A Tragédia Doméstica do Café Frio

 

Confesso, sem o menor pudor, que há tragédias que não se anunciam com trovões, nem com cartas dramáticas, nem sequer com lágrimas antecipadas. Elas chegam assim, discretas, quase educadas, como visitas que pedem licença para desorganizar a vida alheia.

Foi numa terça-feira.

Eu, já de espírito resignado e chinelos filosóficos, dirigia-me à cozinha com a única ambição que ainda sustenta certas almas urbanas: um café quente. Nada mais. Não aspirava à glória, nem à fortuna, apenas à dignidade térmica de uma xícara fumegante.

Mas eis que, ao tocar o bule, senti o primeiro sinal da desordem universal: estava frio.

Frio.

Não morno, o que ainda permitiria negociação. Frio, como certas respostas, como certos afetos, como certas promessas feitas em domingo e esquecidas na segunda.

Chamei, com a solenidade de quem convoca testemunhas:

 Quem foi o responsável por este desastre?

Da sala, respondeu meu marido, com a serenidade irritante dos que ignoram o peso das pequenas catástrofes:

 Deve ter esfriado sozinho.

Sozinho!

Ah, essa crença moderna de que as coisas acontecem por conta própria… como se o café tivesse decidido, por livre arbítrio, abandonar sua vocação de calor e abraçar a frieza existencial.

Olhei para ele com a gravidade que se reserva aos grandes momentos:

 O café não esfria sozinho. Ele é abandonado.

Houve um silêncio. Não desses profundos, cheios de significado, mas daqueles vazios, onde a outra pessoa claramente preferiria estar em qualquer outro lugar, inclusive discutindo filosofia com um poste.

Resolvi agir. Reaqueci o café. Mas já não era o mesmo.

Há algo de profundamente trágico no café reaquecido. Ele cumpre sua função, sim, mas sem entusiasmo, sem alma. É um café que vive de lembranças, e, convenhamos, ninguém aprecia uma bebida nostálgica às sete da manhã.

Sentei-me, então, diante da xícara, refletindo sobre o ocorrido. E percebi, com uma clareza quase cruel, que o problema nunca foi o café.

Era o descuido.

Porque o café frio é apenas o sintoma visível de uma doença mais ampla: a negligência cotidiana. Aquela que não grita, não explode, mas vai, pouco a pouco, retirando o calor das coisas.

 Você está fazendo drama, disse meu marido, já de volta ao jornal, território onde as tragédias são sempre dos outros.

Talvez estivesse.

Mas há dramas que precisam ser feitos, nem que seja para lembrar ao mundo que o calor, do café, das palavras, dos gestos, não se conserva sozinho.

Terminei a xícara, com a dignidade possível, e levantei-me com uma decisão silenciosa: no dia seguinte, faria o café e o beberia imediatamente, antes que o universo, com sua vocação para o descuido, tentasse novamente esfriá-lo.

Porque, no fundo, aprendi algo essencial naquela terça-feira:

Há batalhas que parecem pequenas, mas que, se negligenciadas, nos transformam em pessoas que aceitam café frio.

E disso, francamente, eu ainda não estava disposta a participar.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O elétron é a Matrix da realidade? Uma pergunta entre a física, o mito e o desejo de sentido

Saudade que Amanhece

A viagem proibida: quando o corpo feminino se torna território vigiado