A República do Quintal
Na cidade de Santa Eulália do Norte, onde os prédios cresciam mais depressa do que as árvores e os automóveis pareciam disputar entre si quem buzinava com maior ressentimento, morava o senhor Anselmo Valverde. Sua casa era uma sobrevivente. Espremida entre uma farmácia de vinte e quatro horas e um edifício de quinze andares chamado Residencial Jardim das Acácias, embora não houvesse uma única acácia no terreno, a casa de Anselmo resistia com suas paredes azuis, telhas antigas e um quintal tão vivo que chegava a parecer uma afronta ao planejamento urbano. Naquele quintal havia três mangueiras, um cajueiro torto, dois pés de limão, bananeiras, ervas medicinais, roseiras, samambaias e uma velha goiabeira que, segundo Anselmo, tinha mais juízo do que boa parte dos vereadores da cidade. Havia também galinhas, um peru, um pavão, um gato, um cachorro, dois coelhos e um porco chamado Sócrates. Anselmo tinha sessenta e três anos, era funcionário aposentado dos Correios e convers...