O público que não decide: entre a ilusão democrática e o desconforto de Lippmann
Ler O Público Fantasma, de Walter
Lippmann, foi como encarar um espelho incômodo, daqueles que não deformam a
imagem, mas retiram dela todas as ilusões confortáveis. E eu confesso: não é um
livro fácil de aceitar, especialmente para quem, como eu, acredita na potência
da participação popular e na necessidade de radicalizar a democracia.
Porque Lippmann vai direto ao ponto: o
“público”, essa entidade que tanto invocamos, “a opinião pública”, “a vontade
do povo”, não é o sujeito ativo, informado e racional que gostamos de imaginar.
Ele é, segundo Lippmann, intermitente, desinformado e, muitas vezes, incapaz de
compreender a complexidade dos problemas que o afetam.
Dói ler isso. Dói porque há um fundo de verdade.
Lippmann escreve em um contexto de expansão dos meios de comunicação de
massa, mas sua análise parece antecipar o nosso tempo de redes sociais, fake
news e polarização extrema. Ele argumenta que os cidadãos comuns não têm tempo,
nem acesso, nem ferramentas para acompanhar de forma qualificada os assuntos
públicos. Vivem suas vidas privadas, lidam com suas urgências, e só se tornam
“público” quando algo os afeta diretamente, e, ainda assim, de forma
fragmentada.
O público, para ele, não governa. Reage. E é
aí que surge o conceito de “fantasma”.
O público aparece e desaparece, intervém de forma episódica, muitas vezes já
tarde demais, e não consegue sustentar uma participação contínua e informada.
Ele não conduz os processos políticos, ele os segue, muitas vezes sem entender
completamente o que está em jogo. Ao ler isso, eu senti uma tensão interna.
Porque, de um lado, reconheço o diagnóstico. Basta olhar ao redor: quantas
pessoas conseguem, de fato, acompanhar criticamente as decisões econômicas,
jurídicas e geopolíticas que moldam suas vidas? Quantas vezes nós mesmos nos
posicionamos com base em fragmentos, manchetes, opiniões de terceiros? Mas, de
outro lado, algo em mim resiste.
Aceitar completamente a tese de Lippmann pode nos levar a uma conclusão
perigosa: a de que a democracia deve ser conduzida por especialistas, técnicos,
elites informadas, enquanto o povo ocupa um lugar secundário, quase decorativo.
E isso me inquieta profundamente.
Porque, como alguém que atua no campo social, eu vejo diariamente que o
problema não é uma incapacidade intrínseca das pessoas. O problema é
estrutural. É a forma como a informação é produzida, distribuída e, muitas
vezes, manipulada. O público não é naturalmente “fantasma”. Ele é produzido
como fantasma.
Quando a educação é precária, quando o acesso à informação de qualidade é
desigual, quando o debate público é capturado por interesses econômicos e
políticos, o resultado não poderia ser outro. Não é que as pessoas não queiram
participar, muitas vezes, elas não têm condições reais de fazê-lo de forma
plena. E aqui eu começo a tensionar Lippmann.
Ele descreve com precisão o problema, mas, ao meu ver, naturaliza demais
suas causas. Há um risco de transformar uma condição histórica e social em uma
espécie de destino inevitável. E eu não consigo aceitar isso.
Na prática, o que vejo é que, quando há
condições, quando há educação crítica, espaços de participação, acesso à
informação clara e confiável, as pessoas participam, sim. Pensam, sim.
Questionam, sim. O problema é que esses espaços são, muitas vezes, restritos ou
fragilizados. Ao mesmo tempo, não posso simplesmente descartar Lippmann
Porque ele nos obriga a sair de um certo romantismo político. A ideia de um
povo plenamente consciente, informado e sempre mobilizado é, muitas vezes, mais
um ideal do que uma realidade. E talvez o caminho esteja justamente nessa
tensão. Reconhecer os limites reais da participação pública, sem, com isso,
desistir de ampliá-la. Isso implica, para mim, algumas tarefas urgentes.
Primeiro, repensar a comunicação política. Se o público é fragmentado e tem
pouco tempo, precisamos encontrar formas de comunicar sem simplificar demais a
ponto de distorcer. Isso exige responsabilidade, algo que, convenhamos, anda em
falta.
Segundo, investir seriamente em educação
crítica. Não como discurso vazio, mas como política pública estruturante. Sem
isso, continuaremos reproduzindo um público vulnerável à manipulação.
Terceiro, criar e fortalecer espaços de
participação real. Não apenas consultas simbólicas, mas processos em que as
pessoas possam, de fato, influenciar decisões.
E, talvez o mais difícil, reconhecer que a
democracia não é um estado alcançado, mas um processo em disputa permanente.
Ao final do livro, eu não saio convencido por
completo, e talvez isso seja um bom sinal. Saio inquieto. Porque percebo que,
em muitos momentos, nós mesmos funcionamos como esse “público fantasma”. Nos
indignamos, reagimos, opinamos, mas nem sempre conseguimos sustentar uma ação
contínua, informada e transformadora.
E isso não é apenas culpa individual. É efeito de um mundo que nos
fragmenta, nos sobrecarrega e, muitas vezes, nos despolitiza.
Mas ainda assim, eu me recuso a aceitar que
esse seja o nosso destino. Se o público é, hoje, um fantasma, talvez a tarefa
política do nosso tempo seja justamente dar corpo a ele. Porque, no fim das
contas, a democracia sem povo não é democracia. É outra coisa. E eu não estou
disposto a chamar isso de normal.
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