Esperança ativa: entre o colapso e a escolha de continuar
Eu não li
Esperança Ativa, de Joanna Macy e Chris Johnstone, como quem busca
conforto. Li como quem procura fôlego. E talvez seja essa a primeira ruptura
que o livro propõe: abandonar a ideia de esperança como consolo passivo, aquela
esperança que espera, para assumir uma esperança que age, que se move mesmo
quando não há garantias.
Vivemos
um tempo em que o colapso deixou de ser hipótese distante. A crise climática, o
esgotamento psíquico coletivo, a desigualdade brutal e a sensação difusa de que
algo está profundamente errado fazem parte do cotidiano. E, nesse cenário, eu
me percebo oscilando entre dois polos: o desespero paralisante e o cinismo
confortável. Macy e Johnstone entram exatamente nessa fissura.
Eles me
confrontam com uma pergunta incômoda: o que você faz com o que você sabe?
A
proposta da “esperança ativa” não é otimista. Isso é fundamental. Não se trata
de acreditar que tudo vai dar certo. Trata-se de escolher agir apesar da
incerteza. Aqui, o livro rompe com uma lógica muito presente no nosso tempo,
a lógica da garantia. Fomos educados a investir apenas naquilo que promete
retorno. A esperança ativa, ao contrário, exige um salto ético: agir porque é
necessário, não porque é seguro.
Ao longo
da leitura, fui percebendo que o livro também é uma crítica profunda à forma
como nos defendemos emocionalmente diante do colapso. A negação, o
entorpecimento, o individualismo exacerbado, tudo isso aparece como formas de
autoproteção. E eu me reconheci nisso. Quantas vezes, diante de notícias sobre
devastação ambiental ou injustiças sociais, eu simplesmente desligo? Não por
falta de sensibilidade, mas por excesso de dor.
Macy
chama isso de “dor pelo mundo”. E, em vez de patologizá-la, ela propõe algo
radical: sentir essa dor como parte da nossa humanidade e como motor de ação.
Aqui, o livro toca algo que me atravessa profundamente enquanto alguém que
transita pela psicanálise. Não é possível transformar aquilo que não se
simboliza. Negar a angústia coletiva é, no fundo, reforçar a repetição do
desastre.
Mas há um
ponto que me inquieta, e aqui preciso tensionar o livro. Ao enfatizar a
transformação interior e a mudança de consciência, existe o risco de deslocar
excessivamente a responsabilidade para o indivíduo. Em um país como o Brasil,
marcado por desigualdades estruturais, racismo, violência e exploração
histórica, não podemos cair na armadilha de achar que a mudança virá apenas por
meio de processos subjetivos.
A
esperança ativa precisa, necessariamente, se tornar ação política organizada.
Caso contrário, ela pode ser capturada por uma lógica quase terapêutica que
alivia o sujeito, mas não altera as estruturas.
Dito
isso, há algo no livro que me parece profundamente potente: a ideia de que
somos parte de um “Grande Virar”, uma transição histórica entre um modelo de
sociedade baseado na exploração e outro, ainda em construção, baseado na
interdependência e no cuidado. Não é uma visão ingênua. É uma narrativa que
disputa o imaginário. E isso importa.
Porque,
no fundo, o que está em jogo também é a nossa capacidade de imaginar futuros.
Sem
imaginação política, não há transformação. E sem algum tipo de esperança, ainda
que frágil, ainda que incerta, não há movimento.
Terminei
o livro com mais perguntas do que respostas. E talvez isso seja um bom sinal. A
esperança ativa não oferece garantias, não promete finais felizes, não
anestesia o medo. Ela me convoca a uma posição: participar, mesmo sem saber
o desfecho.
Hoje, eu
entendo a esperança menos como sentimento e mais como prática. Uma prática que
exige coragem, vínculo, ação coletiva e, sobretudo, uma disposição radical de
não desistir do mundo, mesmo quando o mundo parece estar desistindo de si.
Indicações de leitura
MACY, Joanna; JOHNSTONE, Chris. Esperança
Ativa: como enfrentar a bagunça em que estamos sem enlouquecer.
SAFATLE, Vladimir. A ameaça
interna – para pensar o sofrimento social e suas raízes políticas
GRAEBER, David. Trabalhos de
merda – sobre sentido, alienação e sistema econômico
KLEIN, Melanie. Amor, culpa e
reparação – para aprofundar a ideia de responsabilidade e reparação
psíquica
FREIRE, Paulo. Pedagogia da
Esperança – uma esperança radicalmente política e coletiva
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