O verdadeiro self: uma travessia íntima entre o ser e o sobreviver

 

Há momentos em que me pergunto se aquilo que apresento ao mundo é, de fato, quem eu sou  ou apenas aquilo que aprendi a ser para continuar existindo entre os outros. Essa pergunta, que parece simples, carrega uma inquietação profunda: até que ponto estou vivendo a partir do meu verdadeiro self, e até que ponto estou apenas sustentando um falso self bem adaptado?

Foi em Winnicott que encontrei uma linguagem mais honesta para essa angústia. Ele não trata o verdadeiro self como uma essência romântica, pronta e pura, mas como algo que nasce de condições muito concretas: o cuidado suficientemente bom, o ambiente que acolhe, a possibilidade de existir sem ser invadido. O verdadeiro self não é uma ideia, é uma experiência.

E aqui começa o incômodo: se o verdadeiro self depende de um ambiente facilitador, o que acontece com aqueles que cresceram em ambientes falhos, intrusivos ou indiferentes?

Eu não consigo responder essa pergunta sem me implicar. Porque, olhando para mim, percebo o quanto fui, e ainda sou, atravessado por exigências externas que moldaram minhas formas de existir. A necessidade de agradar, de corresponder, de não frustrar, de ser “funcional”. Aos poucos, vamos nos especializando em sobreviver. E sobreviver, muitas vezes, significa esconder.

O falso self, nesse sentido, não é um inimigo. Ele é uma solução. Uma defesa sofisticada contra o colapso. Ele organiza, adapta, protege. O problema é quando essa solução se torna permanente, quando deixamos de viver e passamos apenas a funcionar.

Vivemos em uma sociedade que reforça violentamente esse funcionamento. O capitalismo contemporâneo, com sua lógica de produtividade, desempenho e visibilidade, não tem interesse no verdadeiro self. Ele exige versões operacionais de nós mesmos. Perfis. Currículos. Avatares sociais. E quanto mais nos afastamos de nossa espontaneidade, mais somos recompensados por parecer adequados. Há algo de profundamente perverso nisso.

Porque o verdadeiro self se manifesta justamente no que não é controlável: no gesto espontâneo, na criatividade, na capacidade de brincar, de amar, de criar sentido. Ele não é eficiente, ele é vivo. E tudo que é vivo escapa à lógica da padronização.

Penso muito nos atendimentos clínicos (ainda que aqui eu preserve o anonimato e me permita ficcionalizar). Lembro de uma paciente que dizia: “Eu faço tudo certo, mas não sinto nada.” Essa frase me atravessou. Não era um caso de desorganização, mas de excesso de organização. Uma vida impecável, porém vazia. Ali, o falso self não falhava, ele funcionava perfeitamente. E justamente por isso, algo do verdadeiro self estava soterrado.

Winnicott nos ensina que o verdadeiro self não desaparece completamente. Ele se oculta, se protege, às vezes se fragmenta, mas permanece como potência. E é na clínica, ou em experiências profundamente humanas, que ele pode voltar a emergir. Mas isso não é simples.

Porque entrar em contato com o verdadeiro self implica, muitas vezes, entrar em contato com a dor. Com aquilo que não pôde ser vivido. Com a raiva, com a falta, com o vazio. Há um risco real nessa travessia: o risco de perceber que passamos anos vivendo uma vida que não era exatamente nossa. Ainda assim, me parece que não há outro caminho ético.

Ser fiel ao verdadeiro self não significa abandonar o mundo, nem rejeitar todas as formas de adaptação. Significa, antes, construir um espaço interno onde seja possível existir sem máscaras absolutas. Onde o gesto não seja sempre calculado. Onde o desejo possa aparecer, mesmo que de forma incerta. E aqui, talvez, a psicanálise encontre sua dimensão mais política.

Porque falar de verdadeiro self, hoje, é também falar de resistência. Resistência a um mundo que captura subjetividades, que transforma afetos em mercadoria, que coloniza o desejo. Ser verdadeiro, nesse contexto, não é uma ingenuidade. é um ato subversivo. Mas eu não romantizo isso.

Ser verdadeiro também implica conflito. Implica não ser compreendido. Implica, às vezes, perder vínculos que só existiam sustentados por versões falsas de nós mesmos. Implica sustentar a própria solidão.

E talvez seja por isso que tantas pessoas escolhem, inconscientemente, permanecer no falso self. Porque ele garante pertencimento, mesmo que custe a própria vitalidade.

Hoje, quando me observo, não digo que alcancei meu verdadeiro self. Isso seria ilusório. Mas percebo pequenos sinais: momentos em que algo em mim não é cálculo, mas presença. Momentos em que não estou performando, mas vivendo. São instantes frágeis, mas profundamente reais.

Talvez o verdadeiro self não seja um estado permanente, mas uma experiência que precisa ser continuamente reconquistada.

E talvez a pergunta não seja “quem eu sou de verdade?”, mas “em que momentos eu me sinto vivo o suficiente para reconhecer que sou?”

Indicações de leitura

WINNICOTT, D. W. O ambiente e os processos de maturação

WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade

GREEN, André. O trabalho do negativo

BOLLAS, Christopher. A sombra do objeto

LACAN, Jacques. Seminário 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise

HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço

FISHER, Mark. Realismo capitalista

 

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