1º de Maio: entre o cansaço e a coragem, por que precisamos ocupar as ruas
Eu tenho pensado muito sobre o que significa, hoje, sair de casa para ir às
ruas no Dia do Trabalhador. Não é apenas um gesto simbólico, como muitos tentam
reduzir. Também não é um ritual esvaziado de sentido. Ir às ruas, no Brasil de
hoje, é quase um ato de reexistência, uma forma de dizer que ainda estamos
aqui, apesar do cansaço, da precarização e das tentativas constantes de nos
silenciar.
Há algo de profundamente paradoxal no nosso
tempo. Nunca se trabalhou tanto, nunca se produziu tanta riqueza e, ainda
assim, seguimos exaustos, inseguros e, muitas vezes, sem tempo para viver. A
promessa de progresso parece ter se convertido em uma máquina de captura da
vida.
É nesse contexto que a proposta de redução da
jornada de trabalho, como a escala 4x3, deixa de ser uma utopia distante e
passa a ser uma necessidade concreta. Não se trata apenas de “trabalhar menos”,
como alguns discursos apressados tentam caricaturar. Trata-se de redistribuir o
tempo, esse bem tão fundamental quanto invisível, e reconhecer que viver não
pode ser um intervalo entre jornadas.
Do ponto de vista da psicologia, o que vemos
hoje é um adoecimento coletivo. Ansiedade, burnout, depressão, sensação crônica
de insuficiência. Como sustentar uma subjetividade saudável em um mundo que
exige produtividade contínua e oferece, em troca, instabilidade e medo? Reduzir
a jornada é também uma política de saúde mental.
Mas essa luta não está isolada. Ela se conecta
com algo maior: a disputa pelo projeto de sociedade que queremos.
Tenho observado, com preocupação, o avanço de
propostas que colocam em risco conquistas históricas. Quando se fala em reduzir
investimentos em cultura, educação, saúde pública, seguridade social e ciência,
não estamos diante de ajustes técnicos. Estamos diante de escolhas políticas
que impactam diretamente a vida concreta das pessoas, especialmente das mais
vulneráveis.
A cultura, por exemplo, não é um luxo. É
aquilo que permite a uma sociedade se reconhecer, elaborar suas dores e
imaginar futuros. O que vi recentemente em espaços como o Dragão do Mar, com
jovens da periferia produzindo arte potente, é a prova de que investir em
cultura é investir em vida. Cortar isso é amputar possibilidades.
O mesmo vale para a educação e a ciência. Um
país que abre mão de pensar a si mesmo, de produzir conhecimento, de formar
criticamente sua população, não está se desenvolvendo, está se submetendo. E
essa submissão, muitas vezes, não é apenas interna. Ela se articula com
interesses externos que historicamente enxergam o Brasil não como nação
soberana, mas como território de exploração.
Defender o desenvolvimento científico,
tecnológico e educacional é, portanto, também defender soberania.
E a democracia? Talvez seja ela a mais frágil
de todas essas dimensões. Porque a democracia não se perde apenas com rupturas
explícitas. Ela também se desgasta lentamente, quando o debate público é
empobrecido, quando a desinformação se espalha, quando direitos são
relativizados em nome de soluções fáceis para problemas complexos.
É por isso que, para mim, ir às ruas amanhã
não é sobre um evento específico. É sobre disputar sentidos. É sobre não
naturalizar o retrocesso. É sobre afirmar que direitos não são concessões, são
conquistas.
Mas também não quero cair em uma romantização
da luta. Ir às ruas não resolve tudo. Mobilização sem organização se dissipa.
Indignação sem projeto se perde.
Por isso, penso que esse momento exige mais do
que presença, exige construção. Precisamos avançar em algumas direções
concretas:
Primeiro, fortalecer a organização coletiva. Sindicatos, movimentos sociais,
coletivos culturais e estudantis precisam se reinventar sem perder sua função
histórica. A fragmentação só interessa a quem quer manter as coisas como estão.
Segundo, transformar pautas como a redução da
jornada em agendas políticas concretas, com pressão institucional, produção de
dados, diálogo com a sociedade. A escala 4x3 já é debatida em diversos países,
não estamos falando de algo inviável, mas de algo que exige vontade política.
Terceiro, ampliar a educação política. Não no
sentido partidário estreito, mas no sentido de formar sujeitos capazes de
compreender as estruturas que organizam suas vidas. Sem isso, seguimos reféns
de discursos simplificadores.
Quarto, defender e expandir políticas públicas
que garantam dignidade: saúde, educação, cultura, assistência social. Não como
gastos, mas como investimentos civilizatórios.
Quinto, construir um projeto de
desenvolvimento que não nos coloque em posição subordinada no cenário global.
Isso passa por indústria, ciência, tecnologia, mas também por uma visão de país
que valorize seu povo e seus territórios.
Eu sei que tudo isso pode parecer grande
demais. E talvez seja. Mas a história do 1º de Maio nunca foi feita de pequenas
concessões. Foi feita de enfrentamentos, de perdas, de persistência.
Então, quando penso em amanhã, não penso
apenas em um ato. Penso em um gesto coletivo de recusa, recusa à precarização,
ao autoritarismo, à submissão, ao desmonte.
E penso, sobretudo, em um gesto de afirmação:
de que outro mundo não só é possível, como necessário.
Ir
às ruas, nesse sentido, é menos sobre gritar palavras de ordem e mais sobre não
deixar que nos roubem a capacidade de imaginar, e de construir, um futuro
diferente.
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