Quando o silêncio nos devolve o olhar

 

Hoje, no Centro Cultural Banco do Nordeste Fortaleza, assisti a O silêncio barulhento dos seus olhos, solo de dança contemporânea concebido e interpretado por Fábio Sabath. Saí da apresentação com a sensação de que o silêncio, quando acolhido como linguagem, não representa ausência: ele pode guardar conflitos, afetos, lembranças, medos e tudo aquilo que o corpo sabe, embora nem sempre consiga transformar em palavras.

Fábio Sabath é o nome artístico de Gleidison de Jesus Santos, artista sergipano e professor do curso de Dança da Universidade Federal de Sergipe. Sua trajetória começou aos 15 anos, em projetos estudantis, e foi se consolidando por meio da formação, da criação e da docência. Esse percurso aparece em cena não como exibição de currículo, mas como maturidade corporal. Há, em seus movimentos, uma consciência de que dançar não é somente executar gestos tecnicamente precisos. É elaborar experiências, interrogar a própria presença e produzir conhecimento por meio do corpo.

O solo investiga a quietude como movimento e memória viva. Essa ideia me pareceu especialmente potente porque vivemos em uma sociedade que associa movimento à velocidade, produtividade e rendimento. Tudo precisa circular depressa, apresentar resultados e ser imediatamente compreendido. Até os nossos sentimentos parecem submetidos à obrigação de oferecer respostas rápidas. A obra de Fábio Sabath confronta essa lógica ao mostrar que permanecer imóvel também pode constituir um acontecimento. Um corpo aparentemente quieto continua respirando, recordando, resistindo e comunicando.

Em O silêncio barulhento dos seus olhos, a quietude não é passividade. Ela possui tensão. O corpo pode estar silencioso e, ainda assim, fazer perguntas incômodas. Pode guardar aquilo que não foi dito, aquilo que foi reprimido e até aquilo que não encontrou ainda uma forma socialmente reconhecida de expressão. Observei o dançarino e pensei em quantas histórias permanecem inscritas nos músculos, nas articulações, na postura e no modo como cada pessoa ocupa, ou é impedida de ocupar, um espaço.

A força expressiva da apresentação nasce justamente dessa confiança no corpo. O artista não necessita preencher a cena com gestos excessivos para manter a atenção do público. Ele trabalha também com a suspensão, o intervalo e a espera. Seus olhos, anunciados no título da obra, tornam-se parte essencial dessa dramaturgia. Olhar e ser olhado deixam de ser atos neutros. Há sempre uma história no olhar: desejo, julgamento, reconhecimento, vigilância, acolhimento ou recusa.

A trilha sonora manipulada ao vivo intensificou o caráter aberto e pulsante da experiência. O som não funcionou como simples acompanhamento, mas como matéria que dialogava com o corpo. Em alguns momentos, parecia nascer do movimento; em outros, provocá-lo ou desestabilizá-lo. A iluminação dramatúrgica também acompanhava o fluxo corporal, desenhando atmosferas e transformando o espaço. Luz, som e dança não estavam sobrepostos: formavam um organismo cênico no qual cada elemento afetava os demais.

Um dos aspectos mais instigantes da proposta era a possibilidade de o público interferir nos caminhos da obra. Os espectadores poderiam sugerir direções, deslocamentos ou intervenções capazes de modificar a apresentação. No entanto, ninguém o fez. A obra ofereceu participação, mas a plateia permaneceu em silêncio.

Esse silêncio coletivo me inquietou. Talvez todos estivessem concentrados demais para interromper o fluxo da performance. Talvez houvesse receio de interferir inadequadamente ou de expor-se diante das outras pessoas. Talvez tenhamos sido educados para imaginar a arte como algo pronto, entregue por um artista a um público que deve apenas observar. Mesmo quando recebemos autorização para participar, podemos permanecer presos à posição convencional de espectadores.

A ausência de intervenção, contudo, também acabou fazendo parte da obra. O público gerenciou seus caminhos justamente pela decisão, consciente ou não, de não agir. Não escolher também é uma escolha. A passividade não elimina nossa responsabilidade pelo acontecimento; ao contrário, revela como agimos coletivamente diante de uma possibilidade de participação.

Essa situação ultrapassa o espaço artístico. Quantas vezes somos convidados a participar da vida social, cultural e política, mas permanecemos imóveis por medo, constrangimento ou pela crença de que nossa iniciativa não fará diferença? Quantas vezes esperamos que alguém tome a palavra primeiro? A cena ofereceu uma espécie de espelho: diante de um corpo disponível ao encontro, a plateia respondeu com a segurança da observação silenciosa.

Não afirmo isso para condenar o público. Eu também permaneci em silêncio. Minha crítica começa por mim mesmo. Por que não propus uma intervenção? O que me conteve? Respeito pela autonomia do artista, timidez, dúvida ou simples hábito? A apresentação me fez perceber que a participação exige mais do que uma autorização formal: exige confiança, coragem e disposição para assumir as consequências da própria presença.

Há ainda uma dimensão política na investigação realizada por Fábio Sabath. Os corpos não possuem o mesmo direito ao silêncio, à fala ou à visibilidade. Alguns são permanentemente convocados a explicar-se; outros são silenciados. Alguns olhares são reconhecidos como legítimos; outros são tratados como ameaça. Quando um artista nordestino, sergipano, professor de uma universidade pública, coloca seu corpo no centro da cena e transforma sua trajetória em pesquisa estética, ele também reivindica a dança como campo de pensamento e produção de saber.

Valorizar esse trabalho significa igualmente reconhecer a importância das universidades públicas para a formação artística brasileira. A presença de Fábio Sabath na Universidade Federal de Sergipe aproxima criação, ensino, pesquisa e extensão. Sua trajetória, iniciada em projetos estudantis, demonstra como oportunidades educativas e culturais podem modificar uma vida. Em um país tão desigual, garantir o acesso de adolescentes e jovens à dança não é luxo. É política de formação humana, direito cultural e possibilidade concreta de reinvenção do futuro.

O CCBNB Fortaleza também cumpre um papel fundamental ao acolher experiências que não se submetem à lógica imediata do entretenimento. Precisamos de espaços culturais nos quais a arte possa provocar estranhamento, silêncio e perguntas, sem a obrigação de oferecer respostas prontas ou produtos facilmente consumíveis.

Saí de O silêncio barulhento dos seus olhos pensando que o corpo talvez seja o nosso primeiro arquivo. Nele permanecem as marcas do tempo, das relações, das violências e dos afetos. A dança consegue abrir esse arquivo sem transformá-lo necessariamente em narrativa linear. Ela permite que a memória apareça como contração, pausa, desequilíbrio, respiração, repetição e presença.

O silêncio proposto por Fábio Sabath não pediu que abandonássemos o mundo. Pediu que escutássemos aquilo que o excesso de ruído cotidiano costuma esconder. E talvez o maior barulho da apresentação tenha surgido justamente de nossa quietude: ninguém interveio, mas todos fomos, de algum modo, envolvidos pela responsabilidade de olhar.

Ao final, compreendi que aqueles olhos não estavam somente sendo observados por nós. Eles também nos observavam. E, ao nos devolverem o olhar, perguntavam silenciosamente: diante de um corpo, de uma obra e de uma possibilidade de encontro, o que fazemos com a liberdade que nos é oferecida?

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