Corpo de Sombra

 À noite

meu corpo desaperta os ossos
e desaprende a disciplina dos dias.

Fico assim:
um homem atravessado
por vozes antigas
e por um desejo que não envelhece.

Há um incêndio quieto
morando debaixo da pele.

Uma espécie de animal sem nome
que me mastiga por dentro
quando o silêncio da casa
fica grande demais.

E eu desejo.

Não com a pressa vulgar dos corpos vazios,
mas com esta fome funda
de quem procura no outro
uma passagem para além de si mesmo.

Às vezes penso
que amar é isto:
encostar a própria ruína
na ruína de alguém
e chamar isso de abrigo.

Então te invento.

Te dou respiração, sombra, febre.
Construo tua presença
como quem ergue uma oração clandestina
no meio da madrugada.

Mas quando chegas
és sempre menor
que o abismo que carrego.

Porque existe qualquer coisa em mim
que não cabe completamente
nem na carne
nem na palavra “homem”.

Carrego um excesso.

Uma vertigem antiga
misturada ao medo da morte
e ao desejo absurdo
de permanecer vivo dentro de alguém.

Sim, a morte.

Ela senta ao lado da cama
feito bicho paciente
esperando que o coração termine
seu trabalho de ferrugem.

E talvez por isso
eu deseje tanto.

Porque cada beijo
parece uma pequena revolta
contra o desaparecimento.

Escuta:

não quero santidade.

A santidade tem cheiro de mármore frio.

Quero o corpo imperfeito.
O suor.
O erro.
A respiração desordenada
de quem ainda sente o mundo atravessar a pele.

Quero este instante
em que tua boca encontra a minha
e por alguns segundos
o universo inteiro
parece esquecer sua própria violência.

Depois virá o silêncio.

Sempre vem.

Esse corredor escuro
onde os homens escondem suas fragilidades.

Mas agora não.

Agora deixa-me permanecer
nesta breve desordem de estar vivo,
com minhas mãos cansadas,
meus desejos tardios
e estas estrelas queimando devagar
dentro do peito.

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