Entre o corpo interditado e o desejo silenciado: uma travessia pessoal sobre religião, subjetividade e liberdade

 

Cresci observando uma tensão que raramente é nomeada com honestidade: a dificuldade de habitar o próprio corpo quando se foi educado sob um regime moral rígido, especialmente em contextos religiosos cristãos mais normativos. Não falo aqui da fé em si, nem da experiência espiritual, que pode ser profundamente humana e transformadora, mas de algo mais específico: a construção de um corpo vigiado, culpabilizado e, muitas vezes, amputado de sua potência.

Ao longo da minha formação em Psicanálise e como graduando em Psicologia e da escuta clínica (aqui também atravessada por experiências ficcionalizadas9algumas fictícias, outras não) para preservar sujeitos) e também da observação de amigos(a) que tiveram uma formação de infância e adolescência muito engajado em uma igreja, comecei a perceber um padrão recorrente: pessoas que “sabem” cantar, mas não conseguem cantar em público; que “gostariam” de dançar, mas travam; que desejam amar, mas se culpam ao desejar. Não se trata de falta de habilidade, mas de uma espécie de bloqueio incorporado, um interdito que não está apenas na mente, mas inscrito no corpo.

Na linguagem psicanalítica, poderíamos falar de um supereu severo, que não apenas proíbe, mas goza na proibição, como diria Lacan. Um supereu que não diz apenas “não faça”, mas também “você deveria não desejar”. E quando o desejo insiste, porque ele sempre insiste, ele retorna sob a forma de culpa, vergonha ou sintoma.

Lembro de um jovem (vinheta ficcional, mas construída a partir de múltiplas experiências) que me disse: “Eu sinto que estou sempre sendo observado, mesmo quando estou sozinho.” Esse “olhar” não era real, mas absolutamente eficaz. Era o olhar internalizado de uma moral que não precisa mais da igreja física para operar, ela já habita o sujeito. Foucault talvez chamasse isso de uma tecnologia de poder que se desloca da instituição para o interior da subjetividade.

Mas há também uma dimensão antropológica que não pode ser ignorada. O corpo, em diferentes culturas, ocupa lugares distintos. Em muitas tradições ocidentais cristãs, especialmente sob forte influência de leituras ascéticas, o corpo foi historicamente associado ao pecado, à queda, ao descontrole. Já em outras cosmologias, indígenas, africanas, orientais, o corpo aparece como território de conexão, de saber, de espiritualidade. Não é apenas uma diferença de prática, mas de ontologia.

Então me pergunto: o que acontece quando uma cultura produz sujeitos que aprendem, desde cedo, a desconfiar do próprio corpo?

A resposta, ao que me parece, é dura: produz-se uma cisão. De um lado, um eu que tenta ser moralmente aceitável; de outro, um corpo que insiste em viver. Essa cisão não é sem custo. Ela aparece na ansiedade, na dificuldade de intimidade, na vergonha do prazer, na incapacidade de se expressar artisticamente, na sexualidade vivida com culpa ou evitada.

Byung-Chul Han fala de uma sociedade do desempenho, mas antes disso, ou talvez junto disso, vivemos também uma sociedade da contenção moral seletiva. Porque, curiosamente, nem todos os prazeres são proibidos: o consumo é incentivado, o corpo como mercadoria é exaltado, mas o corpo como experiência viva e singular segue sendo regulado. Há algo de profundamente contraditório nisso.

E aqui entra a filosofia como campo de resistência. Spinoza já nos dizia que o corpo não é o oposto da alma, mas sua expressão. Nietzsche, por sua vez, afirmava que há mais razão no corpo do que em toda a nossa filosofia consciente. Ou seja, talvez o problema não seja o corpo, mas as narrativas que construímos sobre ele.

Não se trata, para mim, de fazer uma crítica simplista à religião, até porque ela também pode ser espaço de acolhimento, sentido e comunidade. A questão é outra: que tipo de subjetividade está sendo produzida? Uma subjetividade capaz de integrar fé e corpo? Ou uma subjetividade que precisa mutilar partes de si para pertencer?

Penso que o desafio ético e clínico do nosso tempo é justamente esse: promover reconciliações.

Na clínica, isso aparece de forma muito concreta. Pequenos gestos: alguém que consegue, pela primeira vez, dançar sem se julgar; alguém que fala sobre seu desejo sem pedir desculpas; alguém que percebe que sentir prazer não a torna menos digna. São movimentos discretos, mas profundamente políticos.

Porque recuperar o corpo é, em alguma medida, recuperar a autonomia. Do ponto de vista propositivo, acredito que precisamos de três deslocamentos fundamentais:

1. Educação emocional e corporal desde cedo
Que não trate o corpo apenas como biologia ou risco, mas como linguagem, expressão e cuidado. Isso inclui falar de sexualidade sem moralismo, mas com responsabilidade e ética.

2. Revisão crítica das práticas religiosas
Não para destruí-las, mas para tensioná-las. Há teologias contemporâneas, inclusive dentro do cristianismo , que propõem uma espiritualidade encarnada, que não nega o corpo, mas o integra.

3. Espaços de elaboração clínica e cultural
A arte, a dança, a biodança, as danças circulares,  a dança de salão, a música, a terapia, tudo isso pode funcionar como dispositivos de reapropriação do corpo. Winnicott falaria do brincar como espaço potencial onde o self pode emergir.

Hoje, ao observar esses processos, seja na escuta clínica, seja na vida social, torna-se evidente que essa dinâmica não é episódica, mas estrutural. O julgamento internalizado, a hesitação do corpo e a retração do desejo não são falhas individuais, mas efeitos de uma forma histórica de produzir subjetividade. Ainda assim, há fissuras.

São momentos em que sujeitos conseguem, mesmo que de forma hesitante, experimentar o corpo para além da culpa; quando o gesto deixa de ser vigiado e passa a ser vivido; quando o desejo não precisa mais pedir autorização para existir. Essas experiências, embora discretas, indicam que o processo não é irreversível.

Talvez seja nesse ponto que possamos situar uma noção mais concreta de liberdade: não como ausência de normas ou pertencimentos, mas como a possibilidade real de integrar corpo, desejo e sentido sem que isso implique culpa ou fragmentação psíquica.

A questão que permanece, então, não é se a religião deve ou não existir, mas que tipo de relação com o corpo e com o desejo ela está produzindo, e se estamos dispostos, enquanto sociedade, a sustentar formas de vida que não exijam a negação de si como condição para pertencer.Parte superior do formulárioParte inferior do formulário

 

Indicações de leitura

FOUCAULT, Michel – História da Sexualidade

NIETZSCHE, Friedrich – Assim Falou Zaratustra / Genealogia da Moral

SPINOZA, Baruch – Ética

WINNICOTT, D. W. – O brincar e a realidade

REICH, Wilhelm – A função do orgasmo

BYUNG-CHUL HAN – A sociedade do cansaço

BOFF, Leonardo – Espiritualidade: um caminho de transformação

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo – Metafísicas Canibais

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