Entre o cuidado e o abandono: o que o “Vidas Preservadas” revela e o que ainda silencia

 

Li a matéria de hoje do O POVO sobre o Programa Vidas Preservadas, do Ministério Público do Ceará, e confesso: ela me atravessou de forma ambígua. Por um lado, há algo profundamente necessário, talvez urgente, nessa tentativa de articular políticas de prevenção ao suicídio em territórios marcados pela violência, pela pobreza e pela ausência histórica do Estado. Por outro, há algo que me inquieta: o quanto essas iniciativas, embora importantes, ainda parecem operar como remendos em um tecido social rasgado há décadas.

Não é possível falar de saúde mental nesses contextos sem nomear o óbvio: o sofrimento psíquico, aqui, não é apenas individual, ele é produzido socialmente.

Quando leio que 142 municípios já aderiram ao programa, sinto um certo alívio. Mas quando leio, na mesma matéria, que “não existe um município no Ceará que não enfrente esses desafios sociais”, o alívio se dissolve. Estamos diante de um problema estrutural, e não episódico.

O que está em jogo não é apenas ampliar o acesso ao CAPS, oferecer capacitações ou promover campanhas. Tudo isso é fundamental,  mas insuficiente.

A fala da professora Maria Escobar me parece central: estamos lidando com territórios “à margem do próprio Estado”. E aqui está o ponto que mais me incomoda: como construir políticas de cuidado onde o Estado chega de forma fragmentada, às vezes como ausência, às vezes como repressão?

Enquanto psicólogo em formação e assistente social, eu não consigo deixar de pensar que o sofrimento descrito na matéria é, em grande medida, um sofrimento político.

Uma criança que presencia um homicídio não está apenas exposta a um evento traumático isolado. Ela está inserida em um território onde a violência organiza o cotidiano, onde o medo regula os deslocamentos, onde o futuro é constantemente sequestrado. Isso não se resolve apenas com escuta clínica, embora ela seja indispensável.

E talvez o trecho mais brutal da matéria seja aquele que menciona a mãe que não pode levar o filho ao CAPS porque o equipamento está em área dominada por facção rival.

Aqui, qualquer discurso técnico sobre “rede de atenção psicossocial” se choca com a realidade concreta: o território está fraturado. O direito à saúde é mediado pela geopolítica do crime.

Isso exige de nós uma radicalidade maior na análise  e na ação.

Não basta pensar políticas públicas setoriais. É preciso pensar território, urbanismo, segurança pública, mobilidade, cultura, educação. A saúde mental, nesses contextos, é transversal  ou não será.

E há ainda um outro elemento que me inquieta profundamente: o medo de buscar ajuda.

A promotora Lívia Rodrigues aponta que muitas pessoas evitam procurar o Ministério Público por receio de represálias. Isso revela algo grave: as instituições que deveriam proteger também são percebidas como risco. Como construir vínculo assim?

Na clínica, aprendemos que não há cuidado sem confiança. No campo social, isso se traduz em algo semelhante: não há política pública eficaz sem legitimidade.

Se o sujeito teme o serviço, ele não acessa. Se não acessa, o cuidado não acontece. E o sofrimento se agrava.

Diante disso, o Vidas Preservadas me parece uma iniciativa importante, mas que precisa ser tensionada, no melhor sentido da palavra.

O que podemos propor, então, para além do que já está colocado?

Primeiro, é fundamental territorializar radicalmente as políticas de saúde mental. Não basta instalar equipamentos; é preciso garantir acesso real. Isso pode significar, por exemplo:

criação de equipes móveis de saúde mental que circulem nos territórios mais vulneráveis;

uso de escolas, centros comunitários e espaços culturais como pontos de cuidado e escuta;

fortalecimento de práticas comunitárias como terapia comunitária, biodança, rodas de conversa e grupos de apoio.

Segundo, é urgente integrar saúde mental com políticas de segurança cidadã. Não se trata de militarizar o cuidado, mas de garantir que as pessoas possam circular com segurança até os serviços. Isso implica diálogo entre Estado e território, algo que o Brasil ainda faz muito mal.

Terceiro, precisamos investir na formação de redes locais de cuidado. A própria matéria menciona a importância da articulação entre saúde, assistência, educação e justiça. Mas isso não pode ficar no plano do discurso institucional. É preciso:

envolver lideranças comunitárias;

formar agentes populares de saúde mental;

reconhecer saberes locais, inclusive de matrizes culturais e religiosas.

Quarto, é indispensável trabalhar com dados, como aponta o promotor Eneas Romero, mas sem perder de vista que números não capturam tudo. O risco aqui é tecnocratizar o sofrimento. Precisamos de indicadores, sim, mas também de escuta qualificada, de narrativas, de histórias.

E, por fim, há uma dimensão que raramente aparece com força nessas políticas: a cultura.

Em territórios atravessados pela violência, a arte não é luxo, é sobrevivência. Projetos culturais, música, teatro, literatura, esporte, tudo isso produz sentido, pertencimento, laço social. E laço social é fator de proteção em saúde mental.

Saí da leitura da matéria com uma certeza incômoda: não há prevenção ao suicídio possível sem enfrentar as condições sociais que produzem desamparo.

O Vidas Preservadas aponta um caminho. Mas, se quisermos ser honestos, precisamos dizer: preservar vidas, aqui, não é apenas evitar a morte, é garantir que essas vidas possam, de fato, ser vividas.

E isso exige muito mais do que programas. Exige projeto de sociedade.

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