O despacho do papagaio municipal

 

Contam, e eu apenas transmito, como bom colecionador de histórias, que na Fortaleza de um tempo não muito distante, quando os ventiladores de teto ainda eram tratados como autoridades superiores e o café requentado era patrimônio cultural, houve na Secretaria de Assuntos Urgentíssimos um episódio digno de registro.

Era secretário o ilustríssimo doutor Anselmo de Albuquerque, homem de bigodes respeitáveis e convicções ainda maiores. Tinha o hábito de carimbar tudo com uma solenidade quase litúrgica, como se cada documento fosse uma bula papal. Seu lema, bordado num quadro torto atrás da mesa, dizia: “Quem carimba governa.”

Pois bem.

Entre os servidores daquela repartição havia um certo seu Evaristo, contínuo por vocação e filósofo por insistência. E havia também um papagaio. Sim, leitor paciente, um papagaio.

O animal pertencera a um antigo diretor que, ao aposentar-se, esqueceu-se, ou fingiu esquecer-se, de levá-lo. E como tudo que entra numa repartição tende a tornar-se permanente, o papagaio ficou. Chamava-se Tibério e aprendera, com rara competência, três frases essenciais à burocracia:

“Falta documento!”

“Volte amanhã!”

“Indeferido!”

Dizem que não havia criatura mais eficiente.

Certo dia, chegou à Secretaria um cidadão aflito, desses que acreditam que o Estado existe para resolver problemas, ingenuidade que a vida costuma corrigir. Chamava-se Januário e trazia consigo um requerimento para regularizar a situação de sua barraca de caldo de cana.

 Bom dia, vim protocolar isto aqui, disse, com esperança.

Seu Evaristo olhou o papel, coçou o queixo e respondeu:

 Falta o formulário 27-B, em três vias, com firma reconhecida e bênção do padroeiro local.

 Mas ninguém me falou disso!

Nesse exato momento, do alto de uma estante, ouviu-se a voz firme de Tibério:

 FALTA DOCUMENTO!

Januário olhou para o papagaio, depois para Evaristo, depois novamente para o papagaio, como quem suspeita estar sendo alvo de uma conspiração ornitológica.

 O senhor está de brincadeira?

Aqui não se brinca, meu amigo, respondeu Evaristo com gravidade.  Inclusive, o papagaio é concursado.

O homem saiu, atordoado.

No dia seguinte, voltou com os tais documentos. Ou assim pensava. Entregou tudo, orgulhoso.

Eis que Tibério, zeloso como sempre, proclamou:

 INDEFERIDO!

 Mas por quê?!

Seu Evaristo examinou os papéis com ar técnico:

 Faltou o carimbo de autenticação do cartório.

Mas tem assinatura!

 Assinatura sem carimbo é como feijoada sem farofa: não sustenta.

O caso poderia ter terminado aí, não fosse o destino. esse dramaturgo de humor duvidoso.

O doutor Anselmo, em visita de inspeção à própria sala, decidiu modernizar a repartição. Mandou instalar um sistema de triagem automatizado, desses que prometem eficiência e entregam filosofia.

 Vamos acabar com o atraso!  declarou, batendo na mesa.  Nada de decisões arbitrárias!

Para tanto, decidiu que o primeiro teste do sistema seria feito com um requerimento qualquer. Por ironia cósmica, caiu-lhe às mãos o processo de Januário.

 Vamos ver, disse, digitando solenemente.

Antes que o sistema respondesse, Tibério, sentindo-se ameaçado em sua função, antecipou-se com autoridade:

 VOLTE AMANHÃ!

O doutor Anselmo, irritado com a insubordinação da ave, levantou-se:

 Este papagaio está atrapalhando a modernização!

Mas, ao tentar retirar o animal, escorregou numa pilha de processos antigos, que, como todos sabem, têm vida própria, e caiu de maneira pouco digna.

O sistema, por sua vez, travou. A tela exibiu a mensagem:

“Erro: ausência de parâmetro essencial.”

Seu Evaristo, com a calma dos sábios, comentou:

 Está vendo, doutor? Até a máquina já aprendeu com o papagaio.

No meio da confusão, Januário apareceu novamente, já resignado:

 Vim saber se meu pedido foi aprovado.

Silêncio.

Todos olharam para o papagaio.

Tibério, percebendo a responsabilidade histórica do momento, pigarreou e disse, com solenidade inédita:

APROVADO.

Houve um espanto geral.

 Mas isso não está no repertório dele!  exclamou Evaristo.

O doutor Anselmo, ainda no chão, levantou-se lentamente e declarou: Se o papagaio aprovou, está aprovado. Afinal, aqui seguimos critérios técnicos.

E assim, leitor amigo, foi regularizada a barraca de caldo de cana de Januário, não por força de lei, nem por eficiência administrativa, mas por uma súbita inspiração de um papagaio.

Dizem que, desde então, Tibério ganhou uma placa na repartição:

“Analista Sênior de Processos Decisórios.”

E quanto ao sistema automatizado?

Bem… esse continua em fase de implantação.

Moral (que não faço questão de garantir):
Entre homens, máquinas e papagaios, o que decide mesmo é o costume.

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