Entre o raio e o sonho: o que “Sonho Elétrico” acendeu em mim no Theatro José de Alencar

 

Hoje saí do Theatro José de Alencar com aquela sensação rara de que não assisti apenas a uma peça, fui atravessado por ela. Sonho Elétrico não é um espetáculo que se limita à narrativa de um músico atingido por um raio e lançado ao coma. É uma travessia entre vida e morte, entre memória e imaginação, entre o colapso e a possibilidade.

O TJA, com sua arquitetura que mistura ferro, história e delicadeza, parecia o cenário perfeito para essa experiência liminar. Desde o início, senti que não estávamos ali para acompanhar uma história linear, mas para entrar na mente de J. E entrar na mente de alguém à beira da morte é também entrar em nossas próprias zonas de incerteza.

Jesuíta Barbosa sustenta J com uma presença que oscila entre fragilidade e intensidade. Há algo profundamente humano em sua interpretação, um corpo suspenso, atravessado por lembranças, sons, fragmentos de existência. Não se trata de dramatizar o coma como evento médico, mas como estado poético. O raio que o atinge é físico, mas também simbólico: é o choque do nosso tempo, das urgências sociais e ambientais que pairam sobre nós.

O texto de Marcio Abreu, inspirado nas provocações de Sidarta Ribeiro, me fez pensar no sonho como território político. Se o sonho é lugar de ação, como propõe a peça, então ele não é fuga da realidade, é reconfiguração dela. Essa ideia me tocou profundamente. Vivemos uma era que parece esgotada de imaginação, saturada de notícias sobre crises climáticas, guerras, retrocessos democráticos. Sonho Elétrico me lembrou que imaginar ainda é ato de resistência.

A montagem tem essa qualidade performativa de que Jesuíta fala: há disponibilidade. Senti que o elenco estava aberto ao encontro, ao risco, à vibração do público. Isso não é detalhe, é o que diferencia teatro vivo de simples reprodução de texto.

Jessyca Meyreles, Idylla Silmarovi e Cleomácio Inácio compõem um tecido cênico vibrante. Não funcionam como personagens fixos no sentido tradicional; são presenças que atravessam memórias, afetos, sons. Cada corpo, como diz Abreu, é discurso. E essa frase ficou ecoando em mim durante a apresentação. O elenco não apenas interpreta, encarna ideias.

Há uma sintonia entre eles que produz tensão e delicadeza ao mesmo tempo. Em certos momentos, a cena parece quase um concerto emocional; em outros, uma coreografia de pensamentos. Não há fronteira rígida entre música, palavra e movimento. Tudo se mistura como se estivéssemos realmente dentro de um cérebro sonhando.

O que mais me impactou foi a metáfora da extinção. A iminência da morte de J ecoa como iminência coletiva. O raio não atinge apenas um artista; ele parece atingir a humanidade. E, no entanto, a peça não se rende ao desespero. Há sempre uma fresta, uma possibilidade de recomeço, uma insistência na arte como pulsação.

Fiquei pensando no papel da arte num mundo que parece cada vez mais endurecido. A peça sugere que fazer arte é afirmar vida diante da corrosão. Vida e morte estão em disputa permanente, não apenas biologicamente, mas simbolicamente. Quando a sensibilidade é sufocada, algo morre. Quando ela é ativada, algo renasce.

Sonho Elétrico também dissolve classificações fáceis. Não é drama puro, nem comédia, nem tragédia. É uma experiência que oscila, como a própria existência. Ri em alguns momentos, me emocionei em outros, e saí com perguntas em vez de respostas fechadas. E talvez esse seja o maior mérito.

Pessoalmente, senti que a peça dialoga com minhas próprias inquietações sobre o tempo que vivemos. O limiar entre fim e começo não é apenas tema teatral; é sensação cotidiana. Estamos à beira de algo, não sabemos se colapso ou transformação. O teatro, ali, tornou-se espaço de elaboração coletiva dessa angústia.

Quando as luzes se apagaram, percebi que algo permanecia aceso em mim. Uma inquietação, mas também uma energia. Talvez seja isso que o espetáculo propõe: não negar a iminência do fim, mas lembrar que o sonho ainda pode ser gesto.

No TJA, hoje, experimentei essa dialética viva entre morte e criação. E saí convencido de que, enquanto houver arte disponível ao encontro, ainda haverá possibilidade.

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