Chapolin: o herói que nos salva de nós mesmos
Sempre achei curioso como, diante do caos, das tragédias, das grandes
catástrofes, é o improvável que nos estende a mão. Nunca é o homem de ferro, o
supermusculoso de capa esvoaçante. Às vezes, é o atrapalhado, o pequeno, o
ridículo aos olhos do mundo. Talvez por isso eu tenha me emocionado tantas
vezes com o Chapolin.
Sim, o Chapolin Colorado. Aquele herói de
macacão vermelho, olhos arregalados, frases desajeitadas e anteninhas de vinil.
Aquele que dizia “não contavam com minha astúcia”, mas que claramente nem ele
contava com ela. Chapolin é o antítese dos super-heróis, e por isso mesmo, o
mais real de todos. Porque sua maior arma era a coragem, mesmo com medo. E sua
maior força era sua humildade em saber que erraria — e mesmo assim tentava.
Nas minhas madrugadas insones, quando tudo
parecia perdido, era com ele que eu me encontrava. Um personagem inventado,
sim. Mas que carregava verdades profundas. A do fracasso. A do improviso. A da
compaixão. E acima de tudo, a de que não precisamos ser perfeitos para sermos
úteis.
Do ponto de vista sociológico, Chapolin
subverte o mito do herói. Ele não representa a força, o domínio técnico, a
beleza ou a lógica imbatível. Ele é o símbolo da América Latina: mestiça,
pobre, engraçada, esperançosa — e muitas vezes desprezada. Criado por Roberto
Gómez Bolaños, o personagem encarna o sujeito que sobrevive e resiste com
inteligência emocional, não com armas. É o herói possível numa sociedade de
injustiças.
Na psicologia, Chapolin nos fala de uma
identificação afetiva. Ele representa nossa criança interior que teme o mundo,
mas que se lança mesmo assim. A cada episódio, ele nos ensina a rir de nossos
medos. Ele é, como diria Winnicott, a presença suficientemente boa que nos
mostra que podemos falhar sem sermos menos dignos de afeto.
Filósofos como Zygmunt Bauman talvez vissem
nele a resposta líquida à rigidez dos mitos ocidentais. Chapolin é o herói
fluido: ele se adapta, escorrega, tropeça, inventa. Como nós. E como Camus, ele
parece nos dizer que o absurdo da vida não precisa nos paralisar. Podemos
enfrentá-lo com um martelo de borracha e um coração aberto.
E como esquecer sua principal virtude? A
solidariedade. Ele sempre aparecia quando ninguém mais vinha. "Sigam-me os
bons!" — um chamado à bondade, mesmo em meio à confusão. Ele era o anjo
bobo que aparecia no meio da noite, quando ninguém mais vinha nos socorrer. E
nos fazia rir, mesmo no meio do desespero.
Não é exagero dizer que Chapolin moldou
gerações. Nas periferias do Brasil, do México, da América Latina como um todo,
ele era uma referência. Sua linguagem simples e sua estética improvisada
mostravam que era possível criar, comunicar e resistir com pouco. Sua
genialidade estava em ser acessível — e isso o tornava subversivo.
Hoje, quando me vejo cercado por heróis que só
existem na tela, fico com saudades do meu herói atrapalhado. Do que nunca soube
voar, mas que sempre caía do céu. Porque, no fundo, ele nos ensinou que coragem
não é ausência de medo. É agir mesmo tremendo. E isso, sim, é heroico.
Leituras
e referências para aprofundar:
·
"A
ética da alteridade", de Emmanuel Lévinas – para refletir sobre o
cuidado com o outro como base da ação ética, muito presente no Chapolin.
·
"A
invenção das tradições", de Eric Hobsbawm – para compreender como
mitos populares são construídos e como Chapolin pode ser lido como uma
reinvenção crítica do arquétipo heroico.
·
"A
alma imoral", de Nilton Bonder – que discute o valor da
imperfeição e da transgressão ética, como Chapolin encarna de forma simbólica.
·
"Cultura
popular na Idade Média e no Renascimento", de Mikhail Bakhtin –
para pensar o riso, o grotesco e o subversivo na cultura popular, como
expressões políticas.
Chapolin
me ensinou que o riso pode ser resistência. Que o pequeno pode salvar o grande.
E que, sim, ainda é possível acreditar na bondade. Sigam-me os bons. Ainda há
tempo.
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