ansiedade digital, outra luta pela
sobrevivência básica.
E o mais
inquietante: essas duas realidades não são separadas, elas são produzidas pelo
mesmo sistema.
O mesmo
capitalismo que cria a FOMO é o que produz a fome.
Um
sistema que precisa, ao mesmo tempo:
de consumidores insatisfeitos
e de trabalhadores precarizados
No
Brasil, isso se expressa de forma brutal. De um lado, jovens conectados,
hiperestimulados, exaustos. De outro, milhões em insegurança alimentar. E, no
meio disso, plataformas lucrando com dados, atenção e precarização do trabalho
(vide entregadores, motoristas de app, freelancers digitais).
O que está em jogo: soberania e subjetividade
Não é
exagero dizer que estamos diante de uma disputa civilizatória.
As Big
Techs não são neutras. Elas operam como infraestruturas privadas de poder
global. E países como o Brasil ocupam, muitas vezes, um lugar periférico:
consumidores de tecnologia, exportadores de dados, importadores de dependência.
Isso me
faz lembrar debates sobre soberania tecnológica. Quem controla os dados
controla narrativas, comportamentos e até processos políticos.
E aqui há
um ponto crucial: não se trata apenas de regular empresas. Trata-se de disputar
o modelo de sociedade.
Propostas: o que fazer diante disso?
Eu não
consigo ficar apenas na crítica. Há urgência em pensar saídas, mesmo que
parciais.
1.
Educação digital crítica (desde a base)
Não basta ensinar a usar tecnologia. É preciso ensinar a compreendê-la. Quem
programa o algoritmo? Com quais interesses? Como ele afeta meu comportamento?
Isso
deveria estar nas escolas, nas universidades e também nos espaços comunitários.
2.
Regulação democrática das plataformas
O Brasil precisa avançar em marcos regulatórios que:
limitem práticas predatórias de
design (como mecanismos viciantes)
garantam transparência
algorítmica
protejam dados como direito
coletivo, não apenas individual
3.
Soberania tecnológica
Investimento em tecnologia nacional, infraestrutura de dados e inteligência
artificial própria. Não como isolamento, mas como autonomia estratégica.
4.
Economia do cuidado e do tempo
Precisamos revalorizar o tempo humano fora da lógica produtivista. Isso passa
por debates como:
redução da jornada de trabalho
direito à desconexão
políticas públicas de saúde
mental
5.
Reconstrução do vínculo social fora das plataformas
Espaços culturais, comunitários, coletivos. Lugares onde o encontro não seja
mediado por algoritmo. Porque o oposto da FOMO não é apenas “desconectar”. É pertencer
de verdade.
Entre devorar e resistir
Saio
dessa reflexão com uma pergunta que não me abandona: até que ponto estamos
sendo consumidos por um sistema que nos ensinou a consumir? Mas também com
uma convicção: ainda há fissuras. Toda tecnologia carrega possibilidades
contraditórias. O mesmo instrumento que aliena pode ser usado para organizar,
mobilizar e conscientizar. A questão não é abandonar a tecnologia, é disputar
seu sentido. E isso exige algo que o algoritmo não consegue produzir sozinho: consciência
crítica, ação coletiva e coragem política.
Sugestões de leitura
Para
aprofundar essas questões, recomendo:
Shoshana Zuboff – A Era do
Capitalismo de Vigilância
Byung-Chul Han – No Enxame
e A Sociedade do Cansaço
Evgeny Morozov – Big Tech: A
Ascensão dos Dados e a Morte da Política
Nick Srnicek – Capitalismo de
Plataforma
Mariana Mazzucato – Missão
Economia
Mark Fisher – Realismo
Capitalista
Manuel Castells – A Sociedade
em Rede
E, no
contexto brasileiro:
Textos do próprio Outras
Palavras (Tecnologia em Disputa)
Debates sobre soberania digital e
Sul Global
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