Quando a linguagem apodrece, a política adoece: um incômodo chamado Orwell
Ler A política e a língua inglesa, de
George Orwell, não foi apenas um exercício intelectual. Foi um choque de
reconhecimento. Porque, enquanto eu avançava no texto, não conseguia evitar a
sensação de que Orwell não estava falando apenas da Inglaterra do seu tempo,
ele estava, de alguma forma, descrevendo o Brasil de hoje, o mundo de hoje, e
talvez até a maneira como eu mesmo, em alguns momentos, me escondo atrás das
palavras.
Orwell parte de uma constatação simples, mas
devastadora: a linguagem política tende a se deteriorar quando passa a servir
mais à manipulação do que à comunicação. E essa deterioração não é neutra. Ela
tem função. Ela mascara, suaviza, distorce. E eu comecei a perceber o quanto
estamos imersos nisso.
Quantas vezes ouvimos expressões como “ajuste fiscal”, “flexibilização”,
“dano colateral”, “pacificação”, “reordenamento urbano”? Palavras que parecem
técnicas, neutras, quase inevitáveis, mas que, quando olhadas de perto,
escondem cortes de direitos, violência, expulsão de populações, morte.
Orwell denuncia exatamente isso: o uso da
linguagem como véu.
Não se diz “bombardeamos civis”. Diz-se
“realizamos uma operação estratégica”.
Não se diz “retiramos direitos trabalhistas”. Diz-se “modernizamos as relações
de trabalho”.
Não se diz “matamos”. Diz-se “neutralizamos”.
E, aos poucos, a realidade vai sendo
anestesiada.
Como alguém que transita entre a psicologia, a
psicanálise e o campo social, isso me inquieta profundamente. Porque a
linguagem não é apenas um instrumento de comunicação, ela é também um
organizador da experiência. Quando as palavras são esvaziadas, a própria
capacidade de pensar se empobrece.
Orwell sugere algo que me parece extremamente
atual: a corrupção da linguagem e a corrupção do pensamento caminham juntas. E
isso me faz pensar na clínica.
Quantas vezes uma pessoa chega dizendo “tá tudo bem”, quando claramente não
está? Quantas vezes usamos palavras genéricas, “ansiedade”, “estresse”,
“problema”, para evitar nomear aquilo que realmente nos atravessa? Existe, no
nível individual, algo muito semelhante ao que Orwell descreve no campo
político: uma fuga da verdade por meio da linguagem.
Mas, no plano coletivo, isso ganha outra
dimensão. Porque não se trata apenas de evitar o sofrimento, trata-se de
produzir consenso.
Uma população que não consegue nomear o que vive, dificilmente consegue se
organizar para transformar essa realidade. Se eu não consigo dizer que estou
sendo explorado, eu talvez aceite isso como “normal”. Se eu não consigo
reconhecer a violência, eu posso até defendê-la. E aí a linguagem deixa de ser
ponte e vira instrumento de dominação.
Orwell também critica os clichês, as metáforas mortas, as frases prontas. E,
confesso, isso me atingiu pessoalmente. Porque percebi o quanto, muitas vezes,
repetimos discursos prontos, inclusive no campo progressista, sem nos darmos
conta de que estamos apenas reproduzindo formas vazias.
Falar “luta”, “resistência”, “consciência”,
“democracia” pode se tornar automático. E quando isso acontece, essas palavras
perdem força. Elas deixam de mobilizar.
E talvez esse seja um dos pontos mais importantes do texto: não basta ter as
palavras certas, é preciso que elas estejam vivas.
Orwell propõe algo que, à primeira vista,
parece simples: escrever de forma clara, direta, evitando jargões
desnecessários e palavras que escondem mais do que revelam. Mas, na prática,
isso é extremamente difícil. Porque exige um compromisso com a verdade, e a
verdade, muitas vezes, é incômoda.
É mais fácil dizer “houve excessos” do que
dizer “houve violência”.
É mais confortável falar em “conflito” do que em “injustiça”.
A linguagem clara nos compromete. E talvez
seja por isso que ela seja tão evitada.
Ao terminar o texto, fiquei com a sensação de que Orwell não está apenas
criticando a linguagem dos outros, ele está nos convocando a uma ética da
palavra. Uma responsabilidade com aquilo que dizemos, escrevemos e, sobretudo,
com aquilo que escolhemos não dizer. No Brasil de hoje, isso me parece urgente.
Vivemos cercados por disputas narrativas, fake news, discursos inflados e
vazios, tecnicismos que afastam a população do debate público. E, ao mesmo
tempo, uma avalanche de informações que dificulta a elaboração crítica.
Nesse cenário, recuperar a potência da
linguagem é um ato político. Falar com clareza é um ato político. Nomear a
realidade sem rodeios é um ato político. Recusar eufemismos que encobrem a
violência é um ato político.
E isso não vale apenas para governos ou grandes veículos de comunicação.
Vale para mim, para você, para qualquer pessoa que use a palavra no espaço
público.
Eu termino essa leitura com um desconforto
produtivo. Porque percebo que não estou fora desse problema. Eu também, em
muitos momentos, já usei palavras para evitar dizer o que precisava ser dito.
Já me escondi atrás de conceitos, já recorri a fórmulas prontas.
E talvez o primeiro passo seja esse: reconhecer. Reconhecer que a linguagem
pode ser tanto instrumento de libertação quanto de opressão. E que a diferença
entre uma coisa e outra está, muitas vezes, na honestidade com que escolhemos
nossas palavras
Orwell não oferece soluções mágicas. Mas ele nos dá um alerta que continua
ecoando: Quando a linguagem se torna imprecisa, a verdade se torna frágil. E
quando a verdade se torna frágil, a democracia inteira corre risco. Cabe a nós
decidir o que vamos fazer com isso.
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