Homem na Parada de Ônibus
O homem
espera o ônibus
como quem espera salário:
sem esperança,
mas por obrigação.
O sol
bate seco
na chapa dos carros,
nos ombros curvados,
na fome das dez horas.
Ninguém
conversa.
A cidade
desaprendeu
o desperdício da palavra.
Cada
rosto carrega
sua pequena contabilidade:
boletos, atrasos,
cansaços parcelados.
Uma
mulher segura a bolsa
contra o peito
como se defendesse
o último território possível.
O menino
mastiga biscoito
olhando o asfalto.
Aprende
cedo
a pedagogia da espera.
O ônibus
chega.
Não
chega:
arromba.
Abre as
portas
como boca de máquina.
Os corpos
entram
uns dentro dos outros
sem escolha,
sem espaço para metáforas.
Ali
dentro
o suor não é humano:
é coletivo.
Mistura
de desodorante barato,
pressa
e sobrevivência.
O homem
segura na barra de ferro
como quem segura
a própria permanência no mundo.
Lá fora,
os prédios continuam crescendo.
Altos,
espelhados,
indiferentes.
A cidade
fabrica riqueza
para poucos
e transporte
para apertar os demais.
O homem
desce
quarenta minutos depois.
Carrega
agora
o mesmo corpo,
um pouco menos de paciência
e a camisa molhada.
Amanhã
fará igual.
Porque
viver, aqui,
não é travessia épica.
É
repetição.
Uma
engenharia diária
de não desabar.
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