Mentalizar para não naufragar: o que aprendi com Peter Fonagy sobre vínculo, trauma e a construção do eu
Há um
ponto em que a teoria deixa de ser apenas um conjunto de conceitos e passa a
funcionar como uma lente ética para olhar o mundo. Com Peter Fonagy, essa
passagem foi inevitável para mim. Não porque ele ofereça respostas fáceis, ao contrário, mas porque ele nos obriga a
encarar algo desconfortável: o sujeito não nasce pronto, ele se constrói na
relação. E, mais do que isso, se constrói na qualidade dessa relação.
A ideia
de mentalização talvez seja o eixo mais potente do pensamento de Fonagy.
Em termos simples, trata-se da capacidade de compreender a si mesmo e ao outro
como portadores de estados mentais, desejos, crenças, emoções, intenções.
Parece óbvio, quase trivial. Mas não é. Mentalizar não é apenas “pensar sobre
sentimentos”; é sustentar a complexidade da experiência psíquica sem reduzi-la
a impulsos imediatos ou certezas rígidas. E aqui começa o incômodo: o que
acontece quando essa capacidade falha?
Fonagy,
articulando psicanálise e teoria do apego, mostra que a mentalização não surge
no vazio. Ela é construída, sobretudo, nas primeiras relações, especialmente
com cuidadores que conseguem refletir, de forma suficientemente adequada, os
estados internos da criança. Não se trata de perfeição, mas de uma sintonia
mínima: alguém que consiga dizer, implicitamente, “eu vejo você, eu sinto algo
do que você sente, e isso pode ser pensado”.
Quando
isso acontece, algo se organiza. A criança começa a reconhecer que há um mundo
interno, próprio e do outro, que pode ser nomeado, elaborado, transformado. Mas
quando isso não acontece, o cenário muda radicalmente.
Tenho
encontrado, na clínica (e aqui me permito ficcionalizar para preservar
sujeitos), pessoas que vivem em regimes psíquicos marcados por falhas de
mentalização. Não se trata apenas de sofrimento, mas de uma dificuldade
estrutural em compreender o que se passa dentro de si e nos outros. Emoções
aparecem como invasões. O outro é percebido como ameaça ou abandono iminente.
Pequenos gestos ganham proporções catastróficas.
Fonagy
descreve, por exemplo, modos pré-mentalizantes como o equivalente psíquico
(onde o que penso é tomado como realidade absoluta), o modo teleológico
(onde só o que é concreto e visível conta) e o modo “faz de conta” (onde
o mundo interno se dissocia da realidade). Esses modos não são patológicos em
si, todos transitamos por eles, mas tornam-se problemáticos quando se tornam
dominantes. E então percebo o quanto essa teoria ultrapassa o consultório.
Vivemos,
hoje, em uma cultura que frequentemente fragiliza a mentalização. Redes sociais
que amplificam certezas, discursos polarizados que reduzem o outro a
caricaturas, dinâmicas de consumo que estimulam respostas imediatas. Tudo isso
favorece modos de funcionamento mais primitivos, menos reflexivos. É como se
estivéssemos, coletivamente, desaprendendo a pensar o outro como sujeito.
E isso
tem consequências profundas: na política, nas relações afetivas, na violência
cotidiana. Quando não conseguimos mentalizar, o outro deixa de ser alguém com
uma história e passa a ser um obstáculo, um inimigo, um objeto.
Fonagy
também me fez repensar o conceito de self. Diferente de abordagens que
tratam o eu como algo interno e estável, ele propõe uma visão relacional: o
self emerge da capacidade de ser pensado pelo outro. É quase como se, antes de
nos reconhecermos, precisássemos ser reconhecidos.
Isso me
remete diretamente à ideia de Winnicott sobre o espelhamento materno, mas
Fonagy radicaliza essa intuição ao articulá-la com evidências empíricas e com a
noção de apego seguro. O self, então, não é apenas uma construção interna, é um
efeito de relação. E aqui, novamente, surge uma dimensão ética.
Se o self
se constrói na relação, então a responsabilidade pelo sofrimento psíquico não
pode ser individualizada de forma simplista. Isso não significa negar a
responsabilidade pessoal, mas reconhecer que há contextos que favorecem ou
dificultam a construção de sujeitos capazes de mentalizar.
Penso,
por exemplo, em contextos de violência, negligência, instabilidade afetiva. Em
tais cenários, exigir que alguém “tenha autocontrole” ou “pense melhor antes de
agir” pode ser, no mínimo, ingênuo. Não se trata apenas de vontade, mas de
capacidade. e capacidade se constrói.
Fonagy
não propõe uma teoria pessimista. Ao contrário, há algo profundamente
esperançoso em sua obra: a ideia de que a mentalização pode ser desenvolvida,
inclusive na vida adulta. A clínica, nesse sentido, torna-se um espaço
privilegiado, onde o terapeuta funciona como um outro que sustenta, nomeia,
devolve, ajuda a pensar. Mas isso exige uma postura específica.
O clínico
não é aquele que interpreta de forma autoritária, mas aquele que mantém uma
posição de curiosidade, de não saber, de abertura. É alguém que ajuda o
paciente a pensar, não alguém que pensa por ele.
Essa é,
talvez, uma das contribuições mais sofisticadas de Fonagy: deslocar o foco da
interpretação para a função reflexiva compartilhada
Hoje, ao pensar sua obra,
não consigo vê-la apenas como uma teoria clínica. Ela é, também, uma crítica à
forma como estamos organizando nossas relações, cada vez mais rápidas,
superficiais, pouco tolerantes à ambiguidade.
Significa
resistir à tentação de reduzir o outro a rótulos. Significa sustentar a dúvida.
Significa reconhecer que há sempre algo do outro que escapa, e que isso não
precisa ser eliminado, mas acolhido como parte da condição humana.
Se há
algo que levo de Fonagy, não é uma técnica, mas uma atitude: a de continuar
tentando compreender, mesmo quando tudo empurra para o julgamento imediato.
Porque,
no fim, talvez seja isso que nos mantém humanos, a capacidade de pensar sobre o
que sentimos, e de reconhecer que o outro também sente, pensa e existe para
além das nossas projeções.
Indicações
de leitura
FONAGY, Peter et al. – Affect
Regulation, Mentalization and the Development of the Self
FONAGY, Peter; TARGET, Mary – Psicanálise
e teoria do apego
BATEMAN, Anthony; FONAGY, Peter –
Mentalization-Based Treatment for Borderline Personality Disorder
WINNICOTT, D. W. – O ambiente
e os processos de maturação
BION, W. R. – Aprender com a
experiência
BOWLBY, John – Apego e perda
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