Entre Vargas e Lula: o peso da história e o tempo da experiência
Essa é uma pergunta que me inquieta mais do que parece à primeira vista. Não porque seja impossível de responder, mas porque ela carrega uma armadilha: a de transformar a história em uma disputa de grandezas individuais, como se líderes políticos existissem fora das estruturas sociais que os produziram.
Ainda assim, eu me permito entrar nesse terreno, não para escolher um “maior”, mas para compreender o tipo de importância histórica que cada um representa.
Quando penso em Getúlio Vargas, eu vejo um momento de fundação. Não no sentido absoluto, porque o Brasil já existia muito antes dele, mas no sentido de uma reconfiguração profunda do Estado brasileiro.
Vargas é, para mim, o nome de uma transição: do Brasil agrário-oligárquico para um Brasil urbano-industrial. Ele não apenas governou, ele ajudou a inventar um novo tipo de Estado, mais centralizado, mais interventor, mais presente na vida econômica e social.
A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), a criação de empresas estatais estratégicas, a organização do trabalho urbano, tudo isso marca uma mudança estrutural. Mas essa transformação veio acompanhada de algo que não pode ser ignorado: autoritarismo, controle político e repressão.
Do ponto de vista sociológico, Vargas encarna aquilo que alguns autores chamam de modernização conservadora. Ele promove mudanças profundas, mas sem romper com as estruturas de poder tradicionais. Integra as massas, mas sob controle. Reconhece direitos, mas também os regula e limita.
Eu não consigo olhar para Vargas sem ver essa ambiguidade: ele amplia o Estado social, mas também restringe a democracia.
Já quando penso em Lula, eu não vejo fundação. Vejo outra coisa: inflexão.
Lula emerge de um Brasil já industrializado, já urbanizado, já com instituições mais consolidadas, ainda que profundamente desiguais. A sua importância, para mim, não está em criar um novo Estado, mas em reorientar o sentido desse Estado.
Ele é fruto de um processo histórico que Vargas ajudou a iniciar: a formação da classe trabalhadora urbana. Mas Lula não é apenas um representante dessa classe, ele é também a expressão de um novo tipo de política, que combina institucionalidade com experiência popular.
Se Vargas “inclui pelo alto”, Lula tenta incluir a partir de baixo, ampliando o acesso ao consumo, à educação, à universidade, à renda.
Programas como o Bolsa Família, a valorização do salário mínimo, a expansão das universidades federais, tudo isso não é apenas política pública. É também uma reconfiguração simbólica do lugar dos pobres no Brasil.
Mas aqui também há tensões. Lula opera dentro dos limites do capitalismo globalizado e da democracia liberal. Seus governos não romperam com as estruturas profundas de desigualdade, antes, buscaram administrá-las e amenizá-las.
E isso gerou um paradoxo: ao mesmo tempo em que promove inclusão, não altera radicalmente a base que produz a exclusão.
Se eu tivesse que arriscar uma síntese, e sei que toda síntese é imperfeita, eu diria o seguinte:
Vargas tem uma importância estrutural: ele redefine o Estado brasileiro
Lula tem uma importância social e simbólica: ele redefine quem esse Estado deve servir
Mas há algo que me atravessa nessa comparação. Vargas governou em um tempo em que as massas estavam sendo incorporadas. Lula governa em um tempo em que essas massas já sabem que têm direitos, e, por isso, exigem mais. Isso muda tudo.
Porque governar um povo que ainda está sendo integrado é diferente de governar um povo que já se reconhece como sujeito político.
No fundo, talvez a pergunta não seja “quem foi mais importante”, mas o que cada um revela sobre o Brasil em seu tempo.
Vargas revela um país que precisava se construir como nação moderna.
Lula revela um país que, mesmo depois de construído, ainda precisa se tornar justo.
E eu, olhando para os dois, não consigo escolher um “maior”. O que vejo são dois momentos distintos de uma mesma luta histórica: a disputa sobre quem tem direito ao Brasil.
Indicações de leitura
FAUSTO, Boris. História do Brasil
FONSECA, Pedro Cezar Dutra. Getúlio Vargas: o poder e o sorriso
SINGER, André. Os sentidos do lulismo
OLIVEIRA, Francisco de. Crítica à razão dualista
SCHWARCZ, Lilia; STARLING, Heloisa. Brasil: uma biografia
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