Quando a crítica vira crime: o risco de silenciar a consciência
Confesso que senti um incômodo profundo quando me deparei com a notícia de
que a deputada federal Tábata Amaral apresentou um projeto de lei que, na
prática, pode criminalizar críticas ao Estado de Israel. Não se trata aqui de
uma discordância pontual, nem de um embate partidário. Trata-se de algo mais
grave: o risco de transformar a crítica política, sobretudo em temas
internacionais sensíveis, em matéria penal.
E isso, para mim, é um limite que não deveria
ser atravessado. Eu parto de um princípio que considero inegociável: criticar
um Estado não é o mesmo que atacar um povo. Criticar políticas de governo não é
o mesmo que promover ódio. Misturar essas duas coisas é perigoso e, muitas
vezes, conveniente.
Vivemos um tempo em que o debate público tem sido cada vez mais tensionado
por tentativas de enquadramento moral e jurídico das opiniões. No caso de
Israel e Palestina, o cenário é ainda mais delicado. Há, sim, um histórico real
e inegociável de antissemitismo que precisa ser combatido com firmeza. Mas
também há, de outro lado, denúncias internacionais graves sobre violações de
direitos humanos, uso desproporcional da força e práticas que muitos organismos
e pesquisadores classificam como apartheid ou até genocídio. E é justamente
aqui que mora o perigo.
Se toda crítica ao Estado de Israel puder ser enquadrada como crime, o que
se está fazendo, na prática, é interditar o debate. É impedir que
pesquisadores, jornalistas, ativistas e cidadãos comuns possam se posicionar
diante de acontecimentos globais que têm implicações éticas, políticas e
humanitárias profundas. Eu me pergunto: a quem interessa esse silêncio?
Porque quando o Estado passa a definir quais críticas são legítimas e quais
são criminosas, abrimos uma porta difícil de fechar. Hoje pode ser sobre
Israel. Amanhã pode ser sobre qualquer outro país,ou, pior, sobre o próprio
Brasil.
Como sociólogo, assistente social e estudante
de psicologia, eu aprendi que o silenciamento não resolve conflitos, ele os
aprofunda. Na clínica, quando algo não pode ser dito, ele retorna como sintoma.
Na política, quando a crítica é interditada, ela retorna como radicalização,
desinformação ou violência.
Não há democracia sem conflito. E não há
conflito saudável sem liberdade de expressão.
Isso não significa, evidentemente, que tudo
pode ser dito sem consequências. Discurso de ódio, incitação à violência,
racismo, antissemitismo, tudo isso precisa ser combatido com rigor. Mas isso já
está previsto na legislação brasileira. Criar uma camada adicional,
especialmente direcionada a um Estado específico, me parece um movimento
juridicamente questionável e politicamente perigoso.
Além disso, há uma dimensão geopolítica que
não pode ser ignorada. O Brasil historicamente construiu uma política externa
baseada no multilateralismo, no diálogo e na defesa do direito internacional.
Ao tentar restringir críticas a um Estado específico, corremos o risco de
alinhar nossa legislação interna a interesses externos, enfraquecendo nossa
autonomia diplomática.
Recentemente, vieram à tona relatos de conflitos em Itacaré, no interior da
Bahia, envolvendo turistas israelenses, muitos deles militares em período de
férias, e moradores locais. Segundo denúncias, comportamentos agressivos teriam
gerado tensões e até confrontos. Independentemente das versões e da necessidade
de apuração rigorosa dos fatos, o que me chama atenção é outra coisa: como
essas presenças, atravessadas por contextos militares e geopolíticos, chegam
aos territórios e produzem efeitos reais na vida cotidiana das pessoas.
E eu me pergunto: se moradores quiserem
criticar essas situações, denunciar abusos ou questionar posturas, isso poderá
ser interpretado como crime? Percebe o tamanho do problema?
Estamos falando de relações concretas, de conflitos reais, de experiências
vividas em territórios brasileiros. Criminalizar a crítica, nesse contexto, é
não apenas silenciar o debate internacional, mas também impedir que comunidades
expressem suas próprias vivências e indignações. E aqui eu preciso ser
propositivo.
Ao invés de criminalizar críticas, deveríamos fortalecer a educação política
e midiática da população. Ensinar a diferenciar crítica legítima de
preconceito. Investir em espaços de diálogo qualificado, onde diferentes
posições possam ser debatidas com responsabilidade.
Mais do que isso, o Congresso Nacional deveria
estar preocupado em combater efetivamente todas as formas de discriminação, sem
seletividade. Se há aumento de antissemitismo, isso precisa ser enfrentado. Mas
também precisamos olhar para islamofobia, racismo estrutural, violência contra
povos indígenas, entre outras formas de opressão que seguem naturalizadas.
Selecionar uma dor e transformá-la em
prioridade absoluta, enquanto outras permanecem invisibilizadas, não é justiça.
É hierarquização do sofrimento. E eu não consigo aceitar isso.
Eu quero viver em um país onde seja possível dizer: “discordo da política de
um governo estrangeiro” sem medo de ser criminalizado. Onde a solidariedade
internacional não seja confundida com crime. Onde a ética não seja substituída
por conveniências diplomáticas ou pressões geopolíticas.
Porque, no fundo, essa discussão não é sobre
Israel apenas. É sobre nós.
Sobre o tipo de democracia que queremos construir.
Sobre o quanto estamos dispostos a abrir mão da liberdade em nome de supostas
proteções.
E sobre quem decide o que pode, e o que não pode, ser dito.
Se há algo que a história nos ensina, é que
toda vez que a crítica é silenciada, algo muito mais grave está sendo
preparado. E eu, sinceramente, não estou disposto a assistir isso em silêncio.
Comentários
Postar um comentário