Entre o palco e o púlpito: quando a arte se encontra com o conservadorismo
Nos últimos anos, tenho assistido com inquietação a um movimento que não é
pequeno: artistas e cantores brasileiros declarando apoio ao bolsonarismo ou
adotando um discurso conservador fortemente ancorado em linguagem religiosa,
muitas vezes evangélica. Não se trata apenas de preferência eleitoral. Trata-se
de uma inflexão simbólica que reposiciona trajetórias construídas, muitas
vezes, junto a públicos populares e trabalhadores.
O que me provoca não é o direito de alguém ter
convicções políticas. Esse direito é inegociável. O que me inquieta é a tensão
entre discurso e base social. Muitos desses artistas cresceram dialogando com a
classe trabalhadora, gente que depende de políticas públicas, de direitos
sociais, de acesso à cultura e a serviços básicos. Quando passam a defender
agendas que fragilizam esses direitos, a contradição salta aos olhos.
Mas será mesmo uma “traição” simples? Ou há
algo mais complexo em jogo?
Penso que há pelo menos três dimensões que
ajudam a entender esse fenômeno.
A primeira é econômica. O mercado cultural
brasileiro mudou muito. A centralidade das plataformas digitais, o peso do
agronegócio no financiamento de eventos, o crescimento do mercado gospel e a
reorganização do entretenimento criaram novos circuitos de poder e
financiamento. Não é irrelevante que parte da indústria musical dialogue
diretamente com segmentos conservadores que se fortaleceram politicamente.
A segunda é identitária. O conservadorismo
contemporâneo não se apresenta apenas como programa econômico, mas como
narrativa moral. Ele oferece pertencimento, clareza, sensação de ordem num
mundo percebido como caótico. Em tempos de crise econômica, pandemia,
instabilidade política e transformações culturais rápidas, discursos que
prometem valores estáveis encontram ressonância.
A terceira dimensão é religiosa. O crescimento
do evangelicalismo no Brasil não é fenômeno superficial. Ele reorganiza redes
comunitárias, imaginários, linguagens e afetos. Para muitos artistas,
alinhar-se a esse campo pode significar coerência com sua vivência espiritual.
O problema surge quando fé se funde com projeto político autoritário e
excludente.
Ainda assim, continuo me perguntando: o que
leva alguém a arriscar parte de sua trajetória simbólica? Talvez a pergunta
precise ser invertida. Talvez essas trajetórias nunca tenham sido tão
homogêneas quanto imaginávamos. A ideia de que todo artista popular é
automaticamente progressista pode ser mais projeção nossa do que realidade.
Há também um aspecto psicológico que me chama
atenção. O discurso conservador contemporâneo oferece uma identidade forte. Ele
simplifica conflitos complexos em narrativas morais claras: bem contra mal,
tradição contra decadência, família contra ameaça. Em termos subjetivos, isso
reduz ambivalência. E reduzir ambivalência é sedutor.
Na clínica, vejo o quanto as pessoas buscam
sentido e pertencimento. Quando um campo político se apresenta como comunidade
moral coesa, ele não mobiliza apenas argumentos, mobiliza afetos. O palco e o
púlpito, nesse contexto, podem se aproximar.
Mas há consequências. Quando artistas que
dialogam com públicos vulneráveis passam a defender agendas que restringem
direitos, a contradição produz fissuras. Parte do público se sente descolada,
outra parte se identifica ainda mais. A polarização cultural se intensifica.
Também me preocupa a naturalização de
discursos que relativizam desigualdades estruturais. A classe trabalhadora não
é homogênea, e muitos trabalhadores também aderem ao conservadorismo. Isso
mostra que interesses econômicos não determinam automaticamente posicionamentos
políticos. Cultura, religião e identidade pesam tanto quanto renda.
Talvez o erro esteja em imaginar que
trajetórias artísticas são linhas retas. Elas são atravessadas por mudanças
pessoais, contextos econômicos, redes de influência e transformações sociais.
Chamar de “jogar no lixo” pode expressar frustração, e eu entendo essa
frustração, mas talvez seja mais produtivo compreender os mecanismos que tornam
esse alinhamento possível.
Isso não significa concordar ou relativizar.
Significa reconhecer que a disputa é cultural. Se parte da classe trabalhadora
se identifica com discursos conservadores, há uma batalha simbólica em curso.
Ignorá-la ou tratá-la apenas como irracionalidade não resolve.
Pessoalmente, continuo acreditando que a arte
tem potência quando amplia sensibilidade, quando questiona hierarquias, quando
dá voz a experiências marginalizadas. Quando se alinha a projetos que
restringem essa pluralidade, algo se estreita. Mas também sei que a arte nunca
foi politicamente homogênea.
O que esse momento revela é que o campo
cultural brasileiro está longe de ser monolítico. Ele reflete as tensões do
país. E talvez a pergunta mais importante não seja por que alguns artistas
aderem ao conservadorismo, mas por que o discurso conservador conseguiu se
tornar tão culturalmente eficaz.
Se há algo que aprendi observando esse
fenômeno é que política não se decide apenas em programas econômicos, mas em
narrativas de pertencimento. E quem compreende isso disputa o imaginário
coletivo.
A
arte continua sendo território de conflito simbólico. E, gostemos ou não, o
palco também é arena.
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