A Infância Sob Cerco: O Brasil Que Não Pode Continuar Fechando os Olhos

 

Hoje, 18 de maio, Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, eu não consigo tratar essa data apenas como uma campanha institucional ou uma lembrança simbólica do calendário. Os dados recentes do Ceará me atravessam de maneira brutal. Saber que o Estado registrou, em média, mais de uma denúncia de violência sexual contra crianças e adolescentes por dia apenas nos três primeiros meses de 2026 revela algo profundamente adoecido na nossa sociedade.

E o mais assustador talvez seja justamente isto: sabemos que os números reais são muito maiores.

A própria Organização Mundial da Saúde estima que apenas uma pequena parcela dos casos chega às autoridades. Ou seja, por trás das estatísticas existem silêncios, medos, ameaças, dependências econômicas, famílias desestruturadas e crianças que seguem convivendo diariamente com seus agressores.

Quando leio que a maioria dos abusadores está dentro de casa, pais, padrastos, tios, avôs, homens próximos da família, penso no quanto a violência sexual infantil desmonta um dos pilares mais básicos da experiência humana: a ideia de proteção.

Porque a infância deveria ser território de cuidado. Mas para milhares de crianças brasileiras ela se transforma em espaço de medo.

E isso me faz refletir sobre algo muito profundo: o abuso sexual infantil não é apenas um crime individual. Ele também é um fenômeno social, cultural e político. Existe uma estrutura de silenciamento sustentando essa violência.

Vivemos numa sociedade profundamente adultocêntrica. A palavra do adulto costuma valer mais do que a da criança. Quantas vezes ouvimos frases como:
“isso é imaginação”,
“ela entendeu errado”,
“ele é um homem de bem”,
“não destrua a família por causa disso”?

A criança frequentemente precisa lutar não apenas contra o trauma da violência, mas também contra a desconfiança dos próprios adultos.

E há algo ainda mais cruel: muitos agressores utilizam justamente vínculos afetivos, dependência emocional e poder familiar para manipular as vítimas. Não se trata apenas de violência física. Trata-se também de violência psicológica e simbólica.

Por isso considero tão importante a fala da coordenadora do Cedeca quando afirma a necessidade de escuta sem revitimização. Escutar uma criança exige sensibilidade, preparo e responsabilidade ética. Muitas vezes o primeiro relato já é feito cercado de medo, culpa e vergonha.

E penso que o Brasil falha enormemente nisso.

Falhamos na proteção social.

Falhamos na prevenção.

Falhamos na formação de profissionais.

Falhamos no acolhimento das vítimas.

Falhamos até mesmo na capacidade coletiva de falar sobre sexualidade, consentimento e violência sem cair em moralismos conservadores.

Existe hoje um setor da sociedade que transforma qualquer debate sobre educação sexual em “ameaça à família” ou “doutrinação”. Mas a realidade concreta mostra o contrário: crianças desinformadas ficam mais vulneráveis ao abuso.

Falar sobre corpo, limites, consentimento e proteção não erotiza crianças. Protege. A escola possui papel central nisso.

E me preocupa profundamente quando debates sobre gênero e direitos sexuais são demonizados politicamente. Porque muitas crianças descobrem na escola o primeiro espaço minimamente seguro para relatar violências sofridas em casa.

Silenciar esses temas não protege infância alguma. Protege abusadores.

Outro aspecto que me angustia é o avanço da exploração sexual infantil mediada pelas tecnologias digitais. O aumento de 450% nos registros online suspeitos de abuso sexual infantil entre 2024 e 2025 mostra que estamos entrando numa nova fase da violência.

A inteligência artificial, as plataformas digitais e os sistemas de compartilhamento instantâneo criaram possibilidades inéditas de exploração.

Imagens manipuladas por IA.

Aliciamento online.

Conteúdos sexualizados envolvendo menores.

Cyberbullying sexual.

Redes internacionais de exploração.

Tudo isso se expande numa velocidade muito maior do que a capacidade de fiscalização do Estado.

E aqui vejo um problema grave: as Big Techs continuam lucrando enormemente enquanto a proteção da infância ainda aparece como questão secundária em muitos ambientes digitais.

Claro que o ECA Digital representa avanço importante. Obrigar plataformas a produzir relatórios de transparência, remover conteúdos rapidamente e fortalecer mecanismos de proteção é necessário. Mas honestamente? Ainda parece insuficiente diante da escala do problema.

Precisamos de regulação tecnológica muito mais séria. As plataformas não podem continuar funcionando apenas segundo lógica de lucro e engajamento enquanto crianças são expostas à violência digital.

Também penso que o combate ao abuso sexual infantil precisa ser tratado de forma intersetorial.

Não basta apenas polícia e sistema de justiça.

Precisamos de:
escolas preparadas,
CAPS e serviços de saúde mental fortalecidos,
assistência social estruturada,
formação continuada de professores,
campanhas públicas permanentes,
proteção econômica para mulheres e crianças,
e redes comunitárias de cuidado.

Porque muitas mães permanecem em relações violentas justamente por dependência financeira e ausência de suporte estatal.

Além disso, considero fundamental incluir os homens nesse debate de forma mais profunda. Não é possível enfrentar violência sexual infantil sem discutir masculinidades, cultura do poder, misoginia e naturalização histórica da dominação masculina sobre corpos vulneráveis.

O fato de 95% dos abusadores serem homens não pode ser tratado como simples coincidência estatística.

Existe uma pedagogia social da violência masculina que precisa ser enfrentada.

No fundo, penso que proteger a infância exige muito mais do que campanhas pontuais no 18 de maio.

Exige transformação cultural.

Uma sociedade que coloca crianças no centro das políticas públicas.

Uma sociedade que acredita nas vítimas.

Que rompe silêncios familiares.

Que enfrenta o conservadorismo cúmplice.

Que regula plataformas digitais.

Que fortalece escolas e serviços públicos.

E que compreende que nenhuma civilização pode se considerar saudável enquanto suas crianças continuam sendo violentadas dentro de casa, nas ruas e agora também nas redes.

Porque toda criança que sofre abuso carrega marcas que atravessam corpo, memória e subjetividade por muitos anos.

E um país que fracassa em proteger sua infância fracassa também em proteger seu próprio futuro.

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