Freud no século XXI: por que a psicanálise continua a nos inquietar? Uma reflexão a partir de Gilson Iannini

 

Ler Freud no século XXI – Volume 1: O que é psicanálise?, de Gilson Iannini, produziu em mim uma experiência intelectual rara: a sensação de que uma pergunta aparentemente simples pode desestabilizar quase tudo aquilo que pensamos saber sobre nós mesmos. Afinal, o que é a psicanálise? Seria uma ciência? Uma prática clínica? Uma hermenêutica? Uma ética? Uma teoria da cultura? Ou seria, precisamente, uma disciplina cuja força reside em escapar às classificações definitivas?

Ao longo da leitura, fui tomado pela impressão de que Iannini não busca oferecer uma definição fechada da psicanálise. Ao contrário, ele nos convida a habitar a própria inquietação que constitui o gesto freudiano. Freud não fundou apenas uma técnica terapêutica; ele produziu uma ruptura antropológica comparável, em muitos aspectos, às revoluções copernicana e darwiniana. Depois de Freud, tornou-se impossível pensar o sujeito humano como plenamente transparente a si mesmo.

Essa constatação, que poderia parecer banal após mais de um século de psicanálise, adquire uma força renovada no século XXI. Vivemos em uma época fascinada pela transparência, pela mensuração, pelos algoritmos preditivos e pela ilusão de que todos os aspectos da vida humana podem ser convertidos em dados. Nesse contexto, a insistência freudiana na opacidade do desejo e na divisão constitutiva do sujeito assume um caráter quase subversivo.

Ao ler Iannini, retornei inevitavelmente a Lacan. Se Freud descobriu o inconsciente, Lacan radicalizou sua descoberta ao afirmar que o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Essa formulação, frequentemente mal compreendida, desloca profundamente nossa compreensão da subjetividade. O sujeito não é o proprietário soberano de sua linguagem; é, antes, constituído por ela. Falamos, mas somos também falados pela linguagem, pela cultura, pela história e pelos desejos que nos antecedem.

No mundo contemporâneo, essa formulação lacaniana parece adquirir nova relevância. As redes sociais, os algoritmos de recomendação e os sistemas de inteligência artificial não apenas organizam informações; eles participam da constituição dos próprios sujeitos. O grande Outro, na formulação lacaniana, parece hoje assumir formas tecnológicas e algorítmicas inéditas.

Mas Lacan também nos oferece outra ferramenta decisiva: sua compreensão do desejo como falta estrutural. Contra todas as promessas contemporâneas de completude, felicidade permanente e otimização ilimitada, a psicanálise insiste que o desejo humano nasce precisamente da impossibilidade de sua satisfação plena. Talvez por isso a cultura contemporânea, organizada em torno do consumo, da performance e da auto otimização, produza simultaneamente tanta excitação e tanto sofrimento.

Nesse ponto, Slavoj Žižek surge como um interlocutor privilegiado. Sua releitura lacaniana da ideologia mostra que os seres humanos não são enganados simplesmente porque desconhecem a verdade, mas porque desejam determinadas fantasias que sustentam sua própria realidade social. O capitalismo contemporâneo não vende apenas mercadorias; ele vende formas de desejar, modos de sofrer e fantasias de realização pessoal.

A própria promessa da sociedade digital, de que poderemos finalmente nos tornar transparentes para nós mesmos, eficientes, produtivos e felizes, talvez constitua uma das maiores fantasias ideológicas de nossa época. A psicanálise continua sendo perigosa justamente porque insiste em recordar que existe algo no sujeito que escapa permanentemente à administração, ao controle e à mercantilização.

Ao mesmo tempo, a leitura de Iannini me fez retornar a Donald Winnicott. Se Lacan enfatiza a dimensão estrutural da linguagem e do desejo, Winnicott nos recorda da importância decisiva da experiência relacional e da constituição do self. Seu conceito de espaço potencial me parece particularmente relevante para pensar o mundo contemporâneo.

Vivemos em uma sociedade que coloniza progressivamente todos os espaços de experiência, lazer, intimidade e imaginação. O espaço potencial, essa região intermediária entre realidade interna e externa, onde surgem a criatividade, o brincar e a cultura, encontra-se cada vez mais ameaçado pela aceleração permanente e pela lógica da produtividade. Talvez parte significativa do sofrimento contemporâneo decorra precisamente da dificuldade crescente de sustentar espaços subjetivos de criação e simbolização.

Essa reflexão conduz inevitavelmente a Jean Laplanche. Sua teoria da sedução generalizada oferece uma compreensão sofisticada da constituição psíquica ao enfatizar que o sujeito humano nasce imerso em mensagens enigmáticas provenientes do outro. Não existe subjetividade autônoma originária. Somos, desde o início, atravessados pela alteridade.

Essa formulação me parece particularmente importante diante das tendências individualistas contemporâneas. O sofrimento psíquico não pode ser compreendido exclusivamente como fenômeno biológico ou intrapsíquico. Ele emerge sempre em uma rede complexa de relações, significações e conflitos históricos.

É justamente aqui que Michel Foucault se torna indispensável. Embora frequentemente apresentado como crítico da psicanálise, Foucault jamais deixou de reconhecer sua importância histórica. Sua análise das relações entre saber, poder e subjetividade nos permite compreender que toda teoria do sujeito é também uma teoria política.

A medicalização crescente da vida cotidiana, a expansão dos sistemas diagnósticos, a psicologização das relações sociais e a administração biopolítica das populações constituem processos que exigem diálogo permanente entre psicanálise e teoria crítica. O sofrimento não é apenas individual; ele é produzido socialmente.

Byung-Chul Han, herdeiro contemporâneo dessa tradição crítica, talvez tenha formulado uma das descrições mais precisas da subjetividade neoliberal. Na sociedade do desempenho, o sujeito explora a si mesmo acreditando exercer sua liberdade. A depressão, a ansiedade e o burnout não são meramente doenças individuais; constituem sintomas sociais de um regime de produção subjetiva.

Nesse sentido, a psicanálise continua oferecendo algo que nenhuma outra abordagem consegue substituir integralmente: a possibilidade de escutar o sofrimento não apenas como disfunção, mas como linguagem.

As contribuições de Judith Butler ampliam ainda mais esse horizonte. Seu diálogo crítico com Freud, Lacan e Foucault demonstra que gênero, sexualidade e identidade não podem ser pensados como essências naturais nem como construções puramente voluntárias. Somos constituídos por normas sociais que simultaneamente nos possibilitam e nos limitam.

A teoria queer, ao dialogar criticamente com a psicanálise, revelou tanto suas limitações históricas quanto sua extraordinária capacidade de pensar a instabilidade constitutiva da identidade humana. O sujeito não é uma substância; é um processo, uma negociação permanente entre desejo, linguagem, corpo e poder.

Ao refletir sobre tudo isso, percebo que a pergunta proposta por Gilson Iannini, "o que é psicanálise?", talvez seja inseparável de outra pergunta: "o que significa ser humano no século XXI?"

Em uma época marcada pela inteligência artificial, pela vigilância algorítmica, pela aceleração social, pela crise ecológica e pela mercantilização crescente da experiência, a psicanálise continua ocupando um lugar singular. Ela não promete felicidade, eficiência ou adaptação. Ela não oferece técnicas rápidas de otimização subjetiva. Ela não produz sujeitos mais produtivos ou mais competitivos.

Sua aposta é outra, talvez mais modesta e mais radical: a de que existe algo no ser humano que resiste permanentemente à captura completa pelo poder, pelo mercado, pela técnica e até mesmo pelo próprio conhecimento.

Talvez seja essa a verdadeira atualidade de Freud.

Não porque ele tenha oferecido respostas definitivas, mas porque nos ensinou que o humano começa precisamente onde fracassam nossas tentativas de sermos completamente transparentes para nós mesmos.

No século XXI, em meio à euforia tecnológica e à racionalidade algorítmica, talvez a psicanálise continue sendo uma das últimas formas de pensamento a insistir que somos seres divididos, desejantes, históricos, vulneráveis e, justamente por isso, irredutivelmente humanos.

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