Elza em Corpo Vivo: dança, periferia e a insurgência que não se cala
Eu saí do Dragão do Mar com uma sensação difícil de nomear. Não era apenas
emoção, embora ela estivesse ali, pulsante, quase transbordando, mas algo mais
profundo, como se o corpo tivesse compreendido antes da linguagem. Assistir a Elza, dentro da programação “Quinta com
Dança”, na semana dedicada à dança, foi menos um espetáculo e mais um encontro:
com a arte, com a periferia e, sobretudo, com aquilo que insiste em sobreviver
no Brasil.
Desde o início, percebi que não se tratava de
uma homenagem convencional à Elza Soares. Não havia ali uma tentativa de
imitação, de biografia coreografada ou de reverência vazia. O que se via era
uma incorporação, não da figura midiática de Elza, mas da sua força vital.
Aquela mesma força que atravessou fome, racismo, violência doméstica, perdas
irreparáveis e ainda assim se reinventou como grito, como corpo político, como
estética insurgente.
E talvez seja esse o ponto que mais me
atravessou: o espetáculo não fala sobre
Elza, ele fala a partir dela.
Os jovens do Núcleo Criativo de Dança do
Centro Cultural Bom Jardim não estavam apenas dançando; estavam dizendo. E
diziam com o corpo aquilo que muitas vezes não encontra espaço na palavra.
Havia ali uma fisicalidade marcada por tensões, quedas, resistências e
retomadas, como se cada gesto carregasse uma história coletiva. Não eram corpos
neutros. Eram corpos situados: periféricos, racializados, atravessados por uma
cidade que historicamente distribui oportunidades de forma desigual.
E é impossível não pensar no próprio Bom
Jardim nesse contexto. Um território frequentemente reduzido, no discurso
midiático, à violência e à ausência. Mas ali, no palco do Dragão, o que se via
era produção de sentido, elaboração estética, potência criativa. Isso me fez
lembrar algo que, como estudante de Psicologia e também como alguém que pensa a
partir da psicanálise, me inquieta profundamente: o quanto a sociedade insiste
em patologizar sujeitos e territórios sem reconhecer suas formas de simbolização.
A dança, naquele momento, funcionava como uma
espécie de linguagem do indizível. Havia algo de muito bioniano ali, uma
transformação da experiência bruta em algo que pode ser compartilhado, sentido,
elaborado. Aqueles corpos estavam metabolizando violências históricas e
contemporâneas e devolvendo ao público não um espetáculo “bonito” no sentido
superficial, mas uma experiência estética que exigia implicação.
Em alguns momentos, me peguei desconfortável.
E esse desconforto é importante. Porque ele quebra a lógica do consumo passivo
da arte. Não era possível assistir Elza
como quem consome entretenimento. Era preciso se posicionar. Era preciso
reconhecer que há uma política do corpo em cena.
Também me chamou atenção o modo como o
espetáculo tensionava a própria ideia de centro e periferia. O Dragão do Mar,
enquanto equipamento cultural central na cidade, historicamente carrega
disputas sobre acesso, pertencimento e representação. Ver jovens do Bom Jardim
ocupando esse espaço não como convidados ocasionais, mas como produtores
legítimos de cultura, é um gesto que, por si só, já carrega uma dimensão
política.
Mas não romantizo. Porque sei que essas
iniciativas, embora potentes, ainda são insuficientes diante das desigualdades
estruturais. Projetos como o Núcleo Criativo de Dança do CCBJ são fundamentais,
mas também revelam uma contradição: por que a sobrevivência artística desses
jovens depende, tantas vezes, de políticas culturais que são frágeis,
descontínuas e frequentemente subfinanciadas?
Saí do espetáculo com essa inquietação: não
basta celebrar a potência da periferia; é preciso garantir condições materiais
para que ela floresça sem precisar, o tempo todo, provar seu valor.
É aqui que, para mim, o espetáculo transborda o palco e exige propostas
concretas.
Primeiro, é urgente a consolidação de uma
política pública contínua de fomento à dança periférica, com financiamento
estável, plurianual e descentralizado. Não se trata de editais pontuais, mas de
garantir existência. Núcleos como o do Bom Jardim não podem depender da
incerteza orçamentária para continuar formando corpos criadores.
Segundo, penso na necessidade de integrar arte
e educação de forma mais orgânica. Por que experiências como essa não estão de
forma estruturada nas escolas públicas de Fortaleza? A dança, assim como o
teatro, a música e as artes visuais, poderia funcionar como dispositivo de
saúde mental, de elaboração subjetiva e de fortalecimento comunitário,
especialmente em territórios marcados por vulnerabilidades.
Terceiro, é fundamental ampliar a circulação
dessas produções. Quantos bairros da cidade nunca terão acesso a um espetáculo
como Elza? Criar circuitos culturais
periféricos, com apresentações em praças, escolas, equipamentos comunitários, é
também democratizar o direito à arte — não apenas como público, mas como
produtor.
Quarto, defendo a criação de bolsas
permanentes para jovens artistas de periferia, vinculadas à formação e à
criação. Se o Estado consegue financiar tantas outras áreas estratégicas, por
que a arte ainda é tratada como acessório? Investir nesses corpos é investir em
futuro, em prevenção de violências, em produção de sentido.
Quinto, há um ponto que me atravessa como
alguém da psicologia e das ciências sociais: a necessidade de aproximar
políticas culturais e políticas de saúde mental. O que vi em cena foi também
cuidado. Foi elaboração de dor, transformação de sofrimento em linguagem. Por
que não pensar em programas intersetoriais que reconheçam a arte como prática
de cuidado coletivo?
Elza me fez pensar também sobre o corpo como arquivo. Um arquivo
vivo, que guarda memórias que não estão nos livros, mas nos músculos, nas
cicatrizes, nos gestos repetidos e reinventados. A dança, nesse sentido, é
também uma forma de historiografia, uma escrita outra, que desafia as
narrativas oficiais.
E, no fim, talvez seja isso que mais me
marcou: a percepção de que a arte, quando enraizada na experiência concreta das
pessoas, não é apenas expressão, é também resistência, elaboração e
possibilidade de futuro.
Saí
do Dragão do Mar atravessado. E com a sensação de que, naquela noite, Elza não
era apenas lembrada. Ela estava ali,, viva, múltipla, insurgente, nos corpos
que insistem em dançar, mesmo quando o mundo insiste em negar-lhes o palco.
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