O preço da soberania: entre o que vendemos e o que agora nos cobra

 

Eu não consigo olhar para a atual crise de combustíveis, atravessada pela escalada de tensões entre Irã, Israel e Estados Unidos, sem sentir que estamos, mais uma vez, pagando uma conta antiga. Uma conta que não foi apenas econômica, mas profundamente política, estratégica e, eu diria, civilizatória.

Durante o governo Jair Bolsonaro (2019–2022), assistimos à venda de ativos estratégicos da Petrobras sob o discurso da “eficiência” e da “modernização do mercado”. Foram 62 ativos vendidos, somando cerca de US$ 33,9 bilhões. Entre eles, a BR Distribuidora, hoje Vibra Energia, e refinarias como a Landulpho Alves (RLAM), entregue ao fundo Mubadala. Na época, muitos de nós alertamos: não se trata apenas de vender empresas, trata-se de abrir mão de instrumentos de soberania.

E hoje, com o mundo novamente em ebulição geopolítica, essa escolha volta como sintoma.

Quando uma crise internacional atinge o petróleo, como agora, com riscos reais de desestabilização no Oriente Médio, países com forte capacidade de refino e controle sobre sua cadeia energética conseguem amortecer os impactos internos. Já países que fragmentaram sua infraestrutura, que abriram mão de coordenação estatal, tornam-se mais vulneráveis às oscilações externas.

O que vemos no Brasil não é apenas “alta de preços”. É dependência.

Dependência de importações em determinados momentos, dependência da lógica internacional de preços, dependência de agentes privados que não têm compromisso com o interesse público, mas com margens de lucro. E, sobretudo, dependência de um sistema internacional cada vez mais instável e disputado.

E aqui eu preciso ser direto: vender refinarias não foi apenas uma decisão econômica, foi uma decisão ideológica. Uma aposta de que o mercado, por si só, garantiria equilíbrio, competição e preços mais justos. Mas o que temos visto, na prática, é uma reconfiguração concentrada, com novos atores privados que não necessariamente reduziram custos ao consumidor final.

Diante disso, a crise atual escancara algo que muitos preferiram não ver: energia não é mercadoria qualquer. Energia é poder.

Por isso, eu defendo que este é, sim, um momento crucial para o governo federal agir em três frentes.

A primeira é comunicacional. É urgente que o Governo Lula faça um pronunciamento em rede nacional, explicando de forma didática o que está acontecendo no cenário internacional e como isso impacta diretamente a vida cotidiana. A guerra não é algo distante. Ela chega no preço do gás de cozinha, no diesel do transporte público, no custo dos alimentos. E uma população que não compreende esses mecanismos torna-se terreno fértil para desinformação e manipulação.

A segunda frente é política e popular. Não basta governar de cima para baixo em um tema dessa magnitude. Se estamos falando de soberania energética e de reorientação estratégica do país, isso exige base social ativa. Eu defendo que o governo convoque o povo a ocupar as ruas, não como gesto vazio, mas como pressão legítima para sustentar decisões difíceis, como a reestatização de ativos estratégicos. Sem mobilização popular, qualquer tentativa de reversão encontrará resistência feroz de interesses econômicos consolidados.

Porque, no fundo, a disputa não é apenas técnica. É disputa de poder.

E a terceira frente é estratégica: reverter, na medida do possível, o processo de desmonte.

Eu sei que não é simples. Não se trata de “reestatizar” com uma canetada. Existem contratos, investidores internacionais, disputas jurídicas. Mas isso não pode servir de desculpa para a inércia. Existem caminhos: recompra negociada de ativos, fortalecimento da Petrobras como empresa integrada, criação de novas capacidades de refino, revisão de marcos regulatórios que hoje limitam a capacidade de planejamento estatal.

E eu iria além.

Se estamos discutindo soberania em um mundo que volta a operar sob lógica de blocos, disputas por recursos e até discursos que flertam com uma nova “recolonização”, evocando, ainda que de forma indireta, a velha Doutrina Monroe, então precisamos encarar um debate mais amplo sobre nossas riquezas estratégicas.

Não é apenas petróleo. É mineração. É logística. É território

A Vale do Rio Doce, privatizada no governo Fernando Henrique Cardoso, é um exemplo emblemático. Uma empresa que opera recursos minerais estratégicos em escala global, com impactos profundos sobre territórios, populações e a própria inserção do Brasil na geoeconomia mundial. Em um cenário de disputa crescente por minerais críticos, fundamentais para tecnologia, defesa e transição energética, faz sentido que ativos dessa natureza estejam subordinados exclusivamente à lógica privada?

Eu, sinceramente, acho que não.

Não se trata de negar a participação do setor privado, mas de reconhecer que certos setores não podem ser deixados à deriva do mercado internacional, especialmente quando há assimetrias tão grandes de poder entre países. Quando potências falam abertamente em garantir acesso a recursos naturais, não estamos mais no terreno da retórica abstrata, estamos no campo da disputa concreta.

E países que não se protegem, perdem. Por isso, retomar o controle,direto ou indireto, sobre setores estratégicos não é um capricho ideológico. É uma necessidade histórica.

Mais do que isso, precisamos repensar o próprio modelo energético e econômico brasileiro. Investir em refino nacional, sim, mas também em transição energética com soberania tecnológica. Fortalecer empresas públicas, sim, mas com controle social, transparência e eficiência. E, sobretudo, reconstruir a capacidade do Estado de planejar o futuro.

Porque o que está em jogo não é apenas o preço do combustível. É o tipo de país que queremos ser. Um país que reage às crises ou um país que se antecipa a elas? Um país que entrega seus ativos estratégicos ou um país que compreende que certas estruturas são pilares da soberania?

Eu não consigo aceitar que tratemos como inevitável aquilo que foi resultado de escolhas políticas. Se foi escolha vender, também pode ser escolha reconstruir. Mas isso exigirá algo que vai além de governos: exigirá um povo consciente, mobilizado e disposto a disputar o rumo do país. Porque soberania, no fim das contas, não se decreta. Se conquista.

 

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