O sentimento de onipotência do obsessivo segundo Ferenczi: entre o controle e o desamparo

 

Escrevo sobre o sentimento de onipotência do obsessivo a partir de Ferenczi com certo cuidado, porque esse tema toca numa dimensão muito humana: a tentativa de controlar o mundo para não entrar em colapso diante dele. Não falo aqui de “mania de grandeza”, mas de algo mais sutil e, muitas vezes, sofrido. A onipotência do obsessivo não é soberba; é defesa.

Ao ler Ferenczi, fui entendendo que a onipotência, nesses casos, não nasce do excesso de força, mas do medo do desamparo.

 

O que Ferenczi percebeu

Ferenczi tinha uma sensibilidade rara para o sofrimento real dos pacientes. Diferente de uma psicanálise mais fria ou distante, ele escutava o que estava por trás dos sintomas. Quando fala do obsessivo, ele observa algo importante: a crença inconsciente de que o pensamento tem poder direto sobre a realidade.

Não é magia literal, mas quase isso no plano psíquico.

O obsessivo teme que:

  • pensar algo ruim possa causar dano
  • desejar algo agressivo possa realizá-lo
  • não controlar a mente possa gerar catástrofes

Por trás disso está a fantasia de que o eu tem poder excessivo sobre o mundo. Isso é o que Ferenczi relaciona ao sentimento de onipotência infantil que não foi suficientemente elaborado.

 

 

A raiz infantil da onipotência

Toda criança vive uma fase de onipotência. O bebê chora e o mundo responde; sente fome e o alimento chega; sofre e alguém acolhe. A experiência subjetiva é de centralidade absoluta.

O desenvolvimento saudável implica, pouco a pouco, aceitar limites, frustrações e a separação entre desejo e realidade.

Mas, segundo Ferenczi, quando há:

  • traumas precoces
  • ambientes imprevisíveis
  • excesso de exigência moral
  • falta de acolhimento emocional

a criança pode se apegar à onipotência como forma de segurança. Melhor sentir-se excessivamente responsável do que totalmente impotente.

É paradoxal: a onipotência protege contra o desamparo.

 

O obsessivo e o peso da responsabilidade psíquica

Na clínica (e na vida), percebo como o obsessivo sofre por se sentir responsável demais. Ele tenta controlar pensamentos, prever consequências, evitar erros mínimos. Vive em estado de vigilância interna.

A onipotência aqui não é prazerosa. É pesada.

Ela aparece como:

  • ruminação constante
  • culpa exagerada
  • necessidade de certeza
  • medo de falhar moralmente
  • rituais mentais de controle

O obsessivo não quer dominar o mundo; quer evitar que o mundo desmorone por sua causa.

 

Ferenczi e a ternura clínica

O que mais me toca em Ferenczi é que ele não via isso como teimosia ou rigidez de caráter, mas como sofrimento enraizado. Ele compreendia que, por trás da onipotência, há muitas vezes uma criança que aprendeu cedo demais que o mundo não era seguro.

A defesa onipotente diz, no fundo:
“Se eu controlar tudo, nada de ruim acontece.”

É uma tentativa de sobrevivência psíquica.

 

O trabalho analítico

Se a onipotência é defesa contra o desamparo, o trabalho analítico não é confrontá-la brutalmente, mas oferecer uma experiência onde o sujeito possa suportar não controlar tudo.

Isso implica:

  • construir confiança
  • legitimar a vulnerabilidade
  • tolerar incerteza
  • diferenciar pensamento de ação

Aos poucos, o obsessivo pode perceber que o mundo não depende inteiramente dele  e que isso é libertador, não ameaçador.

 

O que aprendo com isso

Esse tema me ensina algo maior sobre a condição humana. Todos nós, em algum grau, já recorremos à fantasia de controle para lidar com a incerteza. O obsessivo apenas leva isso ao extremo.

Ferenczi me lembra que, por trás de defesas rígidas, há histórias de adaptação a contextos difíceis. Quando olhamos só o sintoma, perdemos a pessoa.

 

Para concluir, com honestidade

O sentimento de onipotência do obsessivo não é arrogância. É medo transformado em controle. É tentativa de evitar dor. É defesa contra o caos.

Talvez o verdadeiro oposto da onipotência não seja a impotência, mas a confiança em si, no outro, na relação.

E isso não se impõe.
Se constrói.

Ferenczi nos ensinou algo precioso: antes de interpretar, é preciso compreender. Antes de desmontar a defesa, é preciso oferecer segurança.

No fim, ninguém precisa ser onipotente quando pode ser amparado.

 

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